LONDRES, 26 de maio de 2013 – Quando acordou no último dia 18 de setembro, o herói da final da Champions League, disputada ontem, não poderia imaginar o que o futuro lhe reservava. Sua situação era tão desconfortável em seu clube, que a ele não seria permitido nem ao menos sonhar com um dia de glória como o que acabou vivendo. “Estava me sentindo humilhado. Sei que parece exagero quando isso vem de alguém que ganha bem, tem uma profissão com a qual muitos sonham e desfruta de uma posição social que tantos almejam e nunca alcançarão. Mas eu me sentia péssimo. Pensava em largar meu sonho e voltar para o Brasil”, desabafou.

Enquanto escovava os dentes e se espantava com as suas olheiras no espelho, mal sabia que tinha início ali o torneio que se revelaria uma das páginas mais bonitas e surpreendentes de sua carreira.

FASE DE GRUPOS: Tapete estendido a um novo campeão

Mas o clima não era de desespero para todos. Alguns estavam até bastante eufóricos. Animado pela conquista do ano anterior, Abramovich investiu bastante na renovação do plantel do Chelsea. A inexperiência de Hazard e Oscar pesou, no entanto. Somou-se ao ocaso de Fernando Torres, que, após mais um longo jejum de gols, chegou a se amarrar a uma árvore do Hyde Park para exigir a recontratação de Drogba, o que lhe devolveria o confortável papel de sombra. Sombra foi o que os londrinos nem fizeram a Shakhtar e Juventus, ficando de fora das oitavas. A crise só aumentou quando perderam o Mundial para o Corinthians por 1×0, gol do sinodesconhecido Zizao, que só jogou a decisão porque 18 jogadores do elenco e cinco cones de plástico amanheceram com disenteria.

Fernando Torres, do Chelsea

Os demais ingleses não tiveram problemas. Vacinado pelo vexame do ano anterior, Ferguson não abdicou de sua força máxima, classificando o United por antecipação. O único tropeço veio na rodada final, quando os reservas não resistiram à garra do Cluj, que acabou se classificando à Europa League, no lugar do Galatasaray. O clube turco jogava por um empate para ir às oitavas da Champions e acabou na lanterna do grupo, ao perder de virada para um Braga em dia de muita sorte. O Arsenal não tomou conhecimento de seus fracos adversários, embora não embalasse na Premier League. Levou consigo o Montpellier, pois Schalke e Olympiacos morreram abraçados, mais preocupados em debater sobre a austeridade de Merkel do que em jogar bola.

Quem também nadou de braçada foi o Bayern. Aliás, tudo foi muito óbvio no Grupo F, já que o Valencia também avançou à próxima fase e as inevitáveis piadas com o BATE Borisov foram feitas à exaustão, à medida em que o time só APANHAVA. Mesmo sem jogar um futebol sedutor como o dos últimos anos, o Barcelona também não teve problemas para se classificar, ainda que os empates com o Benfica, segundo do grupo, tenham acendido um alerta. Liderando com folga a Liga Espanhola, os culés viviam uma tranquilidade insossa, quebrada apenas quando Tito Vilanova mencionou que gostaria de ter um centroavante de ofício no grupo. Chocados e enojados com essa suposta indecência estilística, os catalães só sossegaram quando o técnico atribuiu a declaração a um primo seu.

Um primo madrilenho, claro.

Menino rico triste, clubes milionários felizes

Em Madri, o problema não era a falta de espetáculo, mas o excesso de drama. Enquanto Cristiano Ronaldo expressava a sua tristeza apenas não comemorando gols, dando declarações misteriosas e acariciando o seu próprio topete, ninguém dava a mínima. O clima no vestiário pesou quando ele começou a compartilhar no Facebook correntes sobre crueldade animal e mensagens depressivas assinadas (à revelia) por Clarice Lispector e adornadas por imagens do pôr do sol como pano de fundo. A situação ficou insustentável quando o craque português começou a insistir que as pessoas ouvissem o mais novo disco de Damien Rice.

Cristiano Ronaldo, do Real Madrid

O resultado é que o Real quase foi eliminado ainda na primeira fase da Champions. O City, agora mais experiente, liderou a chave. Já o Borussia Dortmund, borrou suas fraldas contra o Ajax, o que salvou os espanhóis. Mas não o apreço merengue por Cristiano Ronaldo, que acabou negociado com o Anzhi na janela de transferências do inverno europeu. Afinal, nada melhor para curar um coração partido do que ir morar no aconchegante Daguestão. Falando em russos milionários, o Zenit terminou à frente do Milan no seu grupo, como muitos previam. Hulk, contratado a peso de ouro (prata, bronze e pedras preciosas) fez muito sucesso por lá. A ponto da parcela racista da torcida do clube o enxergar quase como um loiro de grandes olhos azuis.

