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[Esquadrões da Cortina de Ferro] Steaua, o brilho da Champions sob as sombras da ditadura

Até 1986, levantar a taça da Copa dos Campeões era privilégio da Europa Ocidental. A Recopa Europeia já tinha sido conquistada por soviéticos, tchecoslovacos e alemães orientais, enquanto a Copa da Uefa (ainda como Copa das Feiras) sagrara húngaros e iugoslavos. A Champions, no entanto, parecia inalcançável para qualquer clube da Cortina de Ferro. Até os romenos romperem a barreira. O Steaua Bucareste vencer o Barcelona dentro da Espanha. Duckadam defender quatro pênaltis na final.

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A equipe apadrinhada pelo exército possuía jogadores magníficos. Liderados por Lacatus, os Militarii ganharam a companhia de Hagi tempos depois e formaram a base da Romênia que encantou o mundo na Copa de 1994. Só que o ambiente do clube não era só feito de talento. Pelo contrário. Muitos desses craques só se juntaram ao grupo depois das sujeiras praticadas pelos Ceausescu, os ditadores romenos que têm grande parte nas grandes glórias do Steaua. Um time que encantava dentro de campo e, paradoxalmente, repugnava fora dele.

O comunismo foi uma enorme conveniência

A história do Steaua Bucareste precede a ascensão comunista na Romênia. Os anseios pela criação de um representante do exército nacional vieram à tona em meados de 1946, por um clube que mantivesse as tradições esportivas das forças armadas. Naquele ano, começavam as práticas do hipismo e da esgrima. O passo seguinte aconteceu em 1947, com o decreto que estabelecia o surgimento da ASA Bucareste – a Associação Esportiva das Forças Armadas. A agremiação era oficializada para sete esportes, entre eles o futebol. E a ideia era aproveitar os oficiais que já atuavam por outras equipes, reunindo todos na ASA.

steaua- u cluj (1947)

Meses depois, os comunistas instauraram seu regime na Romênia. O país havia se aliado ao Eixo durante a Segunda Guerra Mundial, mas foi invadido e derrotado pela União Soviética. E a influência dos soviéticos se alastrou tanto na política quanto no esporte. Assim como acontecia na URSS, os clubes romenos passaram a ser controlados por órgãos estatais. O que veio a calhar à ASA, já dirigida pelo exército e que se fortalecia com o novo modelo de gestão. Tanto é que o clube, inicialmente alinhado para disputar a segunda divisão, foi impulsionado diretamente ao primeiro nível, graças ao desaparecimento de um time de Bucareste. A temporada 1947/48 foi a primeira da ASA na elite do Campeonato Romeno. Porém, o time recém-formado não deu liga tão rápido e terminou a campanha na 14ª colocação, disputando um playoff para se safar do rebaixamento.

Era só um ponto fora da curva. Com a bênção do regime, o time não teve tantas dificuldades para encontrar oficiais que também fossem bons jogadores, já que a população havia se envolvido em peso na guerra. Mais do que isso, muitos do que aceitavam se juntar ao elenco ganhavam cargos bem remunerados no exército. Rebatizado de CSCA (Clube Esportivo Central das Forças Armadas), o clube conquistou seu primeiro título em 1949, vencendo a Copa da Romênia. A prévia da década de ouro que se seguiria a partir de 1950, com uma formação notável por sua rapidez – e, por isso mesmo, apelidado de ‘Vitezistii’, os ‘Velozes’. Agora chamada de CCA (Casa Central das Forças Armadas), a equipe estabeleceu uma hegemonia no Campeonato Romeno. A base da seleção romena foi tricampeã nacional em 1951-1952-1953, recuperando a taça em 1956 em 1960-1961, além de levar mais quatro copas nesse período. E também esteve em três edições da Copa dos Campeões, sempre eliminada na primeira fase.

steaua '1952

Aquele momento foi importantíssimo não apenas para a sala de troféus do Steaua, mas também para as suas arquibancadas. Foi a partir de então que os Ros-Albastrii (termo que, em romeno, significa ‘vermelhos e azuis’) se tornaram mais populares no país. Além disso, a rivalidade com o Dinamo Bucareste também se acirrou. Mais do que um adversário local, o clube era apadrinhado pela polícia secreta, havendo também uma rixa dentro da burocracia comunista. E, mesmo que os títulos ficassem com a CCA, a equipe era freguesa do Dinamo naqueles primeiros anos – foram apenas duas derrotas nos 15 primeiros dérbis.

