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Os 30 anos da Champions conquistada pelo Estrela Vermelha, a última glória de um país esfacelado

Numa das campanhas mais simbólicas da história da Champions, o Estrela Vermelha levou a taça para a Iugoslávia às portas da guerra

Texto publicado originalmente em 21 de fevereiro de 2014 – atualizado e ampliado

As fronteiras que dividiram a Iugoslávia foram demarcadas com sangue. As estimativas são de 130 mil mortes nas guerras de independência que se desenrolaram durante toda a década de 1990. Milhares de vidas interrompidas e multidões que se refugiaram em outros países. Diante de tamanha tragédia, o futebol é uma questão menor. Mas talvez sérvios, croatas, bósnios, eslovenos, montenegrinos, macedônios, kosovares e quaisquer outras etnias que faziam parte do caldeirão iugoslavo tenham perdido um orgulho em comum naqueles anos. A geração que se forjava nos Bálcãs era capaz de dar forma a uma das seleções mais talentosas da história. Uma qualidade que nunca saberemos a real dimensão.

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A maior prova concreta daquele talento foi dada em 29 de maio de 1991, dia em que o Estrela Vermelha conquistou a Copa dos Campeões. Um clube que sustenta o nacionalismo sérvio desde as suas origens, mas que chegou ao topo da Europa reunindo craques de quatro nacionalidades. E que muito provavelmente também não teve todo o seu potencial aproveitado. A ascensão dos alvirrubros coincidiu com o aumento dos anseios separatistas. E o auge foi curtíssimo, com o desmanche de todo o esquadrão em apenas uma temporada. Um time grandioso, que poderia ter sido ainda maior.

Símbolo do nacionalismo desde antes da fundação

A data de fundação do Estrela Vermelha aponta para o ano de 1945. Mas a trajetória do clube possui, na verdade, mais de um século. Ela começa em 1908, ainda no antigo Reino da Sérvia. Naquele ano, o Império Austro-Húngaro anexou a Bósnia-Herzegovina, causando grande crise. Cinco anos depois, o Belgrado SK viajaria para o país inimigo, para amistoso contra o Hajduk Split. No entanto, nem todos concordaram com a situação e os dissidentes criaram o SK Velika Srbija, Esporte Clube Grande Sérvia, com bases extremamente nacionalistas. O time logo passou a atrair jogadores de outros clubes sérvios e se tornou uma potência local, mas teve que fechar as portas com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914 – estourada depois que um sérvio assassinou o arquiduque austro-húngaro em Sarajevo. O clube reapareceu em 1919, como SK Jugoslavija. Estava no seio do ‘Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos’, país surgido no fim da guerra e renomeado como Iugoslávia em 1929. Conhecidos como os Crveni (Vermelhos), foram bicampeões nacionais em 1924 e 1925.

estrela

Porém, outra vez a guerra interrompeu a trajetória. Com a invasão da Iugoslávia pelos nazistas em 1941, o time precisou mudar de nome e passou a se chamar SK 1913. Já em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, foi dissolvido. A maioria das equipes acabou extinta por terem mantido as atividades durante o conflito. Eram taxadas de colaboracionistas pelo regime socialista que se enraizava no poder, liderado pelo Marechal Josip Broz Tito. Ainda assim, a história do SK Jugoslavija não foi totalmente jogada fora. Fundado em março de 1945, o Crvena Zvezda herdava os jogadores, o estádio e as cores de seu predecessor. A maior diferença estava entre os líderes do novo clube. O Estrela Vermelha (nome traduzido que se popularizou conforme a língua) era idealizado pelos membros da Aliança Unida da Juventude Antifascismo, que o batizaram e levaram em frente a nova instituição ainda sob os ideais do nacionalismo, garantindo sua popularidade. E a equipe acabou apadrinhada também pelo Ministério do Interior, com o peso institucional na máquina estatal comunista.