O antigo clube do paraibano é que não teve muito a celebrar. O Porto estava com os cofres cheios, é verdade. Mas dinheiro na mão, ao menos com a janela de transferências fechada, é vendaval. O Paris Saint-Germain, ainda se acertando, não encontrou dificuldades para se classificar no primeiro lugar da chave. Não graças a Ibrahimovic, que voltou a decepcionar em partidas da Champions. A equipe da Cidade Luz dependeu outra vez do ímpeto de Nenê, o seu Plano B ambulante. O Dynamo Kiev também garantiu seu lugar nas oitavas de final. Passou no saldo contra os portugueses, graças a goleadas consideradas suspeitas diante do xará de Zagreb.

Xepa de inverno

Como a crise financeira persistia e os novos ricos já haviam feito as suas extravagâncias no verão, a única grande negociação da janela de inverno foi mesmo a de Cristiano Ronaldo. Fora isso, só os desesperados se mexeram. Mas nem todos. Tito Vilanova continuava procurando uma forma de convencer seus chefes de como um homem de área poderia ajudar diante de defesas retrancadas. Queria também um zagueiro, mas batia de frente com a filosofia implantada por Guardiola de que qualquer jogador com mais de 1m70 poderia se tornar um zagueiro nato. O Real queria substituir CR7 à altura, mas seus principais alvos já não poderiam mais ser inscritos na Champions. Kaká, escanteado nos meses finais de 2012, virava a esperança de Mourinho para 2013.

Os clubes de Manchester não se reforçaram. Ou seja, deram uma olhada no elenco do Arsenal e não encontraram ninguém que gostariam de afanar. A Juventus notou que Bendtner não era o centroavante de seus sonhos e viu em Heskey o nome ideal para marcar os gols que devolveriam o clube à glória europeia. O Braga, na zona de rebaixamento do Campeonato Português, foi quem mudou mais. Primeiro com a contratação de Felix Magath. Antes de conduzir mais um treinamento de sobrevivência na selva com os seus novos comandados, o polêmico alemão ironizou: “brasileiros só passam a bola para brasileiros. Felizmente, aqui em Braga isso não é um problema, mas uma necessidade”. Maicosuel, persona non grata na Udinese, também cavou (sic) um lugarzinho no clube, chegando por empréstimo.

Zé Eduardo

Quem chutou o balde mesmo foi o Milan. Pazzini não marcava há meses; Pato foi mandado, mancando, para a lagoa, já que não dividia mais um leito com a patroa; e Robinho sentia o peso de ser protagonista. A solução: buscar na bota o melhor atacante do primeiro turno do combalido campeonato local. O problema era convencê-lo a trocar o Siena pelo Milan. Zé Eduardo, mais conhecido como Zé Love, marcou sete gols em 18 partidas, o que não pode parecer muito para você, mas é um desempenho digno de Messi para ele. Ofendido por, no verão, ter sido convidado a passar por testes para integrar o elenco rossonero, Zé Love exigiu que o clube aceitasse passar por um período de experiência para se tornar sua nova casa.

Durante esse prazo, o brasileiro fez várias exigências. Das mais absurdas, como pedir a um italiano que colocasse ketchup na pizza que lhe era servida no refeitório do clube, às mais providenciais, como fazer Robinho admitir, em frente a todo o elenco, que nunca será eleito o melhor jogador do mundo. Enfim, após se destacar com um gol (de pênalti) em três jogos, assinou com o Milan.

OITAVAS DE FINAL: Duas surpresas e uma vingança

Retomado o torneio, poucas surpresas nas oitavas. O Arsenal mais uma vez deu azar no sorteio, cruzando com a Juventus e sendo eliminado com goleada em Turim. United e City passaram facilmente por Benfica e Valencia, respectivamente. Ansiavam por uma final entre eles em Wembley. Mal sabiam que o destino lhes reservaria um clássico já nas quartas de final. O Barcelona, com Mascherano e Song na zaga, substituindo os machucados Piqué e Puyol, atropelier o Montpelou. Digo, atropelou o Montpellier. O Real, movido pela redenção de Kaká, goleou em Madri, o que lhe deixou bem à vontade para cozinhar o jogo de volta, em Donetsk.