Em 1961, a mudança que tornaria o clube célebre. O CCA transformou-se em Steaua, a Estrela de Bucareste. E o escudo tinha a sua estrela vermelha, símbolo dos exércitos comunistas, transformada em amarela, combinação de cores que fazia referência à bandeira da Romênia. O apelo nacional, entretanto, não garantiria a tranquilidade no Campeonato Romeno. Em momento de forças equilibradas, o Steaua conquistou três títulos nacionais sob o novo nome entre as décadas de 1960 e 1970. Os melhores resultados vinham na Copa da Romênia, que a equipe conquistou oito vezes entre 1962 e 1979. A fama de ‘copeiro’ não era em vão. Algo que os romenos provariam para o resto da Europa nos anos 1980.

O esquadrão que nasceu do jejum

A partir de 1979, o Steaua Bucareste teve que enfrentar a maior seca de títulos de sua história até então. Uma longa provação que seria recompensada. Naqueles anos difíceis para o clube é que o histórico elenco começaria a ser montado. A peça primordial daquele esquadrão, contudo, teve o gosto de sentir as glórias anteriores. Tudorel Stoica era o coração do meio-campo dos Ros-Albastrii desde 1975. Levado ao grupo ainda com 21 anos, não demorou para assumir a liderança do time ao lado do veterano atacante Anghel Iordanescu. Tanto é que herdou a braçadeira de capitão quando o companheiro deixou o elenco, em 1982.

O desmanche da desgastada geração e a chegada dos futuros campeões se intensificou a partir de 1980, a maioria com menos de 23 anos. Os primeiros transferidos foram Stefan Iovan e Gavril Balint, duas apostas do Steaua. Um lateral direito combativo que ganhava espaço nas seleções de base e um hábil atacante que defendia um pequeno clube do interior. No ano seguinte, outra promessa a desembarcar em Bucareste foi o meio-campista Mihail Mejearu. Já a temporada de 1982 ficou marcada pela chegada de dois grandes símbolos dos Militarii.

belodedici
Miodrag Belodedici era um jovem de origem sérvia, nascido na fronteira com a Iugoslávia. Durante a adolescência, o líbero defendia o nanico Minerul Moldova Noua, mas não ficou por muito tempo lá. Sua técnica chamou atenção do Luceafarul Bucareste equipe formada pela federação romena justamente para desenvolver jovens talentos locais. A academia lhe deu projeção, contratado pelo Steaua aos 18 anos. Já o mais velho de toda essa turma era Helmuth Duckadam. O goleiro descendente de alemães começou jogando em torneios do interior, até ser fisgado pelo UTA Arad, clube que já tinha sido campeão romeno, mas vivia na gangorra entre a primeira e a segunda divisão. Apesar da equipe modesta, Duckadam se destacou o suficiente para ser convocado à seleção romena principal. Convenceu o Steaua, que o contratou aos 25 anos. O negócio mais importante da história do clube.

A origem negra do sucesso

Não foi só pelos prodígios que o Steaua Bucareste subiu de produção. Nas três primeiras temporadas da década de 1980, a equipe não foi além da quarta colocação. O principal ponto de virada aconteceu em 1983. Embora o clube seguisse controlado pelo exército, foi a partir de então que se transformou em fantoche nas mãos dos Ceausescu. Nicolae, o patriarca da família, era ditador da Romênia desde 1965. No entanto, com o enfraquecimento das estruturas de controle de seu regime, a opressão tomava conta do país, com episódios terríveis de violência contra a população. Já Valentin, seu filho mais velho, escolheu o Steaua para ser seu passatempo naqueles anos difíceis. Era uma forma de ajudar seu pai, com um time de futebol que mostrasse a força do poder central romeno e servisse de distração à população, tentando evitar as revoltas.

Valentin Ceausescu se tornou uma espécie de presidente informal do Steaua. Frequentava os bastidores do clube com liberdade. Ajudou a construir um moderno centro de formação de jogadores – o que, de certa forma, suplantava a existência do Luceafarul Bucareste. E a chegada de grandes jogadores aos Ros-Albastrii se intensificou ainda mais. O expediente de solicitar o serviço militar obrigatório de jovens promessas, já utilizado em outros países, se tornou comum no Steaua. Além de tudo, os atletas recebiam regalias que o restante da população não tinha, o que facilitava as tratativas.

ceausescu
O comando técnico passou às mãos de Emerich Jenei. O treinador já tinha dirigido o Steaua e era conhecido pelos métodos de trabalhos intensos. Não dava descanso aos jogadores durante o inverno e, certa vez, preparou-os com a ajuda de um carateca, buscando força física e controle nos movimentos. Mais do que isso, Jenei gostava de ter o domínio da partida. Queria que seu time ditasse o ritmo de jogo, combinando toques curtos. Para tanto, teve um elenco cuidadosamente montado com a ajuda dos Ceausescu.

