Em campo, Espanha e Alemanha representam o que há de melhor no futebol na atualidade. Excelente trabalho nas categorias de base e sistemas de jogo modernos, com muita variação de posição, predominância de trabalho coletivo e velocidade. Virtudes vistas nos clubes, que acabaram chegando às seleções. Mas é curioso como os campeonatos nacionais se estruturaram de formas muito diferentes para chegar a esse resultado.

A Bundesliga alemã tem sido tratada como o modelo para o mundo. E a questão é justamente seu sistema de funcionamento. Há várias regras que impedem a chegada de milionários excêntricos do Oriente Médio ou da antiga União Soviética para desestabilizar a relação de forças artificialmente. A Copa de 2006 deixou pelo país vários estádios modernos, e as cidades que não receberam o Mundial também resolveram renovar suas arenas. Mas a principal questão é a distribuição de recursos da TV, feita de modo a tornar a liga mais equilibrada. Mesmo que isso diminua as chances de surgir uma equipe multimilionária que possa tirar Cristiano Ronaldo do Manchester United ou Fàbregas do Arsenal.

O sistema alemão é complexo, e valoriza o desempenho em campo, e não quantidade de torcida ou audiência de TV. Cada time recebe pontos pelo desempenho nas últimas quatro temporadas, sendo que as temporadas mais recentes têm peso maior. A partir da pontuação, faz-se um ranking de 1º a 18º. Para a temporada 2012/O primeiro recebe apenas € 760 mil a mais que o segundo, que recebe apenas € 760 mil a mais que o terceiro e vai assim até o final. O 18º acaba recebendo exatamente a metade do primeiro.

DISTRIBUIÇÃO DOS DIREITOS DE TV NA ALEMANHA (temporada 2012/13)

Bundesliga_Direitos de TV 2013

Com essa quase igualdade na distribuição de renda, a grande diferença entre os times na Alemanha é a capacidade de faturar com bilheteria, venda de produtos e, principalmente, atração de patrocinadores. Na temporada passada, o Bayern de Munique se tornou o primeiro clube do mundo a faturar mais de € 200 milhões (foram € 201,6) em acordos comerciais. Para se ter uma ideia, o Manchester United ficou em “apenas” € 145,4 milhões nesse quesito.

A Espanha tem um sistema mais aberto. Cada clube negocia os direitos dos jogos em que é o mandante com as TVs. Os pequenos têm baixo poder de barganha, pois as grandes redes só se interessam realmente por duas partidas de cada um, quando recebem Real Madrid e Barcelona. Isso leva a um enorme abismo financeiros entre os clubes. Valencia e Atlético de Madrid recebem pouco mais de um terço das duas potências. Mas o grande escândalo são com os pequenos: sete dos 20 clubes ganham apenas 10% das duas potências.

DISTRIBUIÇÃO DOS DIREITOS DE TV NA ESPANHA (temporada 2011/12)

La Liga_Direitos de TV 2012

O lado negativo é evidente: o Campeonato Espanhol é cada vez menos competitivo e o título parece fora da realidade até para clubes médios, como Atlético de Madrid, Valencia, Sevilla e Betis (ainda que esses quatro continuem recebendo relativamente bem em comparação com grandes de outros países e se mantenham competitivos como segundo escalão continental).

Pode não soar nobre, mas também há um lado positivo: se o objetivo é criar supertimes globais, que podem tirar jogadores até das equipes mais ricas da Inglaterra, o sistema é bom. Barcelona e Real Madrid conseguem escapar da crise econômica da Espanha e seguem como equipes mais ricas do planeta. Além disso, sem recursos para investir em reforços, os pequenos se viram obrigados a trabalhar na base para lançar jogadores e viver da venda desses jovens para os clubes mais abastados do continente.

Esse sistema deu mais igualdade “social” para a Bundesliga, mas o Campeonato Espanhol tem conseguido mais sucesso internacional. E isso inclui até alguns de seus times médios, como Atlético de Madrid, Valencia e Sevilla. Veja o comparativo dos dois campeonatos nos últimos dez anos.

Alemanha Espanha
Média de público* 45.134 30.375
Clubes campeões nacionais 5 (Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Stuttgart, Werder Bremen e Wolfsburg) 3 (Barcelona, Real Madrid e Valencia)
Títulos da Liga dos Campeões 0 3
Títulos da Liga Europa/ Copa da Uefa 0 5

*Na temporada 2011/12

Pensando no futebol como um esporte, o sistema alemão é tido como o mais equilibrado para a Europa e serviu de modelo para as regras do fair play financeiro que a Uefa tenta implementar. No entanto, é difícil de ignorar o apelo midiático que supertimes criam, algo mais fácil de acontecer quando há concentração de renda como na Espanha. Então, se dentro de campo, Real Madrid e Barcelona têm características semelhantes com Bayern de Munique e Borussia Dortmund, fora dele representam modos de pensar quase opostos.