Realizar jogos de futebol em dia de eleições é algo bastante incomum e, até, improvável. Mas isso vai acontecer em Portugal. No dia 4 de outubro, pela primeira vez na história da democracia do país, partidas oficiais serão realizadas na mesma data em que a população irá às urnas para as eleições legislativas – que irão escolher os novos deputados e, por consequência, o primeiro-ministro (indicado pelo partido que tiver mais votos).

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A situação, que por si só já é polêmica, ganhou ainda mais destaque porque os três jogos marcados para o dia do pleito envolvem exatamente os três grandes clubes do país. Duas partidas ocorrerão enquanto as urnas ainda estiverem abertas: União da Madeira x Benfica e Porto x Belenenses. O terceiro jogo, Sporting x Vitória de Guimarães, está marcado para o período noturno, quando as votações já tiverem dado lugar à divulgação das pesquisas de boca de urna.

Na prática, a medida adotada pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) não fere a lei. Mas é algo que certamente vai atrapalhar a realização do pleito. “Diria que é pouco sensato misturar as duas coisas. Não é proibido, mas não é recomendável”, afirmou João Almeida, porta-voz da Comissão Nacional de Eleições, à Agência Lusa.

A legislação portuguesa só veta a realização de grandes eventos em dias de eleição se eles colocarem em risco “o exercício do direito de voto por parte dos participantes”. No caso do futebol, mesmo com alguns clubes tendo de viajar, é possível criar uma logística para que jogadores e funcionários possam votar normalmente, antes das partidas.

A justificativa da LPFP ao marcar as partidas para 4 de outubro é o calendário apertado. Os três grandes terão compromissos pelas competições europeias no decorrer da semana anterior e precisarão ceder jogadores às seleções por causa da data Fifa logo depois da rodada. Segundo a entidade, a decisão foi tomada em comum acordo com os clubes – um eventual adiamento da rodada não foi citado no comunicado oficial distribuído pela Liga.

O temor dos envolvidos na eleição e do próprio governo português é que os jogos esvaziem as seções eleitorais. Nas últimas eleições legislativas, em 2011, a abstenção foi recorde em Portugal, chegando a 41,1%. Agora, com a concorrência do futebol, o número pode aumentar – o voto não é obrigatório no país. Por isso, até o presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, resolveu se manifestar. “Independentemente de futebóis ou de qualquer outro desporto ou evento, não deixem de ir votar”, pediu aos portugueses.

Ao mesmo tempo em que engrossou a campanha para que as pessoas compareçam às urnas, o presidente foi enfático ao criticar a realização da rodada em 4 de outubro. “Fiquei surpreendido que se tenha quebrado esta tradição de não ocorrerem jogos de futebol no dia das eleições. E, tendo eu anunciado o dia da eleição em 22 de julho, nessa altura pensei que os organismos do futebol e os clubes conseguiriam encontrar calendários adequados para a tradição se mantivesse”, afirmou.

De fato, faltou bom senso para quem tomou a decisão. Para o bem da democracia portuguesa, espera-se agora que o mesmo bom senso não falte aos eleitores. Com ou sem futebol.