A Copa Libertadores completou 60 anos neste domingo. Em 19 de abril de 1960, Peñarol e Jorge Wilstermann inauguraram a história da competição no Estádio Centenário, com um resultado logo emblemático aos carboneros: 7 a 1, em campanha que se encerraria apenas com a taça nas mãos. Já no dia seguinte, em 20 de abril, seria a vez do Brasil entrar em campo pela primeira vez. Campeão da Taça Brasil, o Bahia representou o país na primeira edição do certame. Sua participação, entretanto, seria encurtada por um forte time do San Lorenzo. Para celebrar a data, relembramos as histórias ao redor de ambos os duelos.

A partida inaugural

O Peñarol foi o penúltimo clube a confirmar sua classificação à edição inaugural da então chamada Copa dos Clubes Campeões da América. Os carboneros terminaram o Campeonato Uruguaio de 1959 empatados na liderança com o Nacional, ambos emparelhados com 26 pontos. Sem critérios de desempate, os rivais precisaram disputar um jogo-extra para definir o título. E com seus problemas: a competição se encerrou em novembro, em cima da hora à seleção uruguaia que se preparava ao Campeonato Sul-Americano, a ser realizado em dezembro no Equador. Assim, os dois rivais tiveram que esperar o ano seguinte para disputar a taça.

Neste ínterim, os dirigentes do Peñarol ficaram de olho nos talentos que apareciam no torneio de seleções. E eis que os anfitriões apresentaram um jovem atacante bastante promissor, na época vinculado ao Everest: ninguém menos que Alberto Spencer. Por US$ 15 mil, os aurinegros fecharam a contratação do equatoriano. O Nacional não queria aceitar a inclusão do reforço para a decisão, justificando que ele não havia participado do restante do Campeonato Uruguaio. Ao final, depois de muita disputa nos bastidores, a federação uruguaia aceitou a inscrição de Spencer e também do argentino Carlos Linazza, outro comprado no intervalo.

A finalíssima aconteceu apenas em 20 de março, quatro meses depois do fim da temporada. O Estádio Centenário recebeu mais de 67 mil torcedores, para aquela que é considerada a decisão mais importante do futebol uruguaio. Spencer e Linazza fizeram suas primeiras partidas oficiais naquele clássico. O Peñarol começou a desenhar sua vitória apenas aos 33 do segundo tempo, com Luis Cubilla. O campo, a partir de então, virou um ringue e, em confusão generalizada, oito jogadores foram expulsos – quatro para cada lado. Num “sete contra sete” que ignorava qualquer tática, o gol que selou o placar de 2 a 0 veio aos 42 minutos, com participação dos dois estreantes. Pênalti sobre Spencer, que Linazza converteu. Os aurinegros confirmavam o título e também a vaga na Copa dos Clubes Campeões.

Mesmo antes de selar a classificação, o Peñarol já tinha relação estreita com a Libertadores. Dirigente do clube, Washington Cataldi participou do congresso que idealizou o torneio em 1959 e ajudou, inclusive, a redigir o regulamento. “Colocamos todo nosso empenho em concretizar a Copa. Acreditamos nela. Colocamos nossa vida, sem descansar, sem concessões, sem pensar em fracassos. Estivemos seguros desde o princípio que era o grande certame que o continente necessitava”, declarava Cataldi, conforme o livro ‘Historia de Peñarol’, escrito por de Luciano Álvarez e Leonardo Haberkorn. Apesar dos altos custos para disputar a competição na época, a aposta se dava no prestígio e na valorização que o título de ‘campeão da América’ renderia.

O Peñarol estreou na Copa quase um mês depois de carimbar o passaporte, em 19 de abril de 1960. Num torneio com apenas sete equipes e sistema de mata-matas, os aurinegros iniciavam diretamente nas quartas de final. O Jorge Wilstermann, campeão boliviano, seria o primeiro adversário. Os Aviadores vinham em momento reluzente de sua história e, naquele ano, completariam o tetracampeonato nacional. Todavia, acabaram sendo presas fáceis dentro do Estádio Centenario. E a abertura do certame seria imediatamente histórica.

Por mais que a competição não fosse chamada corriqueiramente de Copa Libertadores pelos jornais da época (embora, por ideia do presidente da Conmebol, a taça tivesse tal nome desde o princípio), um ato simbólico aconteceu na cerimônia inaugural. O Uruguai comemora em 19 de abril o desembarque dos “Treinta y Tres Orientales”, os homens que liderariam a independência do país em 1825. Para celebrar a data, os jogadores do Peñarol entraram em campo com a Bandeira de Artigas, emblema do grande libertador nacional. Por conta do feriado, o duelo aconteceu durante a tarde, com a presença de 35 mil torcedores nas arquibancadas.

