A Fifa anunciou que a Copa do Mundo de 2022 será mesmo disputada em novembro e dezembro, algo inédito na história da competição. A decisão já era especulada há algum tempo, mas causou insatisfação da European Professional Football Leagues Association (EPFL), grupo que defende as ligas da Europa. A EPFL quer entrar com uma ação contra a Fifa por essa mudança. Sentem-se prejudicados. “Nós estamos decepcionados com a decisão do Comitê Executivo da Fifa em mudar a Copa do Mundo para novembro e dezembro”, disse Frederic Thiriez, presidente EPFL e da Ligue de Football Professionnel (LFP), a liga francesa. Thiriez não parou por aí. Fez duras críticas à Fifa e aos dirigentes do Comitê Executivo como um todo.

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“Isso irá nos causar prejuízos sérios do ponto de vista esportivo e financeiro e levanta sérias questões sobre as pessoas envolvidas no processo de tomada de decisão”, questionou ainda o dirigente francês. “Isso mostra uma falta de governança nos órgãos internacionais de futebol já que eles não defendem o interesse de todo o mundo do futebol. É impensável que as ligas não são parte do processo de tomada de decisão. Agora há trabalho a ser feito para diminuir os danos da decisão. A EPFL está pronta para apoiar qualquer ação legal que ligas individuais possam tomar no futuro”, disse Thiriez, em reunião da EPFL em Barcelona neste sábado, 21, em Barcelona.

Segundo o presidente da liga francesa, a EPFL enviou um documento à Fifa que recomendava que a Copa do Mundo de 2022 fosse disputada em maio, mas foram ignorados. “Nós não somos contra o Catar, mas contra jogar a Copa do Mundo no inverno (do hemisfério norte). Nós tentamos encontrar soluções e escrevemos um relatório dizendo que era possível jogar em maio”, continuou Thiriez. “Nosso relatório, porém, não foi nem examinado e isso não é aceitável”, seguiu o dirigente. “75% dos jogadores da Copa do Mundo virão das nossas ligas e não é possível ter um sistema de governança onde nossas visões não estão envolvidas. Nós queremos estar na mesa de conversas”, bradou ainda o dirigente.

A EPFL está soltando fogo pelas ventas, mas uma das ligas mais fortes, a Premier League, da Inglaterra, divulgou nota oficial dizendo que não irá entrar com qualquer ação na justiça contra a Fifa. “Enquanto a maioria está muito decepcionada com o processo e com o resultado da decisão do período da Copa do Mundo do Catar 2022, ao menos agora nós temos datas fixadas para trabalhar. Isso significa que ainda há alguma discussão e acomodação necessária em relação aos períodos de convocações, datas Fifa e a agenda dos organizadores de outras competições”, diz o comunicado da liga inglesa.

A insatisfação é compreensível, porque a Copa do Mundo será acomodada bem no meio da temporada europeia, algo que, como dito, é inédito. Com isso, será preciso acomodar o calendário para que os jogadores possam se apresentar com a antecedência necessária e, assim, tenham uma preparação adequada para o torneio. Atualmente, os convocados se apresentam um mês antes da Copa, podendo até ser um período maior em alguns casos. Por isso, é possível que vejamos ainda algumas ligas bastante insatisfeitas e ainda buscando uma forma de serem atendidas. Mas dificilmente essa insatisfação causará alguma mudança. Os clubes e ligas que estão bradando não conseguiram, se é que tentaram, fazer uma articulação política para que a entidade que os representa na Fifa, a Uefa, se opusesse a tudo isso. Ao contrário, Michel Platini, presidente da Uefa, apoiou o Catar como sede da Copa desde a candidatura. Não dá para esperar que agora as coisas mudem.

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Contra a reclamação, mais dinheiro aos clubes

Uma medida que a Fifa tomou para aliviar, ao menos em parte, as reclamações dos clubes foi o pagamento de compensações pelos períodos que os jogadores servem às seleções. Afinal, o clube paga o salário, enquanto a seleção só os utiliza, sem contribuir. O montante que será pago aos clubes durante o período da Copa do Mundo de 2018 foi aumentado, logo depois do anúncio que o Mundial será disputado em novembro e dezembro.

“Um total de US$ 209 milhões será distribuído entre os clubes que liberem seus jogadores para participarem da Copa do Mundo de 2018 e a mesma cifra para o Catar”, disse a Fifa em comunicado. Em 2014, na Copa do Mundo no Brasil, o valor pago foi de US$ 70 milhões. O bolo de dinheiro pago triplicou. Não é uma manobra inocente da Fifa. Ela sabe que precisa fazer um agrado aos clubes, que certamente ficaram insatisfeitos com a mudança no calendário.

Uma polêmica enorme, que fez a Fifa já adiantar: a Copa do Mundo de 2026 será disputada em junho e julho, como foi tradicionalmente feito até hoje. A decisão do país que sediará a Copa do Mundo de 2026 será tomada no Congresso da Fifa de 2017, em Kuala Lumpur. Será a primeira vez que a escolha não será feita pelo Comitê Executivo da entidade, mas sim com o voto das 209 federações de futebol do mundo. Como a polêmica em torno da Copa-2022 foi enorme, os olhos do mundo estarão voltados para esta decisão. Será preciso mostrar que a Fifa mudou. Mas até lá, ainda haverá muita polêmica em relação ao Mundial do Catar.