Lisca cai nas graças do América não só por aquilo que faz, mas pela forma como faz

A maior campanha da história do América Mineiro na Copa do Brasil também é um dos grandes capítulos do torneio que, nos últimos anos, fechou suas portas às surpresas. Se historicamente a competição nacional ofereceu um caminho aberto para equipes de fora da elite apresentarem suas virtudes, as mudanças de regulamentos recentes podem ter aumentado o nível competitivo, mas provocaram a mesmice. O Coelho representa uma quebra, ao iniciar sua caminhada ainda na primeira fase do torneio e derrubar adversários vindos da Libertadores. Uma epopeia que, afinal, atrai mais entusiasmo por ter um protagonista tão sui generis: Lisca, cativante como raríssimos treinadores.

Lisca não tem muitos problemas em ser tratado como um técnico folclórico. Seu próprio jeito de se portar à beira do campo e nas entrevistas reforça a imagem de “doidão”, com uma dose cavalar de autenticidade e de pouca preocupação com a opinião de fora. É o que conquista muita gente. Nesta quarta, durante a classificação sobre o Internacional, o treinador atraiu os holofotes. Descabelou-se na área técnica, entrou em transe após a classificação, brincou diante da câmera, festejou com a torcida que vibrava do lado de fora do Independência. Um show à parte, de quem sabe ser o dono da cena.

“Faz a TED” é a frase do treinador que marca a campanha do América, em referência à gorda premiação na Copa do Brasil. Depois da partida, Lisca ainda teve sensibilidade ao dedicar o triunfo às funcionárias do clube, em especial à ‘Tia Ana’, que trabalha na lavanderia. “Um beijão para as tias da cozinha e para a tia Ana. Essa semana foi muito ruim, a gente perdeu o filho dela na convulsão social que muitas vezes vive o Brasil. Tia Ana, essa classificação é para você e para todas as tias e funcionárias do América, que nos tratam com todo o carinho”, declarou, em coletiva na qual ainda ofereceu abraços a diferentes pessoas – inclusive à própria avó.

A dose de loucura faz parte de Lisca e, em tempos nos quais o futebol se vê tão asséptico pelas assessorias de imprensa, o comandante resgata outros tempos mais espontâneos nos vestiários. Parece que o padrão para um treinador ser respeitado é parecer um professor, num tom por vezes esvaziado e um tanto quanto homogeneizado. O gaúcho acaba deixando de lado esses rótulos e, ainda que por vezes acabe estereotipado, transmite mais de si. Amado na maioria dos clubes em que passa, cria uma relação mais forte mesmo em meio ao imediatismo que existe na avaliação dos técnicos.

O jeito de Lisca, obviamente, é respaldado por suas qualidades como treinador. Está longe de ser apenas um personagem e é preciso separar o folclore quando se avalia sua trajetória à beira do campo. À frente do Ceará, em seu momento mais expressivo antes da chegada ao América Mineiro, Lisca conquistava bons resultados e conseguiu livrar o clube do rebaixamento por duas vezes. O comandante sabe montar bons sistemas defensivos e ataques verticais, o que fez seu nome principalmente em times sob apuros. O Coelho, de qualquer maneira, representa também um passo além por aquilo que se constrói.

No Estádio Independência, Lisca encontrou um ambiente favorável. O América é um clube estável para sua realidade e costuma obter bons desempenhos, mesmo nessa transição constante entre a primeira e a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Não é um time que costuma fazer loucuras no mercado, mas garante continuidade e poucas reviravoltas internas. Um dos abraços de Lisca na coletiva desta quarta foi a Felipe Conceição, seu antecessor no banco mineiro, que deixou o clube para assumir o Red Bull Bragantino. A consideração veio justamente por assumir a base de Felipe que ficou a um ponto do acesso na Série B de 2019 e poder aprimorar o trabalho. O que se vê em 2020 não é por acaso.

