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Os 30 anos da glória do Steaua, a primeira vez que a Champions atravessou a Cortina de Ferro

Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Há 30 anos, a Copa dos Campeões superava uma barreira histórica. Pela primeira vez, a taça atravessava a Cortina de Ferro e terminava nas mãos de um clube da Europa Ocidental. Honraria que coube ao Steaua Bucareste, a grande força do futebol romeno – e muito por conta dos privilégios que a equipe tinha nos bastidores, graças à ditadura comandada por Nicolae Ceaucescu. Dentro de campo, de qualquer forma, não dava para menosprezar o talento. Em 7 de maio de 1986, os azarões surpreenderam o Barcelona em Sevilla e ergueram a taça, em noite impecável do goleiro Duckadam, que defendeu quatro pênaltis. Glória incontestável, e que atualmente parece impossível de se repetr na Romênia.

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Por volta de 1983, o futebol romeno ensaiava um renascimento dentro do contexto europeu, depois de mais de uma década de ostracismo. A seleção nacional conseguira a vaga na Eurocopa do ano seguinte, a ser disputada na França, vencendo um grupo duríssimo, à frente da campeã do mundo Itália, da Suécia e da Tchecoslováquia. Mas, num primeiro momento, este renascimento pouco ou nada teve a ver com o Steaua. O clube do exército havia conquistado seu último título da liga em 1978 e desde então amargara campanhas fracas, como o sexto lugar em 1982 e o  quinto no ano posterior. Naquele começo dos anos 80, quem dava as cartas eram a Universitatea Craiova (bicampeã em 1980 e 1981) e o arquirrival dos Militarii, o Dinamo Bucareste (tricampeão em 1982, 1983 e 1984). Os dois cederam nada menos que 12 dos 20 convocados pela Romênia para a Eurocopa, enquanto o Steaua seria representado apenas pelo goleiro reserva Vasile Iordache.

Mesmo no âmbito continental, eram Universitatea e Dinamo os que sobressaíam: a equipe de Craiova havia chegado às semifinais da Copa da Uefa em 1983, deixando pelo caminho equipes tradicionais como Fiorentina, Bordeaux e Kaiserslautern, caindo diante do Benfica após dois empates. Já o time da capital também havia alcançado as semifinais, mas da Liga dos Campeões em 1984, eliminando o atual campeão Hamburgo e o Dinamo Minsk antes de parar no Liverpool de Dalglish e Souness.

Neste mesmo ano de 1984, após perder o título nas rodadas finais para o Dínamo, o Steaua iniciaria sua reação. Repatriou seu ídolo veterano Anghel Iordanescu, vindo de duas temporadas no OFI Creta grego, para fazer parte do elenco e também da comissão técnica, como auxiliar de outro nome simbólico do clube, o ex-jogador e agora treinador Emerich Jenei. E fez mais: do FC Olt – outro clube de forte vínculo com Nicolae Ceaucescu (tinha sede em Scornicesti, cidade-natal do presidente do país) – vieram o experiente atacante Marin Radu e o zagueiro Adrian Bumbescu, este com passagem pelo Dínamo. Do Petrolul, de Ploiesti, veio o lateral-esquerdo Ilie Barbulescu. E do ASA Targu Mures, veio o principal e mais decisivo reforço: o meia László Bölöni, já com 31 anos e que havia se destacado na Eurocopa. Com essas aquisições, mais a base já existente, liderada pelo meia e capitão Tudorel Stoica (desde 1975 no clube), o Steaua enfim saiu da fila, conquistando a liga já na temporada 1984/85 e credenciando-se a disputar pela sétima vez a Liga dos Campeões, competição na qual nunca havia superado em campo uma fase eliminatória.