Bastaram 13 minutos para que o Peñarol anotasse o primeiro gol do torneio continental. Cubilla quase teve a honra, em chute que bateu no travessão do Jorge Wilstermann. No rebote, Carlos Borges apareceu livre dentro da área e precisou tentar duas vezes, após ser bloqueado pelo marcador, para finalmente balançar as redes. Aos 28 anos, o ponta esquerda tinha uma boa experiência, disputando a Copa do Mundo de 1954 e conquistando o Campeonato Sul-Americano de 1956 com a seleção uruguaia. Era um nome imponente para levar a honraria.

“Tenho a honra de converter esse primeiro gol na história da Copa. Fiz no início da partida e me lembro de ter agarrado as redes para gritar. Eu me arrepiei. É um orgulho pessoal, para que meus netos saibam quem eu fui. O gol nasceu de um avanço de Hohberg, que deu um grande passe a Cubilla. Ele acertou a trave, a bola sobrou e eu peguei forte, mas bateu no boliviano Rocabado. Peguei pela segunda vez, chutei a meia altura e foi gol. Para mim, é um orgulho ter feito esse gol que, ao longo dos anos, assumiu um significado especial”, contou Borges, ao livro ‘Pionero de América – A história do Peñarol na Libertadores’, de César Groba.

Borges repetiria a dose quatro minutos depois. Já aos 21, Cubilla deixaria o seu, iniciando sua trajetória como um dos maiores nomes da história da Libertadores – entre a carreira de jogador e a de treinador, foram cinco taças por três clubes distintos. De qualquer maneira, aquela tarde estava reservada a Alberto Spencer. O equatoriano ainda conquistava a confiança da torcida carbonera, mas daria uma imensa prova de talento: foram quatro gols na sequência da partida. Ainda no primeiro tempo, o centroavante fez o quarto do Peñarol. O Wilstermann esboçou uma reação ao descontar na volta do intervalo, com Máximo Alcóler. Todavia, Spencer estava inspirado e balançou as redes mais três vezes antes do fim.

O placar no Centenário terminou com uma indefectível goleada por 7 a 1. Spencer assumiria de imediato o posto de maior artilheiro da história da competição, que não abandonaria ao longo desses 60 anos. Depois daqueles quatro primeiros gols, seriam mais 50 nos 12 anos seguintes, em 87 aparições pelo torneio continental – com seis tentos anotados quando já defendia o Barcelona de Guayaquil, no fim da carreira. Para se ter uma ideia da imponência da marca do centroavante, o segundo maior goleador da Libertadores é Fernando Morena, com 37 gols, 17 a menos que Spencer. Entre outras marcas, o equatoriano também acumulou dois títulos no Mundial, três na Libertadores e nove nas ligas nacionais, oito delas com os carboneros.

Cabe dizer ainda que os nomes históricos em campo não eram apenas os três homens que marcaram os gols do Peñarol. Naquela tarde, também carregava a braçadeira de capitão Néstor “Tito” Gonçalves, considerado o grande herdeiro de Obdulio Varela como liderança dos carboneros. Com 24 anos, o camisa 5 já usava a faixa e seria também o primeiro homem a erguer a Taça Libertadores. Terminaria a carreira com 20 títulos, recorde dos aurinegros, assim como o maior número de jogos disputados pelo clube em todos os tempos.

A defesa contava com William Martínez, novato na Copa de 1950 e único remanescente dos campeões do mundo no elenco, que serviria de elo a duas eras no país. Já no apoio, Juan Eduardo Hohberg, outro herói da Celeste em Copas. O homem que, em 1954, precisou ser ressuscitado à beira do campo após um ataque cardíaco e ainda voltou para forçar a prorrogação na semifinal contra a Hungria. Por fim, no banco de reservas, Roberto Scarone se afirmaria como um dos maiores treinadores da história do futebol sul-americano.

E aquela partida inaugural da Libertadores proporcionou também a primeira aparição de um jogador brasileiro em campo. Milton Alves da Silva nasceu em Porto Alegre e tinha o apelido de “Salvador”, pelos gols salvadores que marcava nos tempos de colégio. Começou a carreira na própria cidade, com o Força e Luz, antes de se tornar um dos símbolos no Internacional no início dos anos 1950. Centro-médio com porte físico de maratonista e enorme capacidade de organizar o jogo, foi um dos protagonistas no chamado ‘Rolinho’, que enfileirou taças no Gauchão. Também comporia a preparação da Seleção à Copa do Mundo de 1954, mas seria cortado da lista final.

