Neste domingo, 31 de dezembro, completam-se 25 anos do fim da Tchecoslováquia. A dissolução do país havia ganhado nova tônica a partir de 1989, com a chamada Revolução de Veludo, movimento que culminou na deposição do governo comunista. Depois disso, a separação administrativa entre tchecos e eslovacos se tornou paulatina, até que, em 25 de novembro de 1992, o parlamento tchecoslovaco aprovou a divisão do país em dois estados distintos a partir do primeiro dia de 1993.

Diante da data simbólica, publicaremos durante os próximos dois dias uma série de matérias especiais sobre o futebol na Tchecoslováquia – algumas delas inéditas, outras resgatadas dos nossos arquivos. Abaixo, a terceira, publicada originalmente em 8 de maio de 2015.

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Hitler e Mussolini já estavam mortos desde o final de abril, quando os Aliados tomaram a Itália. Dias depois, o Exército Vermelho da União Soviética conquistava Berlim. O fim da Segunda Guerra Mundial na Europa era questão de detalhes naquele momento. E a rendição dos nazistas aconteceu em 7 de maio de 1945. Na manhã seguinte, os Aliados anunciavam o sucesso na batalha e comemoravam a vitória. O conflito ainda se seguiu no Pacífico, com o Japão se rendendo em setembro, após o horror das bombas atômicas. E na Tchecoslováquia, onde militares alemães resistiram por mais dois dias após a assinatura da derrota.

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Se o 8 de maio é o “Dia da Vitória” para boa parte do mundo, ele tem outro significado para os tchecoslovacos. O feriado nacional serve para relembrar o Levante de Praga, maior movimento popular do país para expulsar os nazistas da capital. O último e principal ato de resistência de uma nação que relutou a aceitar a invasão do Terceiro Reich, iniciada ainda em 1938 – antes mesmo do início da guerra. E a sobrevivência do povo local se manifestou também no futebol: a Liga Terezín, criada em um gueto judeu a 25 km de Praga.

Enquanto os campeonatos europeus eram paralisados em meio à guerra, os moradores do gueto de Terezín ganharam a permissão dos nazistas de criar sua liga, com jogadores judeus profissionais e amadores. Entre 1942 e 1944, a competição se manteve ativa, com dezenas de atletas. O que servia de fuga do terror ao povo judaico era aproveitado pelo Terceiro Reich para tentar esconder o Holocausto. Usava-se o torneio como propaganda sobre a maneira como os judeus eram tratados por Hitler. Mentira pura, já que cerca de 35 mil dos 160 mil judeus que passaram por Theresienstadt morreram no gueto. Já em setembro de 1944, 88 mil habitantes do local foram levados aos campos de concentração. Só 4 mil sobreviveram.

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O gueto de Theresienstadt, por si, já era feito para mostrar a “benevolência” dos nazistas com os judeus, maquiando o genocídio que acontecia. “Não houve nenhum campo como ele. Theresienstadt era para o show dos nazistas, cinicamente concebido para enganar o mundo e esconder seus planos. Durante os quatro anos em que funcionou, a nata das comunidades intelectuais judaicas passaram por ele”, afirma Rabbi Norman Patz, presidente emérito da Sociedade Tchecoslovaca de História Judaica, em entrevista à Tablet Mag. A criação do gueto aconteceu a partir de 1941, aproveitando a estrutura da antiga fortaleza local, com a expulsão de quem não era judeu. Mas, apesar do nível cultural entre os habitantes, as condições de vida eram péssimas, com comida escassa, exploração de trabalho e moradias degradadas.

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Porém, a criatividade da população de Theresienstadt culminou com a criação do campeonato, já que os nazistas permitiam outras atividades fora das horas de trabalho – a própria maneira de ambientar o cenário ideal à propaganda de Joseph Goebbels. A organização dos torneios contava dirigentes e mesmo árbitros profissionais. A Copa Terezín chegou a ter 27 times, enquanto 12 deles faziam parte da liga. Todos montados a partir da própria estrutura de trabalho do gueto, representando as fábricas e comércios locais.

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E, como toda competição popular, a Liga Terezín era acompanhada por centenas de torcedores no campo montado dentro de um quartel. “O futebol dava prazer. E nós precisávamos de prazer em nossas vidas desesperadas. Era muito importante não perder nossa autoconfiança e nossa dignidade. Uma loucura, mas a realidade”, diz Toman Brod, professor que viveu no gueto durante a infância e assistia aos jogos. Além disso, entre os jogadores, havia mesmo nomes famosos. Pavel Mahrer disputou os Jogos Olímpicos de 1924 e já tinha mais de 40 anos quando viveu no gueto. O pagamento era a possibilidade te ganhar mais comida que os outros moradores do local. Foi um dos sobreviventes, falecendo nos Estados Unidos em 1985.

A Liga Terezín deixou seus registros para a eternidade em 1944. Uma visita da Cruz Vermelha para verificar as condições do gueto caiu como luva ao Terceiro Reich. Os nazistas reformaram o local e quiseram mostrar a “felicidade” dos judeus que moravam lá. Inclusive, criando um documentário sobre Theresienstadt, no qual ficaram registradas imagens do campeonato. Os alemães nunca concluíram o filme. Seis semanas depois daquilo, o gueto já estava desabitado. A maioria da população havia morrido nas câmaras de gás dos campos de concentração.

Ficou a história. De poucos sobreviventes, que puderam contar como o futebol serviu para afastar da mente dos judeus o temor da morte que não tardaria. Por mais que a Liga Terezín servisse de maneira suja à propaganda nazista, fez uma diferença bem maior a quem tentava fugir daquela realidade.

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Abaixo, o trailer de um documentário sobre a Liga Terezín, produzido em 2012, e com imagens recuperadas do filme de propaganda nazista: