Quando a CBF anunciou a criação de uma comissão formada por ex-técnicos da seleção brasileira para discutir o futuro do futebol nacional, muita gente (incluindo a Trivela) criticou. Era uma crítica baseada apenas em expectativa, considerando o passado da maior parte das figuras envolvidas. Pois, agora, já há elementos para se cornetar com algo concreto. Porque uma das primeiras ideias que surgiram dos debates assusta de tão ruim.

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O comitê encaminhou à CBF a proposta de mudar a regulamentação de jogadores estrangeiros no Brasil. Atualmente, a única limitação é na quantidade: cada time pode ter, no máximo, cinco estrangeiros. A ideia apresentada não mudaria o número de atletas, mas atingiria a qualificação deles. Apenas os que tivessem defendido a seleção de seu país determinadas vezes teriam autorização para trabalhar no futebol brasileiro.

A inspiração da lei é o futebol inglês, e bastaria conhecer um pouco do que aconteceu para saber que a ideia não faz o menor sentido. Na Inglaterra, esse regulamento tinha razão de ser pelo fato que os clubes têm dinheiro para contratar jogadores de outras potências mundiais, jogadores muitas vezes mais talentosos que os atletas britânicos. Em última instância, as equipes poderiam formar seus elencos apenas com estrangeiros, deixando de lado o desenvolvimento na base.

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Mesmo com esse argumento, a lei fracassou na Inglaterra. A União Europeia deu o primeiro golpe ao abrir o mercado do futebol dentro de seus países-membros, mudando substancialmente o significado da palavra “estrangeiro” no esporte europeu. O segundo problema é que ela se tornou insustentável.

O futebol de seleções mudou demais nos últimos anos. As equipes nacionais têm cada vez mais rodízio de jogadores, e poucos atletas tinham os 75% de atuação por seus países nos últimos 12 meses. Os clubes ingleses estavam arriscados a perder várias oportunidades de negócio e a limitação aos estrangeiros foi afrouxando com o tempo.

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No Brasil, o resultado de uma lei como essa seria ainda mais sério. Os clubes não têm dinheiro para contratar jogadores com longo currículo em seleções nacionais (muitos deles, pelos menos os de países sul-americanos, já estão na Europa). Assim, a maioria dos estrangeiros na Série A seria formada por decadentes que perderam espaço no mercado europeu ou figurantes no cenário internacional. Dois grupos que despertariam pouco interesse dos dirigentes, pois a mão-de-obra nacional seria mais qualificada na maioria dos casos.

Para se ter uma ideia, o regulamento proposto poderia ter vetado a chegada de nomes como Conca, Guiñazú, Montillo, Petkovic e Lugano ao Brasil. No final das contas, essa limitação serviria apenas para reduzir o intercâmbio e o poder de negociação dos clubes, justamente em um momento em que o futebol brasileiro precisa tanto receber ideias e talento de fora.

Se o comitê de ex-técnicos da Seleção quiser justificar sua criação, precisa trazer iniciativas realmente interessantes, que acrescentem algum elemento novo ao futebol brasileiro. Repetir clichês e frases feitas da Europa, ignorando o fato de que o Brasil vive uma realidade completamente diferente, só servirá para alimentar os críticos e dar mais motivos para não se levar a sério o que está sendo debatido nessas reuniões.