Salvador permaneceu no Internacional até 1955. Pouco antes, os colorados disputaram amistosos contra o Peñarol e os carboneros avistaram ali o substituto ideal a Obdulio Varela. O gaúcho chegou a Montevidéu naquele ano e, recuado com o tempo, se estabeleceu no miolo de zaga. Era um dos jogadores mais tarimbados no elenco que estreou na Libertadores de 1960. Também estaria nos dois jogos das finais e se consagraria como o primeiro brasileiro a erguer a taça. Deixaria os aurinegros pouco depois, transferindo-se ao River Plate, mas sua carreira seria atrapalhada por uma fratura na perna. Sem fazer fortuna no futebol, faleceria pobre, em 1979. Já em 1994, através de votação, a revista Placar o elegeu ao time dos sonhos do Internacional.

Após os 7 a 1 do Centenário, o jogo da volta na Bolívia se tornou mero protocolo. As duas equipes se enfrentaram em La Paz, não em Cochabamba. Uma cena impensável à rivalidade da Libertadores, aliás, aconteceu durante o desembarque do Peñarol: os próprios jogadores do Jorge Wilstermann esperavam os adversários no aeroporto. Mais curioso, eles também estavam acompanhados por suas esposas e posavam às fotografias tiradas pela imprensa local. Dentro de campo, os Aviadores arrancaram o empate por 1 a 1. Cubilla anotou o gol do Peñarol.

Depois disso, o Peñarol superou o San Lorenzo nas semifinais, com a necessidade de um terceiro jogo para definir o classificado – em polêmica ocasião na qual os dirigentes argentinos aceitaram, para reduzir os custos, o encontro decisivo dentro do próprio Centenário. Passaram os uruguaios, que derrotaram o Olimpia nas primeiras finais da história. Spencer garantiu o triunfo por 1 a 0 em Montevidéu, antes de Cubilla encaminhar o empate consagrador em Assunção. A Taça Libertadores chegava às mãos do primeiro esquadrão do torneio.

A estreia brasileira

A segunda partida da Copa dos Clubes Campeões da América se deu logo no dia seguinte. O confronto de maior peso nas quartas de final colocou frente a frente Bahia e San Lorenzo. Os campeões argentinos vinham motivados pelo título nacional que encerrava um jejum de 13 anos. O Bahia, todavia, também tinha seus motivos para se encher de confiança. A conquista da Taça Brasil foi tardia, consumada em 29 de março, por problemas para achar uma data ao jogo-desempate. Após eliminar o Vasco, o Tricolor de Aço derrotou o Santos na decisão.

O Bahia contava com experiência estrangeira desde seu banco de reservas. O treinador era o argentino Carlos Volante, nome importante no meio-campo do Flamengo durante os anos 1940, antes de comandar clubes como Vasco, Inter e Vitória. Seu acerto com os tricolores aconteceu justamente para a decisão da Taça Brasil e seria ele também o encarregado de conduzir o time na primeira campanha brasileira na Copa dos Clubes Campeões da América. Enfrentar o San Lorenzo não representava grande novidade ao portenho.

Já dentro de campo, o Bahia mantinha para a estreia a escalação que se tornara célebre ao longo da Taça Brasil, com todos os seus principais nomes. Nadinho protegia o gol, com a defesa liderada pelo capitão Leone. No meio, Flávio e Ari dividiam funções para iniciar as jogadas. Já no quarteto ofensivo, enquanto Marito tinha papel importante na ponta direita ao recompor o meio, Léo era o homem de referência na área e o encarregado pelos gols. Força máxima para encarar um desafio imenso em Buenos Aires.

Afinal, o San Lorenzo também possuía suas armas. A começar pelo próprio treinador, José Barreiro, segundo comandante com mais partidas à frente dos azulgranas na história. Aposentado poucos anos antes, assumiu o clube em 1957 e conduziu o time à reconquista do Campeonato Argentino, dirigindo também a seleção no título do Campeonato Sul-Americano de 1959. Adorado pela torcida, costumava ter seu nome gritado pelas arquibancadas do Gasómetro. Em retribuição, formaria um time com grande potencial ofensivo.