Kaká, do Real Madrid

Nos pênaltis, O Braga, cada vez mais copeiro, passou pelo Bayern. Todos esperavam para ver o que Maicosuel aprontaria na sua cobrança, mas ele foi substituído por Magath aos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação. Foi aplaudidíssimo. O Magath, evidentemente. Quem também aprontou foi o Dynamo Kiev, que mostrou ao Zenit que dinheiro não é tudo nessa vida. De quebra, foram mais longe na competição que os ferrenhos rivais do Shakhtar. O confronto mais esperado desta fase, claro, estava no reencontro entre Ibrahimovic, Thiago Silva e o Milan. O sueco não comemorou os seus gols contra os italianos. Até porque não os fez. Mesmo sem Zé Love, lesionado, o Milan triunfou.

QUARTAS DE FINAL: Só os fortes sobrevivem. Os fortes, o…

Na terça-feira em que o clássico de Manchester decidiu uma vaga nas semifinais da Champions League, poucos voltaram os seus olhares para a grande exibição do Real, que despachou o Dynamo. Kaká e Modric demonstravam cada vez mais entrosamento. Em Old Trafford, Tévez marcou duas vezes, para o desgosto de metade daqueles que já haviam queimado sua camisa um dia e comemoração intensa da outra metade. O empate com gols bastava à equipe da casa, que reagiu com os tentos salvadores de Welbeck e Van Persie. Os brancos de Madri e os vermelhos de Manchester brigavam por uma vaga numa aguardada final contra o Barcelona.

…Milan e o…

Era o que todos imaginavam, pelo menos. Mas o Milan, mesmo dominado nos dois jogos, eliminou o Barça. Os culés venciam o primeiro por confortáveis 2×0 no Camp Nou e não desanimaram nem quando Zé Love diminuiu, em lance fortuito (como todos que envolvem gols dele, aliás). Em San Siro, bastava manter a posse de bola e gastar o tempo. O problema é que Piqué e Puyol seguiam lesionados. Mascherano torceu o joelho. Song teve conjuntivite. Busquets foi pego no antidoping. Adriano pegou bicho de pé. Thiago teve caganeira. E Fontás… estava saudável, mas ninguém nunca o escala mesmo. Resultado: Xavi e Iniesta formaram a zaga blaugraná. Trocaram passes por 88 minutos, até que o primeiro teve uma câimbra. Gol de Robinho, no primeiro toque na bola que o Milan dava desde a saída de jogo.

Xavi, Iniesta e Messi, do Barcelona
… Braga!

Os portugueses já haviam deixado o Bayern para trás e agora encaravam outro dos mais tradicionais clubes da Europa. A Juventus, com o bicampeonato da Serie A bem encaminhado, criava muitas chances, satisfazendo a vocação de Heskey em desperdiçá-las. O Braga de Magath rastejava pelo front adversário, à espera do momento ideal para matar o jogo. O time só se desconcentrava um pouco quando os brasileiros descobriam um português infiltrado no time e o pegavam pelo pescoço, afirmando que ele não era um caveira, mas sim um gajo. A estratégia militar funcionou e, na base do esforço, os bracarenses calaram o Juventus Stadium, com um gol chorado de Douglão. Estavam nas semifinais.

SEMIFINAIS: Confrontos opostos

Esperava-se que os favoritos ao título dessem grandes espetáculos nas semifinais, enquanto as zebras fizessem duas daquelas peladas difíceis de assistir. O futebol não teria a mesma graça se imprevistos não teimassem sempre em acontecer. O respeito mútuo entre Mourinho e Ferguson podia até não ser declarado, mas gerou uma cautela que ocasionou que Real Madrid e Manchester United fizessem duas partidas bastante amarradas. Na ida, em Old Trafford, o manager escocês achou bom negócio não sofrer gols em seus domínios. Da mesma forma, o treinador português viu com bons olhos o empate longe de casa.

Alex Ferguson, do Manchester United

No Santiago Bernabéu, os merengues até que tomaram a iniciativa, mas insistiram demais pelo meio, com Kaká, Modric e Özil frequentemente se esbarrando. Fechadinho, o United dependia demais das escapadas de Nani e Young pelos lados, mas eles poucos produziram. Quando a prorrogação parecia inevitável, o lateral Rafael tentou driblar Kaká no campo de defesa e se deu mal. O meia, que recentemente voltara a ser convocado para a seleção, arriscou por cobertura e pegou De Gea desprevinido. Foi o suficiente. O Real estava na final, onde brigaria com unhas e dentes (literalmente, no que dependesse de Mourinho) por “la décima”.