Ilie Barbulescu e Adrian Bumbescu terminavam de formar a base da defesa. Ainda assim, era do meio para frente que o time mais ganhava. László Bölöni era um meio-campista já rodado, o nome para dar experiência aos titulares. O maestro com boa chegada ao ataque e inteligência para ditar o ritmo. Victor Piturca serviria de referência no ataque, o artilheiro com bom porte físico e um faro de gols incrível. Mas o grande craque deste primeiro momento glorioso do Steaua era mesmo Marius Lacatus. O garoto chegou à capital ainda com 19 anos. Idade que não foi problema para estourar logo de cara. O segundo atacante da equipe era um fenômeno de explosão e dribles em velocidade. Rapidamente idolatrado, virou ‘A Fera’.

A reconquista da Romênia e o domínio da Europa

O jejum de seis anos chegou ao fim em 1984/85. Com o esquadrão formado e Jenei dando as ordens, o Steaua sobrou no Campeonato Romeno. Os Militarii fecharam a campanha dois pontos à frente do Dinamo Bucareste, seus grandes rivais, e ainda registraram o melhor ataque e a melhor defesa da competição. A equipe fisicamente muito bem preparada era praticamente intransponível, e tinha o jogo em mãos para que seus talentos resolvessem no ataque. Piturca foi o vice-artilheiro da competição, com apenas um gol a menos que o garoto Gheorghe Hagi, que despontava no Sportul Studenţesc Bucureşti.

O título valeu também a classificação para a Copa dos Campeões 1985/86. E, enquanto o Steaua ia nadando de braçada no Campeonato Romeno, pronto para o bicampeonato, se tornava a surpresa no torneio continental. Um título que, para Valentin Ceausescu, era uma certeza. “Tudo começou em um dia frio e chuvoso de 1985. Estávamos treinando quando ouvimos um grande ruído e vimos os funcionários ficarem nervosos. Chegava Valentin Ceausescu. Ficamos surpreendidos, mas o melhor estava por vir. Ele saudou o elenco um a um e se dirigiu a Jenei para lhe dizer: ‘Estou certo de que neste ano ganhamos a Copa da Europa’. Olhamos sem saber o que dizer. Nem sequer havíamos jogado a primeira partida!”, se recorda Bölöni, anos depois.

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É impossível afirmar que o Steaua teve seu caminho facilitado pela ditadura romena. O fato é que a equipe de Jenei jogou o fino, fazendo dos jogos em Bucareste sua força. Militares alinhados na beira do gramado criavam o clima hostil, enquanto alguns adversários diziam que o barulho da torcida era aumentado por ruídos que saiam de autofalantes. E também houve um pouco de sorte nos confrontos, sem nenhum grande favorito pela frente. Os romenos começaram superando o Vejle, campeão dinamarquês que contava com o veteraníssimo Allan Simonsen: 1 a 1 fora e 4 a 1 em casa. Logo depois, a vítima foi o Honvéd, que vivia seu renascimento. Estrelados por Lajos Détari, os húngaros venceram por 1 a 0 em Budapeste, mas perderam por 4 a 1 em Bucareste. Nas quartas, o surpreendente Kuusysi, da Finlândia. Os visitantes seguraram o 0 a 0 e, no fim do inverno em Helsinque, com o gramado judiado, Piturca anotou o tento salvador. Por fim, o rival nas semifinais foi o Anderlecht, base da seleção belga. Enzo Scifo garantiu o 1 a 0 em Bruxelas. Todavia, o Steaua mostrou o porquê de ter chegado até ali com um triunfo por 3 a 0, dois gols de Piturca e outro de Balint.