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Primeira edição sem os clubes ingleses, banidos após a tragédia de Heysel, a Liga dos Campeões da temporada 1985/86 tinha três favoritos destacados: a atual campeã Juventus de Michel Platini e Michael Laudrup; o Bayern de Munique de Lothar Matthäus e Jean-Marie Pfaff; e o Barcelona, que tinha no meia Bernd Schuster e no técnico inglês Terry Venables seus principais trunfos na busca pelo título inédito. Correndo por fora, vinham o forte time do Anderlecht de Enzo Scifo e Morten Olsen, vindo de seguidas boas campanhas europeias, e o também respeitável Bordeaux de Jean Tigana e Alain Giresse. Outras apostas para chegar longe (se a tabela ajudasse) eram o Porto de Paulo Futre e Rabah Madjer; o promissor Ajax de Marco Van Basten e Frank Rijkaard; e o Verona campeão italiano de Preben Elkjaer e Hans-Peter Briegel. Além de dois clubes que tinham a experiência de títulos europeus recentes conquistados de maneira surpreendente: o IFK Gotemburgo, campeão da Copa da Uefa em 1982, e o Aberdeen dirigido por Alex Ferguson, campeão da Recopa em 1983. E então havia o Steaua, com expectativas menores.

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O sorteio da primeira fase colocou o Steaua diante dos dinamarqueses do Vejle, que contavam com o veterano meia Allan Simonssen (ex-Borussia Mönchengladbach e Barcelona, e eleito Bola de Ouro em 1977) e o lateral John Sivebaek, que logo se transferiria para o Manchester United. A classificação, no entanto, aconteceu sem maiores problemas com um empate em 1 a 1 na Dinamarca e uma goleada por 4 a 1 em Bucareste. Nas oitavas de final foi a vez de enfrentar o Honvéd, campeão húngaro e base da seleção magiar que vinha em alta na Europa naquele momento. Na partida de ida, em Budapeste, o time da casa venceu por 1 a 0, gol do meia Lajos Détári, uma das maiores promessas do futebol do continente na época. Na volta, no estádio Ghencea, entretanto, todo o cartaz do adversário foi por água abaixo com uma goleada de 4 a 1 para o Steaua. Piturca abriu o placar logo no primeiro minuto aproveitando rebote do goleiro, Lacatus escorou cruzamento e ampliou ainda no primeiro tempo, e na etapa final, antes dos 15 minutos, os romenos já haviam marcado novamente com Barbulescu (numa especialidade do lateral canhoto, os chutes venenosos de longa distância, com a perna direita) e Majearu, cobrando pênalti. Aos 19, saiu o gol de honra dos húngaros, novamente através de Détári.

O adversário das quartas de final era a grande zebra da competição até ali. O finlandês Kuusysi Lahti, equipe que passara a dominar o futebol de seu país naquele período (cinco títulos e quatro vice-campeonatos da liga local entre 1982 e 1992), graças do aporte financeiro fornecido pelo empresário Martti Rinta, e que naquela Copa dos Campeões já havia eliminado o FK Sarajevo, campeão iugoslavo (vencendo ambas as partidas por 2 a 1), e o Zenit Leningrado, campeão soviético. No primeiro jogo, em Bucareste, o Steaua parou na retranca finlandesa, não saiu do 0 a 0, e parecia que o Kuusysi encaminhava mais uma classificação surpreendente, rumo às semifinais. Na partida de volta, no entanto, mesmo com os termômetros registrando uma temperatura de dois graus abaixo de zero e os 32 mil torcedores que lotaram o Estádio Olímpico de Helsinki para apoiar o time do país, o Steaua teve sempre o controle do jogo. Falhava, porém, sucessivamente nas finalizações. Quando a prorrogação já era dada como inevitável, entretanto, Piturca aproveitou uma jogada confusa na área finlandesa para marcar o único gol do jogo aos 41 minutos da etapa final e sacramentar a classificação.

