Liverpool adotou a lei do mínimo esforço como abordagem à fase de grupos e (até agora) tem dado certo

Chamou a atenção quando Jürgen Klopp contra o Ajax, tirou Salah, Mané e Firmino de uma vez só, aos 15 minutos do segundo tempo, vencendo apenas por 1 a 0 e com os holandeses levando certo perigo. Não houve questão física e o jogo estava indefinido: por que tirar suas três estrelas ofensivas ao mesmo tempo? Porque o treinador alemão aparentemente decidiu abordar a fase de grupos da Champions League sob a lei do mínimo esforço e, com mais uma vitória, por 2 a 0, sobre o Midtjylland, nesta terça-feira, a estratégia tem dado certo.

Por lei do mínimo esforço, não entenda como corpo mole ou falta de brio. É uma administração de energias e corpos, sob certo ponto de vista necessária em um calendário mais apertado do que o habitual por causa da pandemia. Isso ficou mais claro ainda contra o Midtjylland, nem tanto pela escalação de um ataque completamente reserva, e mais pela maneira como o Liverpool, uma vez à frente do placar, não se esforçou muito para marcar o segundo gol – o que acabou fazendo nos acréscimos, com Salah, de pênalti.

Sem entrar em um tratado sobre a desigualdade financeira do futebol europeu, faz tempo que a fase de grupos da Champions League tem pecado pela previsibilidade de seus classificados. Em uma chave sem um outro cachorro grande – em termos estruturais porque em bola a Atalanta deve pouco a qualquer time -, o Liverpool avaliou que passará às oitavas de final sem precisar de grandes esforços. Se em alguma altura a vaga estiver sob perigo, pode pisar o acelerador, o que naturalmente traz um risco: pode não ser o bastante, pode ser tarde demais.

Isso não é necessariamente a invenção da roda. Alex Ferguson cansou de administrar a fase de grupos, especialmente na metade final da sua longa passagem pelo Manchester United – punido por uma outra tragédia de vez em quando. Ao Liverpool, por enquanto, tudo está tranquilo. Conseguiu somar seis pontos poupando-se bastante e pode até dar uma forçada nos dois confrontos contra a Atalanta para tentar encaminhar o primeiro lugar ou mesmo garantir a vaga, o que lhe daria dois jogos de folga. Além de ser um pouco perigoso demais enfrentar os homens de Gasperini sem levar o jogo 100% a sério.

Dentro dessa estratégia, o ataque foi formado por Shaqiri, Minamino, Diogo Jota e Divock Origi, e, em termos bem claros, foi um desastre, encaixotado pela defesa do Midtjylland. A melhor chance foi dos visitantes, logo aos dois minutos, defendida por Alisson. Os laterais Alexander-Arnold e Robertson apareceram bem pelos lados algumas vezes, sem realmente levar perigo ao goleiro Andersen. A primeira finalização dos Reds, aos 37 minutos, nem foi direito uma finalização – Diogo Jota bateu completamente torto em uma cobrança de escanteio. Na reta final, até surgiram algumas chegadas, com Milner e Origi, mas os chutes foram todos bloqueados. Andersen sequer precisou fazer uma defesa. O Midtjylland poderia ter jogado com uma estátua do Thor como goleiro que daria na mesma.

E para piorar a situação, por volta dos 27 minutos, Fabinho sentiu uma lesão, aparentemente muscular, e precisou ser substituído pelo garoto Rhys Williams. O volante brasileiro vinha quebrando muito bem o galho na linha defensiva desde a lesão de Virgil Van Dijk e, dependendo da gravidade do problema, deixará o Liverpool com um cobertor assustadoramente curto no setor. Restariam apenas Joe Gomez e Joel Matip como zagueiros adultos e ambos têm agudas inclinações a visitas longas ao departamento médico.

Logo aos 10 minutos do segundo tempo, o Liverpool abriu o placar com uma linda jogada. Arnold recebeu na direita, passou pelo marcador e deixou com Shaqiri. Projetou-se à grande área, recebeu o passe e ficou na cara do gol. Como bom lateral que é, cruzou rasteiro para Diogo Jota, sem goleiro, empurrar às redes e anotar o 10.000º gol da história dos Reds.

Mantendo o seu plano de rotação à risca, Klopp colocou Salah e Mané em campo ao mesmo tempo, novamente por volta dos 15 minutos da etapa final. Era um sinal de que talvez o Liverpool buscasse uma agressividade maior para matar a partida. Mas não foi o que aconteceu. Alisson, por exemplo, deixou o relógio correr o máximo possível duas vezes antes de agarrar a bola dentro da sua área. A dinâmica do jogo na reta final foi o Midtjylland um pouco mais com a bola, e o Liverpool se defendendo.

E aí, vieram os riscos dessa estratégia. Evander recebeu dentro da área, aos 33 minutos, girou e bateu rasteiro, bem perto da trave. Firmino, recém-inserido no ataque, perdeu um gol feito pouco depois, e Dryer deixou Joe Gomez na saudade antes de bater com uma cavadinha, por cima de Alisson, mas na rede pelo lado de fora. Apenas nos acréscimos, Salah escapou livre para dentro da área e foi derrubado por Paulinho. Com uma batida firme, o egípcio selou de vez a vitória do Liverpool.

.

.