Raúl Páez era o principal nome na defesa, enquanto o talento se concentrava mais à frente. Héctor Facundo, Oscar Rossi e Norberto Boggio eram jogadores de Copa do Mundo no quinteto de ataque. Nenhum deles, contudo, com a fama e a voracidade de José Sanfilippo, camisa 10 da Argentina no Mundial de 1962. “El Nene” tinha apenas 24 anos na época, mas já havia sido artilheiro do Campeonato Argentino nas duas temporadas anteriores e também seria nas duas posteriores. Uma lenda no Gasómetro, ainda hoje maior artilheiro da história do Ciclón.

Às vésperas da viagem, o atacante Léo comentou as expectativas sobre o desafio ao jornal O Globo: “Difícil pode ser, mas impossível não é. Se vencemos o Santos na Vila e o Vasco no Maracanã, por que não poderemos também levar a melhor sobre o San Lorenzo em seus domínios? A equipe tem condições físicas e técnicas, corresponderá à confiança de todos. Para mim, o problema será a temperatura, pois dizem que está fazendo muito frio em Buenos Aires e creio que alguns jogadores sentirão a mudança, caindo de rendimento”.

O Bahia embarcou em avião exclusivo rumo a Buenos Aires. A delegação precisou ficar retida no aeroporto local, porque nenhum membro tinha o visto consular ou o certificado de turismo para entrar no país. O imbróglio seria resolvido com a intervenção do presidente tricolor, Osório Villas Bôas, presente na viagem. Já na capital argentina, apesar dos relatos iniciais de que o time ficaria hospedado na sede do Lanús (presidido pelo irmão de Carlos Volante), as notas posteriores apontam que os baianos se alojaram e treinaram nas instalações do River Plate.

O San Lorenzo não mandou os jogos naquela Libertadores em sua casa, o velho Gasómetro de Boedo. O Ciclón atuou justamente no estádio El Palacio, pertencente ao rival Huracán. E a estreia dos argentinos não atraiu grande público às arquibancadas: segundo O Globo, pouco mais de 20 mil torcedores estiveram presentes naquele embate, iniciado durante o fim da tarde de uma quarta-feira. Como consequência, o dinheiro abaixo do esperado com as bilheterias gerou um prejuízo de Cr$1 milhão ao Bahia, em informações do Jornal do Brasil na época.

A vitória do San Lorenzo por 3 a 0 seria definida apenas no segundo tempo. O primeiro gol saiu aos 15 minutos da etapa complementar, com Oscar Rossi. Miguel Ángel Ruiz ampliou aos azulgranas aos 36 minutos. Por fim, Sanfilippo deixaria sua marca aos 44, vencendo Nadinho em cobrança de pênalti. O Bahia, aliás, teria exagerado nas entradas mais ríspidas e marcou a Libertadores também com a primeira expulsão da história do torneio. Com fama de durão, Vicente cometeu a penalidade e foi ao chuveiro mais cedo por causa da falta.

Alguns jornais carregaram de tinta os relatos sobre o duelo. “O jogo esteve longe de corresponder ao que se podia esperar dos dois campeões dos maiores centros sul-americanos de futebol. O San Lorenzo, embora dominando, esteve falho nos arremates a gol”, analisou o Jornal do Brasil, no dia seguinte. A imprensa argentina ainda declarou que as duas equipes “não passaram do medíocre” e que “nada justifica a fama do Bahia, nem o título de campeão do Brasil”. Não que o San Lorenzo tenha se salvado, igualmente questionado pelo Clarín.

Visão totalmente oposta trouxe o Jornal dos Sports: “O match foi de bom quilate técnico, com o San Lorenzo exibindo um bom football, devido à maior experiência de seus homens. O Bahia aguentou 45 minutos, mas cedeu à boa apresentação do conjunto local”. O Diário de Notícias elogiava o Bahia: “Enquanto a defesa atuava com eficiência, lutando com bravura para afastar o perigo, os homens de ataque falhavam constantemente, impedindo a chegada à defesa adversária”.

E teve quem aproveitasse a ocasião para mostrar seu futebol. O ponta-de-lança Alencar vinha de lesão recente e era dúvida para o jogo na Argentina. Testado pouco antes do apito inicial, entrou em campo e se colocou entre os destaques tricolores. Conforme os jornais da época, o Boca Juniors se interessou pelo atleta, em negócio que não se concretizou. Pouco depois ele sairia do Bahia, transferindo-se ao Palmeiras. Marito seria outro cortejado por dirigentes do próprio San Lorenzo, mas a alta pedida do Tricolor afastou os azulgranas.