O adversário na decisão era o Barcelona de Terry Venables. Os blaugranas, que tinham deixado a favorita Juventus pelo caminho, eram orquestrados por Bernd Schuster, um craque de primeira linha. E ainda tinham o apoio maciço dos 75 mil presentes no Estádio Ramón Sanchez Pizjuán, em Sevilha. Diante das circunstâncias favoráveis aos catalães, Jenei preferiu ser mais cauteloso com o Steaua. Armou a equipe na defesa, dando pouquíssimas brechas ao Barça, que pressionava. Belodedici não desgrudava de Steve Archibald,referência no ataque adversário, enquanto os romenos se atiravam sobre todos os chutes. Fim do tempo normal, passa a prorrogação e nada de gols. O placar zerado leva a decisão aos pênaltis. E eis que surge uma nova lenda: Helmut Duckadam. Alexanko, Pedraza, Pichi Alonso e Marcos, todos pararam no goleiro. Bastou que Lacatus e Balint convertessem suas cobranças para que, com o surreal marcador em 2 a 0, o Steaua Bucareste se sagrasse campeão europeu.

“Meus olhos eram ofuscados pelos refletores. Marcos deixou o centro do campo. Eu não estava decidido o suficiente. Gostaria de estar na pele dele. Mas quem queria ser eu? Parecia demorar uma hora sua caminhada até a marca do pênalti. Onde ele vai bater? Tudo certo? Será igual aos três anteriores? Espere! Marcos se posicionou como quem vai mirar no meu lado esquerdo. É ali que eu acho que ele vai bater. Então senti. Ali que ele chutaria. Esperei o juiz. Olhei Marcos e fixei. Pulei para a esquerda. Sim! Peguei o pênalti! Ganhamos a Copa! O resto do time caiu sobre mim, o estádio urrou. Peguei todos, não entendia o que aconteceu. Eu acordei com a taça nos meus braços e a beijei. Você percebe o que vivi?”, narra Duckadam, sobre o maior épico de sua vida.

As sombras ofuscam o ouro em Bucareste

Cerca de 30 mil pessoas foram receber o Steaua no desembarque em Bucareste. Pela primeira vez a Copa dos Campeões era vencida por um clube do Leste Europeu, da Cortina de Ferro. Um feito maior do que qualquer outro que a própria seleção romena tinha atingido. Valentin Ceausescu estava satisfeito. Mas não com todos.

duckadam

O Herói de Sevilha deu adeus a sua carreira justamente em sua atuação mítica. Oitavo lugar na Bola de Ouro de 1986, empatado com Marco van Basten, Duckadam viu sua carreira repentinamente encerrada semanas depois da decisão. A história oficial diz que descobriu uma trombose irremediável em seu braço direito. Mas há também a lenda. Duckadam teria recebido uma Mercedes como prêmio de Ramón Mendoza, presidente do Real Madrid e empresário de fortes ligações comerciais com os países da Cortina de Ferro. O problema é que Valentin Ceausescu se sentia no direito de possuir o carro de luxo, mas teve o pedido recusado pelo goleiro. Então, o filho do ditador ordenou que a Securitatea, a truculenta polícia do regime, quebrasse os dedos da mão direita de Duckadam. A possível origem da trombose. O camisa 1 até tentou voltar a jogar em 1989, por um time da segunda divisão, sem sucesso. E, já aposentado, desmentiu as histórias, dizendo que o problema foi causado por um acidente doméstico – mas se contradizendo com diferentes versões para a mesma explicação.

Logo depois do título, Jenei deixou o comando do Steaua, para reproduzir a mesma equipe vencedora na seleção romena. O clube foi assumido por Anghel Iordănescu e manteve sua sequência gloriosa. Os Militarii não conseguiram o título do Mundial Interclubes, derrotados pelo River Plate por 1 a 0, e nem o bicampeonato na Copa dos Campeões, eliminados pelo Anderlecht nas oitavas de final. Entretanto, era soberano na Romênia. A equipe chegou ao pentacampeonato nacional, tricampeã invicta em 1986/87-1987/88-1988/89. Mais do que isso, acumulou 104 partidas de invencibilidade, de junho de 1986 a setembro de 1989 – um recorde nas ligas europeias. Graças também ao ambiente de medo. Há relatos de que os adversários passaram a ser constantemente ameaçados pela Securitatea.

Uma história se sobressai, relatada por Mircea Lucescu, então técnico do Dinamo Bucareste. Os dois rivais disputavam a final da Copa da Romênia de 1988. Aos 45 minutos do segundo tempo, Balint teve anulado um gol que desempataria a peleja. O Steaua se revoltou contra o assistente e Valentin Ceausescu ordenou que seu time saísse de campo. A vitória e o título dados ao Dinamo. Então, o filho do ditador ordenou que a Securitatea tirasse o troféu das mãos dos jogadores rivais e o deu aos seus atletas. Sem que a imprensa publicasse nada, a federação apareceu dois dias epois para ratificar o título dos Militarii com o placar de 2 a 1, validando o tento de Balint. Depois da queda dos Ceausescu, o Steaua ofereceu o troféu de volta ao Dinamo, que recusou. Atualmente, nenhum dos dois é clubes considerado campeão.

