Não se reconta a história recente do Atlético de Madrid sem citar a Liga Europa. Sim, duas finais da Liga dos Campeões podem até possuir um peso maior. Ainda assim, a retomada dos colchoneros como uma potência, obrigatoriamente, passa pelo torneio continental de segundo escalão. A conquista de 2010 serviu para lavar a alma dos rojiblancos, depois de uma década bastante penosa, em que precisaram se reerguer a partir da segunda divisão. Já o título de 2012 tem seu valor olhando para frente, e não para trás. Afinal, foi ele que alçou Diego Simeone a um posto prestigioso, a quem havia assumido como bombeiro seis meses antes e iniciou uma era em que o Atleti começou a se intrometer entre os gigantes. Títulos que, além de tudo, apresentam o gosto pelos grandes atacantes que desfilaram no Estádio Vicente Calderón.

Se hoje o Atlético de Madrid é reconhecido por seu pragmatismo e pela fortaleza defensiva, chave do sucesso recente, não se nega a aptidão do clube em engrandecer matadores de primeira classe. A eclosão de Fernando Torres, no início da década passada, gerou um ciclo virtuoso entre os colchoneros. A cada atacante que deslanchava com a camisa rojiblanca, e partia a outros sonhos, a diretoria buscava um novo astro ao setor. Não quer dizer que todos deram certo ou que não existiu também uma bondade do destino neste caminho. Mas é fato que a torcida não pode reclamar da sorte que teve ao aplaudir artilheiros inesquecíveis. Ídolos que eternizaram suas passagens pelo clube através da Liga Europa.

Voltemos a 2007. Quando o Liverpool levou Fernando Torres a peso de ouro, o Atlético de Madrid já tinha seus candidatos a sucedê-lo. Sergio Agüero desembarcou na Espanha como uma grande aposta na temporada anterior. O garoto de 18 anos recém-cumpridos fazia maravilhas com a camisa do Independiente e levou os rojiblancos a investirem alto em sua contratação. Não demorou a se afirmar, se mostrando como uma realidade justamente após a saída de Torres. E com o dinheiro pago pelos Reds, o Atleti também saiu às compras. Bateu na porta do Villarreal e buscou Diego Forlán, que vinha de três excelentes temporadas pelo Submarino Amarillo.

Agüero e Forlán compartilharam quatro anos letais no ataque do Atlético de Madrid. Em 2007/08, juntos, somaram 35 gols no Campeonato Espanhol. Foram a expressivos 49 tentos em 2008/09, campanha na qual o uruguaio recebeu o Pichichi – último artilheiro da Liga fora de Barça e Real. Já em 2009/10, se o rendimento caiu com os 30 gols somados na liga nacional, ele permitiu o brilho da taça da Liga Europa. A dupla ofensiva desequilibrou.

O Atlético de Madrid, cabe lembrar, vinha repescado da Liga dos Campeões. Caíra em uma chave dificílima, que tinha também Chelsea e Porto. Só que o seu elenco preponderou na Liga Europa. Não que a campanha fosse tão simples. Depois de eliminar o Galatasaray nos 16-avos de final, o Atleti acumulou quatro empates consecutivos. Avançou contra Sporting e Valencia graças aos gols anotados fora de casa. Já nas semifinais, um reencontro. Encarariam justamente o Liverpool do xodó Fernando Torres.

O duelo contra o ídolo, contudo, nunca aconteceu. Com uma lesão no joelho, El Niño foi desfalque em ambas as partidas. E os seus sucessores mandaram em campo. Forlán, em um lance brigado, definiu a vitória por 1 a 0 no Calderón. Já em Anfield, os Reds deram o troco, levando a definição à prorrogação. Yossi Benayoun encaminhava a classificação com o segundo gol dos ingleses. Mas Forlán apareceu novamente ao resgate, anotando o tento que garantiu os rojiblancos na decisão em Hamburgo. Pegavam o surpreendente Fulham, sensação ao deixar pelo caminho adversários do calibre de Juventus, Wolfsburg e Shakhtar Donetsk.

O técnico Quique Sánchez Flores escalou para a final a seguinte formação: David De Gea; Tomás Ujfalusi, Luis Perea, Álvaro Domínguez, Antonio López; José Antonio Reyes, Paulo Assunção, Raúl García, Simão Sabrosa; Sergio Agüero e Diego Forlán. Como não deixaria de ser, a glória necessariamente passou pelos pés da dupla de ataque, em noite infernal no Volksparkstadion, apesar das dificuldades impostas pelo jogo.

