Leste Europeu

Os 75 anos do ‘Jogo da Morte’, uma das histórias mais míticas e mais mitificadas do futebol

O estado decrépito do Estádio Zenit, em Kiev, contrasta com a sua importância ao imaginário do esporte na Ucrânia – ou, antes disso, também na União Soviética. Durante os últimos anos, o antigo palco do futebol na cidade passou a ser utilizado pela população para a prática de atividades físicas. O que não significa, nem de longe, uma boa conservação. Em 2012, a praça esportiva só ganhou melhorias graças à iniciativa de Vitali Klitschko, ex-campeão mundial no boxe, então candidato à prefeitura da capital. Às vésperas da realização da Eurocopa no país, a lenda vivida naquele gramado voltava à tona. Havia certo clamor popular para preservar o local, tão significativo na visão de alguns.

Setenta anos antes, o Estádio Zenit abrigou aquele que ficou eternizado como o ‘Jogo da Morte’. Durante a invasão da União Soviética pelos nazistas, em plena Segunda Guerra Mundial, o futebol teria sido um dos refúgios da população de Kiev. Antigos jogadores do Dynamo e mais alguns do Lokomotiv Kiev, que passaram a trabalhar em uma fábrica de pães, formaram o FC Start. E o time se transformaria em um símbolo, ao enfrentar dentro de campo os militares estrangeiros e representações colaboracionistas ucranianas.

O FC Start venceu todos os dez jogos que disputou, quase sempre por goleada. No mais famoso deles, em 9 de agosto de 1942, aceitou a revanche do Flakelf – composto por membros da brigada antiaérea da Luftwaffe, a força aérea germânica – após o triunfo por 5 a 1 no primeiro confronto. Mesmo sob supostas ameaças, a equipe ucraniana derrotou os oponentes por 5 a 3 no reencontro. Sinal maior da humilhação, quando poderia ter feito o sexto gol, com a meta adversária aberta, um dos jogadores locais teria afastado a bola para o meio de campo. A deixa para que o árbitro apitasse o final antes dos 90 minutos.

A partir de então, o FC Start transformou-se em um mito poderoso. O próprio Estádio Zenit oferece uma pista sobre essa aura, em uma coluna localizada nos arredores do gramado. No alto do totem, há a estátua de um homem musculoso, nu. O herói que chuta uma bola ao mesmo tempo em que pisa em uma águia, símbolo dos nazistas. A escultura serve de monumento ao nacionalismo ucraniano ou à resistência soviética – a depender do ponto de vista de quem quiser contar o seu lado da história.

monumento

Não à toa, como outros tantos episódios da Segunda Guerra Mundial, o ‘Jogo da Morte’ provoca grande interesse no público em geral e virou tema de estudo para historiadores. Sua denominação, aliás, faz referência direta a uma versão que os especialistas já descartaram, por mais que tenha sido propagandeada ao longo de décadas: a de que, horas depois da vitória por 5 a 3, todos os jogadores do FC Start teriam sido assassinados pelos nazistas – não só em represália por desacatarem suas ordens, mas também por suscitarem a ideia de um levante ao resto da população ucraniana através do futebol.

Pesquisas posteriores concordam que, embora oito jogadores tenham sido detidos pelos nazistas, apenas cinco realmente morreram durante a Segunda Guerra Mundial, sendo quatro ligados ao Dynamo. Um deles foi assassinado após interrogatório dos invasores. Já os outros três, executados em um campo de concentração, onde os demais eram prisioneiros. Não à toa, os quatro são representados em outro monumento épico, gravados em pedra no Estádio Valeriy Lobanovskyi, casa do Dynamo. No entanto, os demais sobreviveram. E poderiam relembrar o passado quando vivos, não fossem vários entraves comuns à historiografia, que transbordam ao redor deste episódio específico.

A quantidade de elementos no ‘Jogo da Morte’ é influenciada diretamente por interesses políticos, que podem parecer mais claros em uma revisão do passado, mas se misturam bastante à época. O nacionalismo ucraniano, por exemplo, tão presente na compreensão sobre as vitórias do FC Start. Dependendo do contexto, ele poderia apontar a uma propensão ao colaboracionismo com os nazistas, em contraposição ao domínio soviético e aos anseios independentistas de uma porção do país. Mas, em outra leitura dos fatos, também sinaliza a luta contra os invasores e o apoio à Grande Guerra Patriótica empreendida pela União Soviética para se manter como uma grande nação.

