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O adeus de um ícone dos anos 90, um reencontro com as lembranças: faleceu Trifon Ivanov

Era uma simples figurinha do álbum da Copa. A importância daquele pedacinho de papel, no entanto, representa um latifúndio na memória de muitos que viveram a década de 1990. Bastava abrir o pacotinho e se deparar com o rosto de Trifon Ivanov, ou vê-lo colado em um álbum qualquer, para não esquecê-lo jamais. O búlgaro de traços marcantes nunca passava despercebido: olhos grandes, barba rente ao rosto fundo, mullets desgrenhados. O zagueiro de futebol limitado, mas muito aguerrido, se tornou ícone cult – também por ser fundamental em uma seleção surpreendente, na Copa da vida de tanta gente.  Acabou guardado na lembrança. E dá aquele vazio quando a gente descobre que, a partir de agora, ela será mesmo só lembrança, com o falecimento do veterano aos 50 anos de idade.

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Trifon Ivanov não chegou ao topo em sua carreira, mas marcou. Deu os primeiros passos na região em que nasceu, vestindo a camisa do Etar Veliko Tarnovo, antes de passar pelo CSKA Sofia. Acabou fisgado pelo Betis, onde viveu os anos mais memoráveis por um clube. Depois, ainda rodou por uma série de equipes da Europa Central, como Neuchâtel Xamax, Rapid Viena e Austria Viena. O “Lobo Búlgaro” se aposentou em 2001, aos 36 anos, já escondido no modesto Floridsdorfer, nas divisões inferiores da Áustria.

Os grandes momentos do defensor, porém, vieram mesmo com a camisa de seu país. Em uma seleção cheia de qualidade técnica, como a da Bulgária em 1994, Trifon servia de “limpa trilhos”. Era o zagueiro que não economizava nos chutões e nas entradas duras para garantir o trabalho de seus companheiros mais à frente. Sob o brilho de Stoichkov, Balakov, Lechkov e Kostadinov, os búlgaros chegaram até uma histórica semifinal de Copa do Mundo. Mas também sob o suor de Ivanov. Depois, com a queda do nível de seus companheiros, o camisa 3 simbolizou a raça de uma equipe limitada. Não passou da primeira fase na Euro 1996 ou na Copa de 1998. Ainda assim, acabou eleito o melhor jogador do país no ano do torneio europeu e recebeu a simbólica braçadeira de Borislav Mihaylov no Mundial da França.

trifon

Mas, para tantos fanáticos pelo futebol, Trifon Ivanov representou além de sua carreira. O esforço incondicional dentro de campo, para consagrar a sua seleção aonde jamais chegara, já serviria de motivo de admiração. E ainda havia aquela figurinha. Símbolo de um álbum, e de uma Copa, e de uma lembrança, e de outros tempos do futebol, e de outros tempos da vida, e de uma juventude. De um tempo que não volta mais, mas acaba guardado com carinho no âmago de muitas pessoas. Gente que ainda relembra Trifon em tantos sites sobre o futebol. Que até criou um campeonato em sua homenagem.

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Após a aposentadoria, o Lobo Búlgaro fez questão de sumir do mapa. Já não era dos que mais se importavam com regras em seus tempos de jogador – a ponto de ser visto bebendo e fumando antes da decisão do terceiro lugar na Copa de 94, assim como de ter declarado ao seu treinador no Neuchâtel Xamax que “não tinha nem ideia de futebol”. Optou por se refugiar na cidade natal de Veliko Tarnovo, com sua família e seus hobbies, evitando a imprensa. Mas também enfrentando os fantasmas pessoais – a depressão, o alcoolismo e a obesidade. Em agosto do ano passado, já havia sido internado por problemas no coração. Neste sábado, não resistiu a uma parada cardíaca. Faleceu aos 50 anos.

A despedida de Trifon, no fim das contas, acaba indo ao encontro de todos que vivemos intensamente o futebol na década de 1990. O ícone se vai, voltam as memórias, e não apenas sobre o ex-jogador. Sobre tudo aquilo que se relacionava com aquela figurinha. Sim, estamos envelhecendo.  E o Lobo Búlgaro, em partes, acaba também sendo símbolo de uma passagem do tempo – da vida. Daquilo que ficou para trás, mas resiste pelo carinho das lembranças. Que, desta maneira, fica para sempre vivo enquanto ainda houver alguém que se recorde. E que preservará a trajetória de Trifon Ivanov por muito tempo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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