O grande craque, o último sucesso europeu e a derrocada

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Logicamente, não foi só com coerção que o Steaua Bucareste se manteve tão vitorioso no final da década de 1980. Havia muito talento em campo, potencializado a partir de 1987. Naquele ano, o maior jogador romeno da história passou a vestir a camisa do clube: Gheorghe Hagi. E, é claro, com uma polêmica envolvendo sua transferência. O meia de 22 anos era o craque do modesto Sportul Studentesc. Carregando o time nas costas rumo às primeiras colocações da liga, quase sempre aparecia entre os artilheiros. Era o reforço pretendido por Ceausescu para que o Steaua não perdesse a Supercopa da Europa. Afinal, não era só uma taça que estava em jogo. O adversário na era o Dynamo Kiev, campeão da Recopa. E, sobretudo, um clube da União Soviética, a qual o regime romeno insistia desafiar – em 1984, por exemplo, a Romênia foi o único país comunista a furar o boicote às Olimpíadas de Los Angeles. Vencer os soviéticos era uma questão de orgulho nacional para o ditador.

Hagi foi contratado apenas por dez dias. Disputaria apenas a Supercopa pelo Steaua e depois voltaria ao Sportul. Só que o ‘Maradona dos Cárpatos’ correspondeu bem mais do que o esperado. Cobrou a falta que garantiu a vitória dos romenos por 1 a 0. E nunca mais voltou ao antigo clube. O Sportul queria contar novamente com seu craque, mas a pressão dos homens de Ceausescu fez com que seus dirigentes mudassem de ideia. Ao lado de Hagi, outros bons jogadores reforçariam o elenco nos anos seguintes, como o goleiro Silviu Lung e o meio-campista Iosif Rotariu. Dan Petrescu, lateral que marcou época no país, ascendeu das categorias de base. E o Steaua ainda tentou forçar a vinda de Gheorghe Popescu, que só ficou no time por seis meses.

Estrelado por Hagi, o Steaua fez mais duas boas campanhas na Copa dos Campeões, mas sem o mesmo sucesso de 1986. Os romenos caíram nas semifinais em 1987/88. Depois de eliminarem o Rangers, não suportaram o Benfica no Estádio da Luz. Já em 1988/89, voltaram à decisão, em uma trajetória até mais emblemática do que a do título. Derrubaram Sparta Praga, Spartak Moscou, Göteborg e Galatasaray. No entanto, não houve arma dos Ceausescu que valesse na decisão contra o Milan, no Camp Nou. Goleada por 4 a 0 dos rossoneri, com dois gols de Ruud Gullit e outros dois de Marco van Basten. A primeira coroação continental do time de Arrigo Sacchi, que levaria o bicampeonato em 1989/90 e se eternizaria como um dos melhores esquadrões de todos os tempos.

A existência do timaço do Steaua Bucareste duraria apenas mais alguns meses. Em dezembro de 1989, a revolução estourou na Romênia, derrubando o comunismo e tirando o poder das mãos dos Ceausescu – Nicolae foi executado, enquanto Valentin ficou preso. Sem que o ditador forçasse mais os jogadores a permanecerem no clube, a maioria deles se transferiu ao exterior logo após a Copa de 1990, a primeira que a Romênia disputou em 20 anos. Seis dos sete convocados ao Mundial da Itália deixaram de Bucareste dentro de um ano, incluindo Hagi (Real Madrid) e Lacatus (Fiorentina). Desmanchados, os Militarii continuaram como o apoio do exército mesmo com o fim do regime. As grandes campanhas europeias, porém, já eram parte do passado.

O que aconteceu depois?

Após a queda do regime, o Steaua foi três vezes vice-campeão romeno, antes de emendar um hexacampeonato. O clube deixou de ser controlado pelas Forças Armadas em 1998, quando foi comprado por Gigi Becali, empresário e político com vasto currículo criminoso. A partir de então, foram mais quatro títulos nacionais. A seca entre a conquista de 2005/06 e a de 2012/13, inclusive, é a maior da história, mas os Ros-Albastrii se encaminham para o segundo título consecutivo nesta temporada. E, mesmo sem os talentos da década de 1980, o Steaua continuou relevando bons jogadores, a exemplo de Adrian Ilie, Daniel Prodan e Vlad Chiriches.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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