O América Mineiro também merece créditos por acreditar em Lisca e confiar no treinador além da postura folclórica. Durante os últimos anos, até por sua personalidade, o comandante teve passagens curtas por alguns clubes e algumas saídas intempestivas. No Independência, a relação se mostra positiva além das quatro linhas. E, dentro de campo, isso se corresponde. Sem grandes medalhões, mas com a liderança dos bons Rodolfo, Ademir e Messias, o Coelho possui uma equipe coletivamente bem montada. Não exibe um futebol de encher os olhos, mas cumpre seu papel em duas competições que exigem diferentes competências para atingir o sucesso.

Na Copa do Brasil, o América atravessou a primeira metade da campanha encarando oponentes das divisões de acesso. Eliminou Santos do Amapá, Operário Ferroviário, Ferroviária e Ponte Preta. A partir das oitavas, a competição se afunilou e exigiu que o time peitasse adversários mais endinheirados. O Coelho conseguiu se impor sobre o Corinthians e também não se intimidou contra o Internacional. A vitória no Beira-Rio, em que os mineiros foram melhores durante a maior parte do tempo, é o grande emblema da caminhada. Já na Série B, o desafio é manter a regularidade e saber se adaptar aos adversários conforme o momento, numa briga de foice. Os mineiros também fazem um excelente trabalho, na terceira colocação, mantendo as chances de acesso principalmente por contarem com a segunda melhor defesa do torneio.

E o que se nota, mesmo em tempos de arquibancadas vazias, é uma simbiose do time de Lisca com a torcida do América Mineiro. Apesar das recomendações das autoridades, os torcedores foram às ruas para apoiar a equipe antes da partida desta quarta-feira, com sinalizadores e muito barulho nos arredores do Independência. Antes da definição, o treinador já tinha seu nome gritado. A explosão maior, de qualquer maneira, ficaria guardada para depois. Lisca também não se restringiu ao se misturar à galera.

O objetivo principal do América precisa ser o acesso na Série B. É o que permite o clube se expandir de maneira sustentável e conduzir a boa estrutura dos últimos anos, mesmo que não dê passos maiores que as pernas para se manter na elite. A Copa do Brasil é um bônus muito bem-vindo, especialmente em tempos de pandemia e retração do mercado. A premiação de oito dígitos acumulada até o momento dá mais segurança financeira ao Coelho. Mas, obviamente, ninguém deseja que o sonho pare por aí. O encontro com o Palmeiras na semifinal é mais uma oportunidade. E ainda que o adversário venha em crescente, os mineiros já mostraram como podem complicar a vida de oponentes mais badalados.

O papel de Lisca, agora, é fazer todos comprarem o sonho desvairado que é a semifinal da Copa do Brasil. E o comandante sabe como motivar as pessoas ao seu redor, dos jogadores aos torcedores. “Queria agradecer a todos aqui no América que me abraçaram de coração. A torcida, que fez uma festa linda na chegada do time no Independência, no outro jogo também. Agora é bater no peito e dizer que tem orgulho de ser América. É uma torcida de pai pra filho, de avô pra neto. E o América é grande, é muito grande, nós vamos brigar muito ainda nessa Série B”, afirmou, na coletiva. “Passar à semifinal não nos dá nada, não deixa a gente soberbo. Pelo contrário, nos dá mais força, vibração e energia para nosso time trabalhar cada vez mais”.

O que a torcida do América mais quer é esse reconhecimento da grandeza do clube, bem como o espírito de luta para ir além num ano já especial à história do Coelho. Lisca é o cara que encabeça o sonho. O técnico oferece esse estalo de insanidade, alimentado por suas próprias atitudes, mas sem perder o senso de realidade ao montar um time competitivo e ciente de suas carências. Torcedor não quer necessariamente jogo bonito, mas uma equipe que dê seu máximo sempre e extrapole os próprios limites. Do seu jeito, Lisca consegue extrair isso.

E o treinador extrapola também um tipo de relação quase sempre determinada pelo resultadismo e pelas cobranças. Lisca é um raro técnico que se torna ídolo por oferecer mais que a ânsia por vitórias: ele veste a camisa. Uma sequência ruim de resultados ou uma proposta polpuda podem até romper abruptamente essa história, por mais que o gaúcho tenha recusado sondagens nos últimos meses. O que não dá para dizer é que esse furor todo não foi verdadeiro.