Enxurrada de gols

Enquanto a outra semifinal era tida como final antecipada, ninguém dava nada pelo encontro entre os valentes Milan e Braga. Os rossoneri, por toda a tradição que carregam, eram os favoritos. Mas aos soldados do Minho não havia batalha perdida na véspera. Tanto no San Siro, quanto n’A Pedreira, uma chuva de gols. Na Itália, com três de Robinho e um de Zé Love, o Milan venceria por 4×3. Placar que o Braga devolveria em Portugal, com inacreditáveis quatro tentos de Maicosuel, sendo dois em perfeitas cobranças de falta. Talvez cansados pelo esforço empregado nas duas partidas, a prorrogação se arrastou sem atrativos. A decisão da vaga ficou para as penalidades.

Desta vez, Magath não substituiu Maicosuel. Como poderia, depois daquela apresentação de gala? O brasileiro não esteve na lista inicial de batedores, no entanto. Só que todos foram convertendo, de um lado e de outro, como se os deuses do futebol quisessem que Maicosuel também participasse do ritual. 8×7 para o Milan, Maicosuel se dirige à marca do pênalti. Tentaria nova cavadinha? Buscaria o canto? Bateria forte e no meio? O mago partiu confiante e todo o estádio prendeu a respiração. Gol de cavadinha: o fantasma estava exorcizado. Só que o empate persistia assombrando os dois times, até Nocerino mandar sua segunda cobrança naquela noite para fora. O destino se oferecia a Maicosuel, vestindo lingerie transparente e posando de pernas abertas (o destino, não o Maicosuel, por favor).

Maicosuel

Bastava ao brasileiro marcar para colocar a sua equipe na final da Champions League pela primeira vez. Nova cavadinha? Não era momento para brincadeiras. Maicosuel fechou os olhos e cobrou forte, no alto. Esperava escutar a comemoração da torcida. Ficou com o barulho da bola se chocando com o travessão. De cavadinha, vejam só, Zé Love colocaria o Milan novamente na frente. Quando Abbiatti voou para defender a batida de Leandro Salino, Maicosuel chorava sozinho, sem que nenhum companheiro se aproximasse para consolá-lo. A exemplo do que já havia acontecido em Udine, há quase um ano.

FINAL: Entre o amor e a fé

Dia de festa em Londres. Como parte das celebrações dos 150 anos da Football Association, a final da Champions League voltava a Wembley, apenas dois anos depois do Barcelona ter trucidado o Manchester United. O maior rival dos culés buscava o décimo título na competição, enquanto o Milan sonhava levantar a orelhuda pela oitava oportunidade. Muita tradição desfilando no gramado e muita badalação nas arquibancadas. Figuras do show business e da realeza dividiam espaço com grandes estrelas do futebol. Um dos mais disputados era Neymar, recém-contratado pelo Real, em seu novo visual: careca, por ter perdido a batalha contra a caspa.

Neymar, do “Real Madrid”

Com a cara amarrada, Cristiano Ronaldo matava as saudades do seu ex-clube. Já estava triste no Anzhi, mas preferia não dizer o motivo. Guardiola, recém-empossado como treinador do Chelsea para a temporada 2013-14 se esquivava elegantemente quando lhe perguntavam se ele estava ali para torcer pelo Milan. Platini distribuía folhetos sobre o fair play financeiro. Todos os dirigentes presentes aceitavam o papelzinho amavelmente, mas jogavam fora sem nem lê-lo, assim que o francês lhes dava as costas. Barrado na entrada do estádio, Balotelli soltava ali mesmo os rojões que acarretaram o veto de sua presença, para o delírio dos torcedores que não tinham ingresso.

No entanto, quando a bola rolou no campo, nada disso mais importava, por mais que Cristiano Ronaldo tenha sentido falta de ver seu rosto no telão a cada dois minutos. As equipes se estudaram nos primeiros quinze minutos, até que Kaká arrancou do meio campo e lançou Higuaín, que só deslocou de Abbiati para colocar o Real na frente. Batia um certo desespero no Milan, especialmente porque as tabelas entre Robinho e Pazzini eram facilmente anuladas por Pepe e Sergio Ramos, muito bem posicionados. Em lançamento de Modric, por muito pouco Higuaín não marcou o segundo. Outra boa chance veio em um chute de longe dado por Xabi Alonso.