Com a derrota por três gols, o Bahia precisava de uma vitória por quatro tentos de diferença para se classificar. No entanto, isso não abalou a confiança da torcida baiana e a massa tricolor abraçou seu time no primeiro jogo de Libertadores realizado em solo brasileiro. O Diário de Notícias declara que 65 mil torcedores estiveram presentes na Fonte Nova em 3 de maio de 1960, uma terça-feira. A arrecadação de quase Cr$2 milhões ajudaria os anfitriões a cobrirem parte dos custos iniciais. E o time de Carlos Volante correspondeu na medida do possível, com a vitória por 3 a 2, embora o resultado fosse insuficiente para avançar.

Volante escalou um Bahia bastante modificado para o segundo encontro, incluindo os desfalques do expulso Vicente e do lesionado Alencar. Ainda assim, o Tricolor cumpriu uma boa atuação e se portou de maneira mais agressiva, contra um adversário que preferia cadenciar o jogo. O San Lorenzo abriu o placar durante os primeiros minutos, com Sanfilippo. Contudo, os baianos reagiram e buscaram a virada antes do intervalo. Carlito empatou logo na sequência, com uma cabeçada, e Flávio fez o segundo, graças a um chute da intermediária. A equipe perderia boas chances de ampliar a contagem, inclusive.

No segundo tempo, Sanfilippo voltaria a frustrar os anfitriões aos 12 minutos, em cobrança de falta que contou com falha do goleiro Nadinho. Mas a dois minutos do fim, em pênalti descrito como “arranjado” por O Globo, Marito venceu o arqueiro Vladimir Tarnawski e permitiu um pouco de alegria à torcida baiana. Apesar do tento decisivo, Marito seria criticado por seu individualismo. Enquanto isso, a atuação do zagueiro Henrique rendeu uma indicação de João Havelange (então presidente da CBD) a Vicente Feola por sua convocação à Seleção.

O presidente Osório Villas Boas fez questão de ressaltar que o Bahia deixou a competição com “missão cumprida”. Conforme os relatos dos jornais, o dirigente disse que o clube “foi eliminado por uma equipe realmente superior”, mas que as esperanças “seriam outras se o regulamento não considerasse o saldo de gols como critério de desempate” – esperando, com um triunfo para cada lado, a terceira partida em campo neutro. O mandatário também ressaltou que, financeiramente, a Taça Brasil acabou sendo mais vantajosa, também por “elevar o nome do futebol baiano”.

Na volta a Buenos Aires, os membros do San Lorenzo elogiaram especialmente a receptividade do povo baiano. “Segundo pôde constatar a reportagem, todos os portenhos estavam muito satisfeitos pela acolhida carinhosa que lhes foi dispensada por dirigentes e jogadores do Bahia. O Comodoro Palma [chefe da delegação] disse que nenhum deles esperava que a recepção fosse tão cordial e bem preparada. Queriam agradecer publicamente as atenções de que foram alvo pela equipe da ‘boa terra'”, descrevia reportagem de O Globo.

O Diário de Notícias, por sua vez, relata que a pergunta mais comum entre o elenco argentino durante sua escala no Rio de Janeiro era para saber por que o Santos havia perdido a final da Taça Brasil: “Os jogadores do San Lorenzo acharam a equipe do Bahia boa, mas em nível técnico abaixo do normal em relação às outras grandes equipes brasileiras”. Pouco antes, o Ciclón havia encarado Fluminense e São Paulo em torneio amistoso no México. De qualquer maneira, o temor sobre o Santos era maior, a ponto de atletas afirmarem que “não saberiam se passariam” em caso de embate com o time de Pelé.

E o San Lorenzo, de fato, não suportou o Peñarol nos três jogos válidos pelas semifinais. Ao aceitar fazer o duelo de desempate em Montevidéu por uma quantia de dinheiro, em vez da proposta por Santiago, permitiu que os carboneros se garantissem na decisão com o triunfo por 2 a 1. Seria a grande chance desperdiçada pelo Ciclón até a conquista do título em 2014, com duas quedas na fase semifinal neste intervalo. Já Sanfilippo teve a oportunidade de transformar o amargor de 1960 em alegria ao Bahia anos depois: em 1968, o artilheiro foi contratado pelos tricolores e fez boa passagem pela Fonte Nova. Anotou 42 gols e despediu-se com dois títulos baianos, antes de retornar ao San Lorenzo para ser campeão nacional mais uma vez.