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Definidos então os semifinalistas, um dado logo chamou a atenção: depois da eliminação do Ajax ainda na primeira fase (diante do Porto) e de Juventus (pelo Barcelona) e Bayern de Munique (pelo Anderlecht) nas quartas de final, teríamos agora um campeão inédito. Dos quatro classificados, somente o Barça havia chegado à decisão do torneio e apenas uma vez, num já longínquo 1961, derrotado pelo Benfica. O sorteio pareou o Steaua junto ao Anderlecht, enquanto na outra chave os catalães mediam forças com os suecos do IFK Gotemburgo.

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Na partida de ida, em Bruxelas, o bloqueio romeno deteve quase todas as investidas do ataque belga, exceto o gol de Enzo Scifo aos 32 minutos da etapa final. Pelo domínio do adversário, ficou até barato. Mas na volta, o Steaua voltou a ser o mandante temível que arrasara Vejle e Honvéd nas duas primeiras fases. Logo aos quatro minutos, Piturca recebeu na entrada da área e bateu cruzado para abrir o placar. Aos 22, após cobrança de escanteio, o mesmo Piturca aparou de cabeça para Balint desferir um chute violento da marca do pênalti e ampliar. E na segunda etapa, aos 26 minutos, a zaga belga não conseguiu cortar o cruzamento vindo da direita e Piturca, novamente, apareceu para cabecear o terceiro gol. Na comemoração, o centroavante foi às redes e recebeu o abraço de um garotinho torcedor, numa das imagens mais marcantes daquela campanha. Os Militarii chegavam à final da Copa dos Campeões contra o poderoso Barcelona, na qual teriam que enfrentar não só a torcida adversária, que viajaria em massa para Sevilha, local “neutro” da partida, como também a ausência de seu meia e capitão Tudorel Stoica, suspenso por cartões amarelos.

O time da decisão começava com o gigante Duckadam (1,92m) no gol. Na linha de quatro defensores, Iovan (capitão na ausência de Stoica) pela direita e Barbulescu pela esquerda eram os laterais. Na dupla de zaga, Belodedici atuava pelo lado direito e Bumbescu pelo esquerdo. Os centrais jogavam bem fixos e os laterais apoiavam com alguma regularidade, apesar de não se projetarem tanto ao ataque como alas. A configuração do meio-campo era semelhante a um losango: Bölöni jogava quase como um centromédio clássico dos anos 50, à frente da defesa, distribuindo o jogo, mas às vezes avançava para arriscar chutes de longa distância. Mais adiante, Balan era o meia central jogando mais pelo lado direito e Majearu fazia o mesmo mais pelo lado esquerdo. Balint era o homem mais avançado do setor, atuando como um ponta-de-lança, puxando contra-ataques em velocidade pelo meio ou abrindo o jogo pela direita com Lacatus. Este, por sua vez, jogava bem aberto pelo flanco direito, quase como um ala, vindo desde o campo defensivo (onde auxiliava Iovan na marcação) até a linha de fundo, ou então cortando para o meio ao se aproximar da área azulgrana. Piturca, por sua vez, era o 9 clássico, a referência na área.

A partida foi muito truncada, com faltas duras de ambas as partes. Não faltaram rabos-de-arraia, totozinhos no goleiro, encontrões, entre outros lances pesados. Com pouco mais de meia hora de jogo, já haviam sido mostrados cinco cartões amarelos (três para o Steaua e dois para o Barcelona). Ainda assim, vários lances passaram apenas com uma advertência pelo tranquilo árbitro francês Michel Vautrot. No primeiro tempo, o Steaua fechou bem as imediações da área, explorou a ansiedade do Barcelona e não permitiu que os catalães criassem muitas chances, mesmo apertando a marcação já na saída de bola do adversário. Os romenos, no entanto, também não aproveitavam muito as chances de contragolpe que apareciam porque erravam muito o último passe (ou às vezes até o domínio). Já na etapa final, os papéis se inverteram nos primeiros 15 minutos, com os romenos ocupando a intermediária azulgrana, embora sem conseguir finalizar tanto – foi um jogo de poucos chutes ao gol, de um modo geral. Aos 28 minutos, Iordanescu entrou no lugar de Balan para, com toda a experiência de seus 36 anos, ajudar a esfriar o jogo e melhorar o controle de bola e a troca de passes. Do lado azulgrana, a cinco minutos do fim do tempo normal, Terry Venables surpreendeu ao sacar o meia Schuster para a entrada de Moratalla. Os catalães ensaiaram pressão para tentar evitar a cansativa e enervante prorrogação, mas não tiveram muito sucesso.