Visita inesperada

O jogo foi para o intervalo com um placar acanhado, não condizente com o desempenho dos merengues, que tinham o controle da situação. Para o segundo tempo, os dois times voltaram sem modificações. Mudou a postura do Real, que montou duas linhas de quatro na defesa e praticamente impedia que o Milan invadisse sua intermediária. Kaká, exausto, corria por três, tentando levar a bola a um cada vez mais solitário Higuaín. Aos 18 minutos, para desgosto da torcida italiana, Zé Love, em péssima fase (uma péssima fase para quem já é normalmente tenebroso, tenham em mente) substituía Montolivo e o Milan montava um 4-3-3, partindo para o tudo ou nada. Todos esperavam o nada.

Mas Zé Love queria tudo. Numa linda jogada pela ponta esquerda, centrou para Pazzini, que furou, mas acabou fazendo o corta-luz para Boateng, que veio de trás para marcar e empatar. Mourinho, que já ensaiava poses de indiferença para o momento de levantar o troféu, foi obrigado a agir. Trocou Khedira e Özil por Di María e Benzema. Empolgados, os rossoneri quase chegam ao segundo, com Robinho. O bom momento da equipe milanesa foi interrompido por fogo amigo. Um empolgado torcedor do Milan invadiu o gramado pelado, rodando freneticamente a sua genitália e tentando batê-la nos traseiros dos jogadores do Real. Espanto geral quando a câmera o focaliza e… eis que Balotelli conseguiu penetrar na festa. Felizmente, apenas na festa.

Mario Balotelli, do Manchester City

Como levaram mais de dez minutos para agarrar o Balotelli por uma extremidade pela qual isso fosse socialmente aceitável, Kaká teve tempo de dar uma respirada e tomar uma água, quando Callejón já se aquecia para substituí-lo. Por ironia, logo ele cometeria um pênalti, a quatro minutos do final. Zé Love se apressou em pegar a pelota e correr para a área do Real. Abraçada, a torcida milanesa lembrava do gol de pênalti que ele havia marcado em sua estreia pelo clube. Zé Eduardo, por sua vez, lembrava da humilhação pela qual tinha passado no verão anterior e partia com gana para a marca penal. Notou Casillas escolhendo um canto, inclinou o corpo para o outro e chutou… gol do Milan!

Anulado.

O retorno do(s) rei(s)

Balotelli havia se desgarrado dos policiais e, agora vestindo apenas pantufas de coelhinho e um chapéu de viking, saltava por trás da barra de Casillas para invadir a pequena área. Após consultar os seus auxiliares, Howard Webb concluiu que deveria voltar o lance, pela presença de um corpo estranho (o qual Balotelli cultivou com horas de musculação e hidroginástica) na área de jogo. Zé Love deu de ombros e partiu para uma segunda cobrança. Desta vez, Casillas não se deslocou. O brasileiro tentou o canto esquerdo e… acertou o pé da trave. Casillas rapidamente recuperou a bola e lançou para Kaká, o mais adiantado merengue, ainda no campo de defesa do Real.

O melhor do mundo em 2007 seguiu livre, com a mesma imponência de outrora. Não havia cansaço que o parasse. Mexès tentou um carrinho, mas caiu sentado. Abiatti, desesperado, foi driblado com um corte seco e quase quebrou o pescoço para olhar enquanto Kaká dava um toque certeiro na bola, enchendo a rede de Wembley, para delírio de Mourinho, que disfarçou toda a emoção do momento coçando a orelha e dando uma tossidinha. Não havia mais tempo para reação, o Real Madrid, pelos pés daquele que começara a temporada escanteado, finalmente conquistava sua tão sonhada décima Champions League, roubando os holofotes do inimigo Barcelona, campeão da Liga Espanhola e da Copa do Rei. Zé Eduardo, desconsolado, refletia: “eu tenho dois Paulistões e uma Libertadores, não merecia passar por isso!”. Voltaria então ao Siena, rebaixado na Itália.

Se você chegou a pensar que essa história terminaria com Zé Love alçado ao posto de craque de uma decisão da Champions League, saiba que, aqui na Trivela, a Champions League é assunto muito sério. Até mesmo na hora de tratá-la com uma saudável e exagerada galhofa.