Quando anunciada em 2014, a Liga das Nações foi recebida com muitas críticas e vista como uma adição desnecessária a um calendário já cheio. Nossa familiaridade com o modus operandi das federações fez alguns rapidamente apontarem que era apenas uma maneira de a Uefa ganhar mais dinheiro sem pensar no lado esportivo. Cinco anos depois, com Portugal se sagrando campeão da primeira edição do torneio, o tempo foi senhor da verdade e mostrou que a competição foi uma grande ideia e sua execução, um sucesso.

Foi bastante comum ver nas redes sociais pessoas menosprezando a Liga das Nações comparando-a com a Eurocopa. O novo torneio nunca foi pensado para competir ou ter importância parecida com a tradicional Euro. Pelo contrário, ela traz ainda mais substância à disputa mais antiga, servindo como qualificatório, com as eliminatórias da Euro sendo sorteadas de acordo com o ranking da Liga das Nações.

Em vez disso, a Liga das Nações foi criada com o intuito de substituir os amistosos entre seleções nas datas Fifa. Estes tinham pouco apelo e, por vezes, nos traziam duelos bem apáticos. Para aumentar o interesse nas datas Fifa, a ideia da Uefa foi transformar esses jogos em uma competição, o que em teoria elevaria a atratividade das partidas e poderia acirrar a competitividade – o papel de classificatório para a Euro vai ao encontro disso.

Competitividade

O regulamento inicialmente confundiu muita gente, inclusive jogadores, como Harry Maguire. Entretanto, com o desenrolar da competição, as coisas foram ficando mais claras. A criação de divisões foi uma bela sacada, aumentando a competitividade e colocando juntas seleções de níveis parecidos, o que, por sua vez, aprimorou a qualidade dos jogos.

Enquanto o sucesso da competição ainda era uma incógnita, ao menos uma coisa estava certa: no pior dos casos, a Liga das Nações melhoraria a situação das equipes europeias no ranking da Fifa. Isso porque o torneio distribuiria mais pontos na base de cálculo do que partidas amistosas.

O êxito de um novo torneio invariavelmente passa pelos times envolvidos abraçarem a competição, e esse foi um passo imprescindível para esta bem-sucedida primeira experiência. Os duelos da Liga das Nações ainda por cima serviram como oportunidade para novos capítulos interessantes e até históricos para as seleções.

Em outubro de 2018, por exemplo, a Holanda foi cirúrgica e, com gols de Virgil van Dijk, Memphis Depay e Georginio Wijnaldum, bateu a Alemanha por 3 a 0 na Johan Cruyff Arena, o primeiro triunfo da Oranje sobre a tetracampeã mundial em 16 anos. Vimos ainda a Espanha, com bela atuação de Marco Asensio, impor à vice-campeã mundial Croácia sua maior derrota na história: 6 a 0, em setembro. Sérvia e Montenegro escreveram uma página importante em sua história, se enfrentando pela primeira vez desde a separação dos países, enquanto a Suíça, que terminou como quarta colocada da primeira edição do torneio, protagonizou uma insana virada contra a Bélgica, saindo de uma derrota por 2 a 0 para um triunfo por 5 a 2. Kosovo, por sua vez, aproveitou a competitividade da liga para fazer história e garantir participação na repescagem à Euro 2020.

Os jogos competitivos entre seleções de níveis parecidos possibilitou uma linha de progressão a certas equipes, e isso ficou mais marcado na campanha da Holanda. A expectativa, no início da competição, era de que a Oranje, no Grupo 1, acabasse rebaixada, já que tinha na disputa França e Alemanha. Em vez disso, superou as expectativas e começou sua escalada, vencendo a chave e ganhando ímpeto ao longo da campanha. O time foi se sedimentando coletivamente, enquanto suas peças individualmente também cresciam na temporada, sobretudo com Van Dijk e Wijnaldum no Liverpool e toda a trupe do surpreendente Ajax. A chegada à final contra Portugal marcou a reviravolta de sorte da Oranje, atualmente de volta à prateleira do topo de seleções do mundo, entrando agora em qualquer confronto com condições de bater de frente com o adversário.

Termômetro das ruas

O cenário da fase final da Liga das Nações termina de pintar o quadro de sucesso da competição. Em março, Polônia, Portugal e Itália expressaram seu interesse de sediar o final-four do torneio. Todos estavam no grupo A3, então ficou decidido que o classificado da chave teria o privilégio de sediar os momentos finais da disputa. Como Portugal deixou os outros dois países para trás, ganhou o direito.

Ficou definido que o Estádio Dom Afonso Henriques, em Guimarães, e o Estádio do Dragão, na cidade do Porto, receberiam as semifinais, a disputa de terceiro lugar e a grande decisão.

Evidentemente, ter a equipe da casa na final aumenta a importância da competição. Com a vitória de Portugal por 1 a 0, a oportunidade estava criada para se ter nas ruas um termômetro do sucesso da competição, e a resposta não poderia ser melhor.

Uma multidão tomou as ruas da cidade do Porto para celebrar a vitória que amplia o ciclo de triunfos inaugurado pela seleção portuguesa na Eurocopa de 2016, na França. As cenas na sede da final reforçam o sucesso da competição como produto, improváveis em meio aos amistosos que naturalmente se disputariam nessas datas. A invasão inglesa mostrou também como o torneio foi abraçado.

A primeira edição da Liga das Nações superou as expectativas e entregou um novo torneio pelo qual aguardar. Uma oportunidade de grandes confrontos entre seleções fortes com algo a disputar. A seriedade e intensidade demonstrada por Suíça, Inglaterra, Portugal e Holanda nos jogos finais gerou jogos interessantes, com personagens como Ronaldo, Bernardo Silva e Pickford aproveitando para brilhar. Se o começo foi assim, mal podemos esperar pelos próximos capítulos, a serem escritos após a Euro 2020.