Que a competência seja o óbvio fator principal na busca por qualquer título, especialmente na longa empreitada dos pontos corridos, por vezes uma dose de bendição se faz pertinente. É uma gota de iluminação que marca a diferença entre pontos desperdiçados e uma vitória que valoriza a persistência. Nesta quinta, o Flamengo sentiu isso na pele, para dar continuidade à sua contundente campanha no Brasileirão. Os rubro-negros tiveram em Lincoln o seu elemento bendito no Estádio Nilton Santos. O garoto saiu do banco, em meio ao abafa sobre o Botafogo, e estava no lugar exato para determinar o triunfo por 1 a 0, aos 44 do segundo tempo. Exibiu seu oportunismo e foi beneficiado pela leitura de jogo de Jorge Jesus. Acima disso, também se tornou o predestinado que permitiu aos torcedores comemorarem o resultado suado.

Lincoln é nome presente nos jogos do Flamengo desde 2017. Bem cotado na base, virou aposta nos tempos de Reinaldo Rueda. O surgimento do garoto em campo, entretanto, muitas vezes significou momentos de angústia aos rubro-negros. A lista de aparições de Lincoln inclui ocasiões como o segundo jogo contra o Independiente na final da Copa Sul-Americana de 2017 ou a eliminação para o Cruzeiro na Libertadores de 2018. A seu favor, pesa a lembrança do gol decisivo contra o Grêmio na Copa do Brasil do ano passado.

Claro, nem é culpa de Lincoln tais lembranças negativas. Se ele entrou em campo em grandes jogos, muitas vezes foi por desespero do Flamengo em encher a área de atacantes para arrancar o resultado. Aos 18 anos, o prodígio precisa se aprimorar em certos aspectos e tem chão a evoluir. Porém, se permanece por tanto tempo como uma opção entre os diversos treinadores rubro-negros, há uma confiança naquilo que o centroavante pode produzir. O potencial é evidente. Não será titular por enquanto, mas pode se tornar útil. Assim imaginaram em algumas situações que terminaram em trauma. Talhado na agonia de outras partidas, a história desta vez seria outra. Não foi em mata-mata, mas o novato decidiu para o Fla.

Lincoln, aliás, havia participado pouco deste Campeonato Brasileiro. Sua maior sequência de partidas aconteceu antes da pausa à Copa América. Titular contra a Chapecoense num mistão escalado por Abel Braga, marcou seu único gol na campanha em maio – e um tento importante, para determinar a vitória por 2 a 1. Tempos de Thuler, Ronaldo, Trauco e outros nomes que não lembram em nada a atual equipe. No entanto, o espaço perdido no segundo semestre não foi mera questão de escolha de Jorge Jesus. Em campo pela última vez no fim de julho, justamente no clássico contra o Botafogo pelo primeiro turno, o jovem se lesionou duas vezes e passou os meses seguintes no estaleiro. Voltou a ser relacionado a partir de outubro, até que se tornasse necessário nesta quinta, outra vez contra os alvinegros.

Antes que Lincoln surgisse em campo, o Flamengo enfrentava um jogo duríssimo contra o Botafogo. Enganou-se muito quem pensou que o rival em crise permitiria uma goleada aos rubro-negros. O Botafogo jogou com uma energia que raras vezes se viu neste Brasileirão e fez um primeiro tempo equilibrado. Os alvinegros não aliviavam nas divididas e isso criou um duelo truncado, por vezes violento – com Gabigol servindo de alvo preferido. Ao mesmo tempo, os botafoguenses também ameaçavam e criavam suas chances de gol.

O primeiro susto foi à torcida do Flamengo, em lance de Igor Cássio que Diego Alves abafou, aos 10 minutos. Os rubro-negros demoravam a se encontrar e pareciam em uma rotação mais lenta. Enquanto o ataque pouco criava, a defesa permanecia atenta para salvar alguns lances dos botafoguenses por um triz. Rafinha e Pablo Marí realizaram cortes vitais. O Fla só chegou com força pouco antes do intervalo. Aos 39, na sequência de um escanteio, Bruno Henrique ganhou no alto de Gatito e a bola carimbou o travessão. Pouco depois, o atacante soltou uma pancada para milagre de Gatito, em tiro que também explodiu no travessão – mas terminou anulado por toque de mão.

