Apresentador da BBC, Gary Lineker tornou-se uma das figuras públicas do futebol inglês mais interessantes. Concorde com ele ou não, o ex-jogador não tem medo de opinar, seja sobre a bola que rola nos gramados que hoje em dia parecem “mesas de sinuca” ou sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Tanto que ele afirmou em entrevista ao Guardian que o seu time de 1990, aquela Inglaterra que chegou às semifinais da Copa do Mundo, não teria a menor chance contra os esquadrões de atualmente.

Claro que ele faz a ponderação de que os melhores jogadores da sua época, se tivessem tempo, conseguiriam se adaptar à evolução do futebol nas últimas três décadas, mas também afirma que o nível de desempenho apresentado pelo Manchester City e pelo Liverpool em tempos recentes não tem precedente. “Os números deles em uma liga competitiva dizem isso. O jogo evolui e, se você colocar meu time de 1990 contra um moderno, seríamos mortos”, disse.

Uma das mudanças que Lineker identifica é que não é mais possível sair chutando os jogadores. Ele lembra que Maradona apanhava muito mais do que Messi, embora admire a maneira como o craque do Barcelona faz questão de sempre ficar em pé. Outra envolve os gramados, que ofereciam condições diferentes dependendo das estações do tempo.

“Disso eu tenho inveja. Os gramados são como mesas de sinuca. Quando eu jogava, assim que passava agosto, a grama começava a ficar maior. Depois ficava pesada. Depois congelada. Depois secava e a bola pulava mais. Os gramados eram mais desafiadores do que os adversários às vezes. A bola sacudia na sua direção e sacudia em todo lugar. Agora, deixa o jogo muito melhor”, explicou.

Boa parte da qualidade do jogo visto na Inglaterra nos últimos anos é responsabilidade de Klopp e Guardiola, na opinião de Lineker. Questionado no time de qual dos dois ele gostaria de atuar, o ex-jogador afirmou que provavelmente se daria melhor no Manchester City porque os atacantes do Liverpool recuam muito para o meio-campo, apenas uma das diferenças de personalidade e trabalho entre os dois grandes treinadores da atual geração.

“Estamos vendo um futebol sem precedentes por uma série de motivos, mas, obviamente, há a influência de Pep e Klopp. Eles contrastam, mas são ambos divertidos. Eles estão certamente entre os cinco melhores treinadores, talvez os dois melhores, do futebol mundial. Os estilos diferentes dos dois contribuem para a rivalidade. Eu amo os dois, mas Klopp é provavelmente mais envolvente. Você pode ver que Pep é muito intenso em suas entrevistas pós-jogo”, disse.

“Mas o que Guardiola fez foi especial. Ele era um treinador muito jovem no Barcelona, mas ainda transformou os jogadores. Obviamente, jogaram em um sistema baseado em Cruyff – no qual tanto Pep quanto eu jogamos no Barça. Fazer o campo maior quando você tem a bola e diminuí-lo quando você não a tem. Klopp introduziu seu próprio estilo, o jogo de alto dinamismo e pressão. Gerou confiança física e mental em seus jogadores. O que Klopp fez no Dortmund foi notável e o que construiu no Liverpool é ainda melhor. Ele obviamente esteve envolvido nas contratações e isso foi crucial”

“Quando compraram Salah, todos pensaram: ‘ok, deve dar certo’. Mané parecia um bom jogador no Southampton. Mas pensávamos que ele era tão bom? Henderson estava lá e todos falaram: ‘nah, nada especial’. Todos o criticaram. Agora as pessoas estão percebendo que o garoto é um baita jogador bom de futebol e um verdadeiro líder. Todos sabíamos que Van Dijk era bom, mas ele veio do Celtic e do Southampton. Wijnaldum veio do Newcastle. Robertson não custou muito do Hull. Trent (Alexander-Arnold) saiu da base e ele será o melhor de todos”, completou.

O jovem lateral direito do Liverpool é o que mais impressiona Lineker. Ele lembrou que jogou uma partida de bilhar na cozinha de Arnold e “parecia que a vida dele dependia daquilo”. “Pude ver eu mesmo nele. Aquele lado competitivo. Eles têm muitos jogadores especiais, especialmente o trio de frente, mas Trent é muito especial. Ele é um daqueles jogadores dos quais eu vejo todos os jogos e vejo três ou quatro coisas dele que penso: ‘Meu Deus’. Como o escanteio contra o Barcelona. Que coisa incrível para um garoto fazer, ter aquela coragem contra alguns dos melhores jogadores do mundo. Ele poderia parecer estúpido, mas ele é esperto. Eu o entrevistei, um ano atrás. Ele era muito tímido, e você poderia se enganar pelo seu frágil sotaque scouse (de quem vem de Liverpool), mas é uma criança muito inteligente”, disse.

Enquanto Manchester City e Liverpool brilham, quem sofre é o Manchester United, principal rival de ambos. Para Lineker, nada estranho. O futebol é cíclico. “Sempre seria difícil depois de Ferguson. É a mesma coisa com o Arsenal. Assim que você perde uma personalidade tão grande, que era dominante na administração do clube, vai demorar uma era, uma década mais ou menos, para as coisas encaixarem. Os torcedores de futebol não são pacientes, mas, quando melhora de novo, será até que bom. Às vezes é bom sofrer para saborear os melhores momentos”, afirmou.

Por fim, Lineker criticou a maneira como o VAR está sendo usado na Inglaterra, especialmente em lances de impedimento, e disse que comunicou suas preocupações à International Board, guardiã das regras do futebol. “Eu disse que as linhas pontilhadas tinham que acabar. Assim que as linhas azuis aparecem, estamos em apuros. Ninguém sabe exatamente onde o pontilhado começa, não é um erro claro e evidente. Então que usem a decisão de campo. Eu lhes disse o que o VAR tem que ser. O árbitro em campo precisa de um amigo sentado ao seu lado com todos os monitores. Ele está vendo o jogo e deixa passar, deixa passar, e depois diz: ‘cara, você fodeu tudo aqui. Precisa mudar a decisão senão vai parecer um completo idiota’. Isso evita mãos na bola como a de Maradona e Thierry Henry. É só para isso que você precisa do VAR”, encerrou.