Leste Europeu

O sonho de independência da seleção de Kosovo

Pela primeira vez, Croácia e Sérvia se enfrentarão em um campo de futebol. Os dois países vão para o jogo desta sexta-feira com um discurso de paz, esperando que o futebol cicatrize definitivamente as feridas abertas durante a Guerra da Iugoslávia. Enquanto isso, outra chaga causada pelos conflitos nos Bálcãs continua longe de ser solucionada. E nem o futebol parece capaz de garantir um meio de rebelião.

Em 2008, Kosovo declarou sua independência de maneira unilateral, sem o aval dos sérvios. A república foi reconhecida por 97 estados membros da ONU (incluindo EUA, Alemanha, França, Reino Unido e Itália) e se tornou membro do FMI. Um dos próximos passos na afirmação de sua soberania seria a federação kosovar se afiliar à Uefa e à Fifa. No entanto, o jogo de forças políticas na Europa continua travando a aceitação.

Fifa se abre, mas volta atrás

Fundada em 1946 e mantendo uma liga nacional desde então, a Federação de Futebol de Kosovo (FFK)  não esperou a declaração de independência para formar uma seleção. O primeiro amistoso aconteceu em 2002, três anos depois do fim da Guerra do Kosovo, contra a Albânia, país que apoiou os kosovares durante o conflito com os sérvios. A falta de reconhecimento da Fifa, contudo, impediu uma frequência maior de partidas – a última delas aconteceu em 2010, contra o Neuchâtel Xamax, da Suíça.

Um sinal de abertura foi dado em maio, quando Joseph Blatter permitiu que a seleção kosovar realizasse amistosos oficiais – como acontece com a Catalunha e o País Basco, comunidades autônomas da Espanha que podem fazer uma exibição por ano.  Porém, pressionado, o dirigente voltou atrás de sua decisão três dias e levantou algumas condições para que os jogos fossem permitidos. Entre elas, a bênção da Sérvia.

Tanto a federação quanto o governo de Kosovo permanecem irredutíveis quanto à proposta da Fifa. Presidente FFK e único jogador kosovar a defender a antiga seleção iugoslava, Fadil Vokrri enviou carta à afirmando sua total rejeição à ideia: “É um insulto que um país independente precise requisitar uma autorização prévia de uma entidade externa [o governo sérvio] para disputar uma partida”.

A Uefa, por sua vez, se mostra bem mais intransigente sobre a questão. Michel Platini afirma que somente os estados que forem membros da ONU podem ser confederados. Além disso, somente a entrada na entidade continental abriria o caminho para que Kosovo também faça parte da Fifa oficialmente.

Por trás de todos os entraves, aparece a Rússia. O país-sede da Copa do Mundo de 2018 é aliado político de Michel Platini. Há também um alinhamento histórico com os sérvios. E, principalmente, existe o temor de que regiões separatistas russas sigam o exemplo de Kosovo, buscando a independência. Não por menos, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia lidera o movimento para que os kosovares não sejam admitidos na organização.

Os caminhos para o diálogo e os novos entraves
Shaqiri, do Bayern, comemora os cinco anos de independência kosovar
Shaqiri, do Bayern Munique, comemora os cinco anos de independência kosovar

Uma possibilidade de conciliação viria por interesses cruzados dos sérvios. A aceitação de Kosovo poderia facilitar a entrada do país na União Europeia – 25 de seus 27 membros reconhecem a independência. Há um ano, a organização admitiu a Sérvia como candidata a membro e prevê o início das negociações para a adesão durante os próximos meses.

Por isso mesmo, alguns progressos aconteceram recentemente, como a identificação linguística dos kosovares referendada pelos sérvios. A partir das negociações com a Sérvia, o alinhamento da Rússia seria o próximo passo. E, a partir de então, a filiação junto à ONU, à Uefa e à Fifa seria consequência natural.

Ainda assim, alguns outros entraves sobre a seleção de Kosovo continuariam existindo. Em setembro, dez jogadores nascidos em Kosovo e refugiados durante a guerra assinaram carta à Fifa se posicionando como exilados em outras equipes nacionais. Dias depois, nove deles entraram em campo na partida entre Suíça e Albânia, pelas eliminatórias da Copa – entre eles, Xherdan Shaqiri, Granit Xhaka, Valon Behrami, Lorik Cana e Samir Ujkani. Se o reconhecimento da seleção existir, a Fifa terá que se posicionar sobre um possível remanejamento de jogadores que queiram defender seu país de origem.

Mas essa questão, no momento, é puro exercício de imaginação. A realidade atual é bem mais severa aos kosovares, limitados a esperar a boa vontade da Fifa ou a abertura dos sérvios. Enquanto permanecessem limitados à própria voz, a partida entre Croácia e Sérvia surge como um marco na história do futebol dos Bálcãs. Um evento que, se seguir os planos de diálogo pregados até aqui, poderá se tornar um ponto de virada também para Kosovo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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