O Flamengo dava sinais de melhora, mas de novo não exibia um jogo tão fluído, como se tornou frequente nas últimas rodadas. Embora os adversários recentes também venham atuando acima de seu limite, o time de Jorge Jesus indica um pouco o seu desgaste. O intervalo, ao menos, ajudou os rubro-negros a voltarem mais centrados, com mais volume. E quando já cresciam de produção, a expulsão de Luiz Fernando com o segundo amarelo, por matar o contra-ataque de Bruno Henrique, transformou o clássico. O Botafogo se restringia a defender, enclausurado em sua área. O Fla precisava encontrar um jeito de arrombar o cofre.

Sobrava tensão no ar, até pelos desentendimentos repetitivos entre os jogadores. E o Flamengo não se beneficiava com o nervosismo. Seus melhores atletas não estavam no dia mais criativo, enquanto o time pouco aproveitava as pontas. Na hora de concluir os lances, faltava mais capricho. Gatito só voltou a trabalhar decisivamente aos 23, em uma bola parada. Pablo Marí cabeceou e, sem querer, o goleiro desviou. Gabigol também ficaria no quase pouco depois. Os rubro-negros insistiam, imprecisos. As finalizações não seguiam o rumo certo.

Jorge Jesus, então, apelou aos seus garotos no banco. Depois dos 30, mandou Lincoln e Lucas Silva para o ataque, na tentativa de sufocar o Botafogo. Ainda estava difícil de fazer alguma coisa e até parecia ser uma daquelas noites para se conformar com os pontos perdidos, quando nada dava certo. Lincoln daria certo. A jogada fatal aconteceu aos 44. Everton Ribeiro e Bruno Henrique também possuem seus méritos. Buscando a armação, o capitão puxou o ataque rápido. Abriu ao ponta pela esquerda e, na borda da área, Bruno cruzaria a meia altura. Neste instante, Lincoln rompeu a defesa do Botafogo como um foguete: no meio dos dois zagueiros, saltou para meter o pé na bola. Para finalmente encontrar as redes, sem que Gatito salvasse.

Piris da Motta entrou nos minutos restantes e o Flamengo se contentou com o placar mínimo. O triunfo por 1 a 0 era mais que suficiente aos três pontos. Ao final, outros problemas, com uma discussão entre Joel Carli e Jorge Jesus. Seria um clássico pesado a todo tempo, também por confusões que aconteceram entre torcedores no Nilton Santos, com relatos de brigas e intervenções da polícia.

Na saída de campo, Lincoln falou sobre a noite inesquecível. “Só tenho que agradecer a Deus. Esse ano não foi dos melhores, tive duas lesões que me atrapalharam bastante, fiquei muito tempo parado, mas procurei trabalhar para, quando tivesse essa oportunidade, aproveitasse da melhor maneira. O Mister me falou para ficar dentro da área, que eu ia fazer o gol, e cumpri o que ele pediu. O Bruno Henrique também foi muito feliz no lance, quero agradecer a ele pela assistência. O Mister vem me dando muitos conselhos no dia a dia, e hoje não foi diferente. Parece que ele vê as coisas lá na frente e fico feliz pelas dicas, porque acabei fazendo o gol”, apontou, em entrevista ao repórter Erick Faria. Estrela e maturidade.

Com um herói pouco imaginado, o Flamengo chega aos 74 pontos. Permanece oito pontos à frente do Palmeiras e, em suas contas, precisa de 13 pontos (com quatro vitórias) nas sete rodadas restantes para se sagrar campeão. Foi um importante passo para encurtar a caminhada. Já o Botafogo, apesar da luta, vê o desespero crescer. Não é o quase que garante os resultados e os alvinegros já acumulam quatro derrotas consecutivas. Com 33 pontos, os botafoguenses entraram na zona de rebaixamento nesta rodada.

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