Depois de mais meia hora sem gols no tempo extra (o Barça até balançou as redes perto do fim da prorrogação, mas o gol foi anulado por toque de mão), vieram os pênaltis. E aí surgiu o nome do jogo. O Steaua começou mal, com Majearu e Bölöni parando em Urruti. Mas Duckadam compensou defendendo as cobranças de Alesanco e Pedraza. Até que uma bomba de Lacatus, que bateu no travessão antes de quicar dentro do gol, começou a desenhar a vitória dos romenos. E Duckadam voltou a brilhar defendendo o chute fraco e rasteiro de Pichi Alonso. Balint deslocou Urruti e ampliou a vantagem dos Militarii. E Marcos, na quarta cobrança azulgrana, talvez intimidado pelo gigante arqueiro adversário, também bateu rasteiro e sem tanta força, para a quarta defesa de Duckadam. E os jogadores do Steaua correram para abraçar o grande responsável pela conquista – tão improvável quanto seu herói.

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Helmuth Duckadam, nascido na cidade de Semlac, região de Arad, começou sua carreira defendendo times amadores locais até se profissionalizar em 1978 na UTA Arad, com a qual subiu para a elite romena. Em 1982, chegou ao Steaua, ficando na reserva por várias temporadas, até ganhar a posição na campanha do título nacional em 1985. Tão surpreendente quanto sua atuação na decisão europeia em Sevilha foi o que viveu nos meses seguintes. Às vésperas do início da nova temporada, sua carreira foi interrompida abruptamente aos 27 anos. Na época, o que se afirmou oficialmente era que o jogador havia sofrido um grave problema circulatório (alguns falam em trombose, outros em aneurisma), que paralisou temporariamente o lado direito de seu corpo. Esta é a versão que o próprio Duckadam sustenta até hoje.

No entanto, circulam comentários de que o motivo da aposentadoria teria sido bem diferente: o Real Madrid teria presenteado o goleiro com um automóvel Mercedes-Benz por ter impedido o título do Barcelona mas, ao retornar à Romênia, Duckadam teria sido intimado por Nicu Ceaucescu, filho do ditador Nicolae, a entregar-lhe o carro. O arqueiro teria se recusado e, pela negativa, teria sido baleado no braço. Somente alguns anos depois, o camisa 1 tentou retomar brevemente a carreira atuando em algumas partidas pelo modesto Vagonul Arad, da segunda divisão, antes de pendurar de vez as luvas. Um desfecho nebuloso para a história de um cometa do futebol.

O Steaua ainda conquistaria a Supercopa Europeia naquele ano batendo o forte Dinamo Kiev em partida única em Mônaco, já com o meia Gheorghe Hagi no elenco. Ainda se manteria como adversário difícil de ser batido nos torneios continentais por algum tempo, chegando novamente à decisão da Copa dos Campeões em 1989, caindo diante do Milan de Arrigo Sacchi por 4 a 0, ironicamente no Camp Nou, estádio do Barcelona, adversário derrotado três anos antes. No fim daquele ano, o regime de Ceaucescu também cairia, iniciando uma evasão maciça de jogadores do futebol romeno para a Europa Ocidental – antes disso, o zagueiro Belodedici fugiria do país para a Iugoslávia, onde participaria também de outro título histórico da competição, com o Estrela Vermelha em 1991. Mas o Steaua jamais chegaria perto de repetir aquele feito de 30 anos atrás.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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