Agüero serviu Forlán para uma bola na trave logo nos primeiros minutos da decisão. Já aos 32, a conexão deu certo. Kun matou e bateu cruzado para o uruguaio fuzilar Mark Schwarzer dentro da área. O Fulham empatou cinco minutos depois, com Simon Davies, e a batalha se arrastou até a prorrogação. Foi quando a dobradinha Argentina-Uruguai novamente fez a diferença. Agüero arrancou pela esquerda, evitou que a bola saísse pela linha de fundo e cruzou à meia altura. Forlán, na marra, desviou e o chute ainda triscou em um zagueiro antes de entrar. Aos 11 minutos do segundo tempo extra, estava decretada a vitória por 2 a 1. O reconhecimento máximo a tudo que os dois sul-americanos aprontaram em sua estadia no Calderón.

Agüero e Forlán passaram mais uma temporada em Madrid. O veterano saiu à Internazionale e o garoto rendeu um bom dinheiro com sua venda ao Manchester City. Porém, até parecia um disparate quando o Atlético de Madrid resolveu gastar toda a grana vinda dos xeiques para contratar Radamel Falcao García do Porto. O colombiano vinha de uma fase excelente no Estádio do Dragão, ao protagonizar os portistas na conquista da Liga Europa em 2011. Todavia, os €40 milhões pagos soavam como inflacionados. Era um bom jogador, mas com uma temporada que, até aquele momento, aparentava ser um ponto fora da curva.

Na realidade, era a curva do próprio Falcao que atingia um patamar inimaginável até então. E ele conseguiu ser ainda mais destrutivo na Liga Europa 2011/12 com o Atleti. O time precisou entrar ainda nas fases preliminares, mas superou Stromsgodset e Vitória de Guimarães. No grupo, sobrou ante Udinese, Celtic e Rennes. O desempenho continental, de qualquer forma, não seria suficiente para segurar o técnico Gregorio Manzano, sofrendo com a inconsistência no Campeonato Espanhol. Na virada do ano, Diego Simeone voltou ao clube onde havia sido ídolo. Iniciou a sua revolução.

No time de Simeone, Falcao García tinha toda liberdade para destruir os adversários no ataque. Unia a sua inteligência no posicionamento ao vigor físico daqueles tempos, além de sua refinada capacidade nas finalizações. Anotou dois gols contra a Lazio nos 16-avos de final, um contra o Besiktas nas oitavas, dois contra o Hannover nas quartas. Desafio duríssimo nas semifinais, o Valencia parecia um sério candidato a interromper a sequência de nove vitórias dos colchoneros no torneio. Pois os madrilenos chegaram a 11, impulsionados principalmente pelos 4 a 2 no Calderón. El Tigre iniciou a contagem de cabeça e fechou a goleada no final, em pintura de fora da área. Na decisão, um clássico contra o Athletic Bilbao, clube que deu origem aos rojiblancos.

Falcao era o grande nome de um time que já contava com Courtois, Juanfran, Godín, Miranda, Filipe Luís e Gabi, entre outros. No entanto, o que aconteceu no Estádio Nacional de Bucareste talvez represente a melhor atuação da vida do Tigre. O colombiano marcou o primeiro gol com míseros sete minutos. Chamou a marcação para dançar e, depois de uma série de fintas em Fernando Amorebieta, abriu o caminho para um lindo chute de canhota, na gaveta de Gorka Iraizoz. Pois o artilheiro seria mais maldoso aos 34, quando deixou Jon Aurtenetxe no chão, antes de fuzilar. Ainda acertou a trave no segundo tempo, até que Diego fechasse a conta em 3 a 0.

No ano seguinte, Falcao arrebentou contra o Chelsea na Supercopa Europeia e formou uma azeitada dupla com Diego Costa, que voltava de empréstimo ao Rayo Vallecano. Saiu ainda mais valorizado do Calderón, quando o Monaco resolveu pagar uma bolada pelo novo astro. E o ciclo do Atleti permaneceu, com Diego Costa se transformando em um monstro na conquista de La Liga, na época acompanhado por David Villa. Por fim, iniciou-se a era de Antoine Griezmann, que quase sempre foi a garantia, mesmo quando alguns parceiros não correspondiam.

A final da Liga Europa de 2017/18 parece ligar estes pontos. Diego Costa está de volta para erguer a taça que lhe escapou nestas idas e vindas ao Calderón / Metropolitano. Antoine Griezmann pode concluir sua história, diante da provável transferência ao Barcelona, com uma conquista internacional. E ainda há Fernando Torres, que se não aparece mais entre os titulares, pode se despedir do clube de coração em grande estilo. Ao longo dos mata-matas, os três compartilharam momentos de brilho. Agora, aguardam ansiosamente uma final que mantenha a narrativa épica escrita pelos artilheiros colchoneros nesta década.


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