Há uma batalha em curso entre os clubes mais ricos da Europa, liderados pela Associação de Clubes Europeus (ECA), a Uefa e as ligas nacionais. E isso ficou ainda mais evidente na reunião da European Leagues (nome curto para European Professional Football Leagues, EPFL) nesta terça-feira, em Madri. A reunião teve mais de 200 clubes representados, além de 38 ligas nacionais da Europa, como forma de se articular para impedir as mudanças pretendidas na Champions League e a criação da Superliga Europeia, tão especulada.

O fato de ser em Madri não é um acaso: Javier Tebas, presidente de La Liga, é uma das principais vozes contra a Superliga Europeia, uma ideia que ele acusa de ser um clube fechado de clubes ricos e que atentam contra as ligas nacionais. Lars-Christer Olsson é o presidente da European Leagues, mas foi o espanhol que mais falou frases fortes contra a ECA. E o comunicado à imprensa da European Leagues deixa bem clara a visão desse grupo diante dessas movimentações de bastidores: proteger as ligas nacionais.

“Mais de 200 clubes de mais de 38 países europeus se reuniram para uma reunião histórica com um objetivo claro: proteger as competições de futebol doméstico e a sustentabilidade esportiva e financeira para todos os clubes profissionais na Europa”, diz o comunicado da European Leagues.

“Temos que parar as reformas que estão fazendo”, afirmou Javier Tebas. “Temos que mudar a forma de governança e de tomar decisões no futebol europeu. O futebol mudou e as instituições têm que se adaptar. O papel das ligas deve ser muito maior. Não nos basta consultar e participar. É preciso chegar a um acordo com as ligas nacionais”.

Segundo Tebas, as receitas dos clubes provêm, principalmente, das ligas nacionais. Os dados do dirigente de La Liga mostram que os clubes recebem € 7 bilhões oriundos das competições domésticas e € 2 bilhões dos torneios europeus. A proporção, segundo o dirigente, obriga a Uefa e os clubes a entrarem em acordo.

“Os grandes clubes não podem fazer a guerra por sua conta. Porque hoje dependem economicamente das competições nacionais. Eles não vão fazer isso. Eles só se atreverão a dar esse passo no dia que tiverem certeza que isso terá viabilidade econômica”, opinou ainda Tebas.

“Outra coisa é que tentam enfraquecer as ligas. É uma pena que algumas autoridades da Uefa tenham acreditado nisso. Mas há ferramentas legais para lutar contra isso. Este tipo de competição [pretendida pela ECA] violaria as normas de proteção da competição”, continuou Tebas.

“De um dia para outro, 16 clubes dizem que vão disputar outra competição não é tão simples”, continuou o dirigente espanhol. “E acredito que seja um farol. É impossível. Podem seduzir a Uefa para criar mais dinheiro. Mas por enquanto, precisam de um financiamento que não possuem”, declarou ainda Tebas.

Tebas foi perguntado sobre a questão de times como o Real Madrid serem a favor da Superliga. “Neste tema, é impossível concordar com o Real Madrid”, afirmou Tebas. “Em La Liga, estas coisas se decidem pela maioria. La Liga, como competição, com um grupo de 42 clubes, está muito saneada financeiramente. Não é preciso contar com o consentimento dos grandes clubes”, declarou.

Alguns clubes estavam representados na reunião da associação das ligas. Entre os espanhóis, os mais importantes eram Atlético de Madrid e Sevilla. Real Madrid e Barcelona não estavam. “O Real Madrid foi baixa depois da carta de Agnelli”, contou Tebas. O dirigente se refere a uma carta do presidente da Juventus e da Associação Europeia de Clubes (ECA), Andrea Agnelli, pediu que os clubes não comparecessem à reunião das ligas. O dirigente italiano minimizou as afirmações de Tebas. Disse que a ECA está estudando novas competições, que não será fechada a alguns clubes, nem que se planeja jogar aos fins de semana, tirando espaços das competições locais.

O presidente da European Leagues, Lars-Christer Olsson, resumiu o que a entidade quer em alguns tópicos, divulgados à imprensa:

– European Leagues devem estar envolvidas no processo de decisão em relação a qualquer alteração no calendário do futebol;

– European Leagues e a grande maioria dos clubes profissionais da Europa não são contras as mudanças em si, mas têm preocupações significativas sobre propostas que iriam alterar as estruturas e competitividade das suas respectivas ligas e competições nacionais;

– European Leagues e a grande maioria dos clubes na Europa, com a exceção de alguns poucos clubes ricos e poderosos, acreditam firmemente que o mérito esportivo nas suas ligas domésticas e copas devem permanecer a rota de classificação para as competições da Uefa;

– European Leagues saúda a iniciativa da Uefa de chamar uma reunião entre as diretorias da European Leagues e o Comitê Executivo da Uefa. As ligas esperam uma reunião construtiva para discutir os pontos e preocupaçÕes levantadas pelos clubes e ligas nos dois dias de reunião. As ligas também esperam que a reunião irá levar a uma oportunidade para European Leagues e Uefa trabalharem juntas para garantir que quaisquer propostas para desenvolver as competições europeias de clubes não sejam em detrimento das ligas domésticas.

O grande X da questão aqui é o que a Uefa pensa sobre tudo isso. Os indicativos que o seu presidente, Aleksander Ceferin, tem dado é de uma entidade mais plural, menos focada nos clubes mais ricos. Em tese, essa visão do presidente seria boa para as ligas. Por outro lado, os clubes ricos pressionam a Uefa para terem mais dinheiro e mais jogos, para faturarem mais. Já conseguiram, na última negociação, que as quatro ligas mais ricas tivessem seus quatros times entrando direto na fase de grupos. Agora, a ideia parece ser algo ainda mais exclusivo – e lucrativo.

Em novembro de 2018, o Football Leaks revelou que os clubes mais ricos da Europa planejavam uma Superliga, de forma a ter um campeonato ainda mais rico com mais clubes de camisa e com dinheiro para se unirem em uma competição exclusiva. Logo em seguida, mais de 900 clubes se manifestaram contrários à ideia. A Fifa tratou de se movimentar e ameaçou impedir que jogadores que atuem na proposta Superliga atuassem pelas suas seleções em Copas do Mundo.

Com todos esses movimentos, a ECA e a Uefa precisaram se reunir e ambos refutaram a ideia da Superliga, no que pareceu muito mais um movimento político do que efetivamente uma informação. O maior aliado que as ligas europeias possuem para impedir uma potencial Superliga Europeia é a Premier League. Os clubes ingleses rejeitaram publicamente a ideia de uma Superliga, até porque sabem que a liga inglesa é atualmente a mais valorizada do planeta.

Acompanharemos cenas do próximo capítulo, quando saberemos se os clubes de grandes ligas irão tentar se movimentar contra a ideia de uma Champions League ainda mais concentrada entre os clubes mais ricos.