Da mesma maneira, alguns historiadores e entusiastas do caso tentam ser assertivos sobre a explicação da morte dos jogadores. Algumas interpretações contemplam a noção de que o jogo, realmente, teria motivado os assassinatos – especialmente por se tratarem de alguns dos mais proeminentes atletas do Dynamo. Por outro lado, há também quem entenda que tudo não passou de um enorme acaso.

Fato é que, independentemente do partido tomado, o ‘Jogo da Morte’ ganhou diversas versões. Dentro do regime soviético, a perspectiva patriótica ganhou as páginas de jornais, antes de ser transformada em livro, em duas publicações romantizadas e com traços ficcionais surgidas no final dos anos 1950. Além disso, também foi produzido um filme, visto nos cinemas por mais de 32 milhões de pessoas. Já na década de 1960 é que o real número de mortos começou a vir à tona, dentro de um plano de propaganda estatal de glorificação a seus heróis, com os sobreviventes ratificando a versão oficial do Kremlin.

Somente com o desmoronamento gradual da Cortina de Ferro, em meados dos anos 1980, é que os sobreviventes realmente ganharam voz. Ainda assim, muitos se recusavam a falar e os depoimentos não eram uniformes – possivelmente temerosos de represálias vindas de diferentes partes, além de se combinarem em um contexto de eclosão do nacionalismo ucraniano a partir da independência. Ao menos, as declarações começavam a romper algumas das bases do mito erigido nas décadas anteriores e colocar os detalhes à luz da interrogação. O ‘Jogo da Morte’, afinal, foi mais um dos 150 duelos entre soviéticos e soldados do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial – embora nenhum outro combinasse tantos elementos que permitissem tal enredo lendário. O deslumbramento, apesar de tudo, é um tanto quanto inerente.

Qual a verdadeira história do Jogo da Morte, então? Eis uma pergunta que nunca terá resposta – como tantas outras, mas desta vez de uma maneira especialmente intrincada. Entre os riscos da memória vacilante ou dos arquivos escassos, o mais próximo que podemos chegar da realidade é aproveitando o material de quem realmente se debruçou sobre o “mito” – sobretudo, historiadores e jornalistas.

Há um bom número de artigos produzidos, após longos estudos e comparação dos fatos. Por mais que eles tentem se distanciar na análise, por vezes acabam atendendo um viés ideológico. Por isso mesmo, cabe a leitura questionando o que pode ter levado o autor a chegar àquela conclusão ou mesmo a contestar o colocado anteriormente. Se a União Soviética e o Nazismo, hoje, são páginas (teoricamente) viradas, o resgate da lenda continua atendendo outros interesses, especialmente no conturbado cenário político ucraniano. E o senso crítico é o que permite apreciar aquela que, de fato, foi uma grande história sobre futebol, por mais que seja “adaptada” tantas vezes.

Abaixo, ao invés de tentarmos recontar o episódio, separamos algumas das principais fontes sobre o ‘Jogo da Morte’. Para mergulhar também na história, inegavelmente fascinante, e fazer as próprias reflexões.

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Andy Dougan – “Futebol & Guerra: Resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos nazistas”: livro escrito pelo acadêmico escocês, geralmente tratado como a principal referência sobre o ‘Jogo da Morte’. Disponível parcialmente em português:

Piotr Severov e Naum Khalemsky – “O último duelo”: livro publicado na União Soviética em 1959, baseado na partida lendária, mas romantizando os fatos. Disponível em russo, traduzível para outras línguas. Através deste link.

Heorhii Kuzmin – “O quente verão de 1942”: artigo publicado pelo jornalista ucraniano, considerado um dos maiores especialistas sobre o ‘Jogo da Morte’ e responsável por entrevistar alguns dos jogadores presentes. Disponível em russo, traduzível para outras línguas. Através deste link.

Vale conferir também a entrevista concedida por Kuzmin à imprensa ucraniana em 2012, após lançar um livro sobre o assunto. Disponível em inglês, traduzível para outras línguas. Através deste link.

James Riordan – “Jogo da Morte”: livro escrito pelo ensaísta inglês, um dos principais estudiosos da cultura soviética e que possui outras publicações voltadas ao esporte no antigo país. Disponível parcialmente em inglês:

Bônus

Estrelado por Sylvester Stallone, Michael Caine e Pelé, além de outros grandes jogadores, o filme ‘Fuga para a Vitória’ é a obra de ficção mais conhecida baseada no ‘Jogo da Morte’. Abaixo, o trailer:

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