O Estrela Vermelha conquistou o acesso ao Campeonato Iugoslavo em seu primeiro ano, após faturar a liga sérvia. Nesse início, cultivou a rivalidade com o Partizan. Um dérbi que significava também uma disputa interna na estrutura comunista, já que os alvinegros foram fundados pelo Exército Popular da Iugoslávia e eram bancados pelo Ministério da Defesa. E a base deixada pelo Jugoslavija permitiu a montagem de um grupo forte logo de cara – tanto é que oito jogadores representaram a seleção na Copa de 1950. A equipe foi tricampeã da Copa da Iugoslávia em 1948-1949-1950, antes de faturar o inédito título da liga em 1951 – batendo o Partizan na última rodada e superando o Dinamo Zagreb na tabela apenas pelo saldo de gols.

A afirmação de uma potência na Iugoslávia

Eram as primeiras glórias, que se tornariam rotina para o Estrela Vermelha. Rajko Mitic foi o primeiro grande astro, protagonista dos alvirrubros desde a estreia oficial – não à toa, o ex-atacante é homenageado com seu nome no estádio do clube, apelidado de Marakana. E, a partir de 1954, o craque ganhou a companhia de Dragoslav Sekularac, jovem revelado pelo clube e  que seria vital nos próximos sucessos. Até o final da década de 1950, foram mais quatro títulos da liga e dois da copa, com um time famoso por seu estilo ofensivo. A maior façanha veio em 1958, com o primeiro triunfo na Copa Mitropa, principal torneio do leste europeu. Também naquela época, o Estrela fez suas primeiras aparições na Copa dos Campeões. Foi semifinalista em 1956/57, eliminado pela Fiorentina, e caiu nas quartas diante do Manchester United, no duelo que precedeu o Desastre de Munique, responsável pela morte de oito jogadores ingleses.

Durante a década de 1960, a torcida do Estrela Vermelha precisou lidar com o sucesso do Partizan, que dominava o campeonato nacional e foi finalista da Copa dos Campeões em 1966. A hegemonia só seria retomada a partir de 1968, sob as ordens do técnico Miljan Miljanic e o talento do ponteiro Dragan Dzajic, considerado o melhor jogador iugoslavo da história. Estrelados pelo craque, os Crveni retomaram o topo da Iugoslávia, com quatro títulos da liga e três da copa. Também voltaram a fazer sucesso no cenário europeu, com o segundo título na Copa Mitropa em 1968, a campanha até as semifinais da Champions de 1971 e também as semifinais da Recopa de 1975. Já com a seleção, Dzajic carregou o time até a decisão da Euro 1968, vencida pela Itália, e oito jogadores do time disputaram a Copa do Mundo de 1974.

1979

As saídas do treinador e do craque provocaram uma seca de três temporadas – ainda que o time permanecesse entre os primeiros colocados da liga. A recuperação foi alcançada com o técnico Branko Stankovic e a consagração de Vladimir Petrovic como estrela da companhia. Entre 1977 e 1981, os alvirrubros foram mais três vezes campeões nacionais e chegaram à sua primeira final continental. O timaço do Borussia Mönchengladbach era o adversário pelo troféu da Copa da Uefa de 1978/79. E os iugoslavos não foram páreos para os germânicos, derrotados no jogo de volta por um gol de Allan Simonsen, em pênalti bastante contestado. O sonho de chegar ao topo da Europa permanecia entalado na garganta. Algo que apenas a geração de ouro do Estrela Vermelha conseguiria alcançar.

A nova mentalidade dos alvirrubros

Outra vez, o Estrela Vermelha entrava em um período de incertezas com a demissão de seu técnico. Branko Stankovic deixou o banco de reservas em 1981 e, pouco tempo depois, os protagonistas do ótimo elenco que ele havia dirigido se foram. Tanto é que, em 1983, quando Gojko Zec voltou ao comando dos alvirrubros, só encontrou um jogador que ele conduzira ao título nacional em 1977. Era um período de renovação, que chegou a dar seu fruto. Em 1983/84, os Crveni conquistaram aquele que é considerado um dos títulos mais sofridos de sua história. Sem vários dos novos titulares, a equipe deu uma arrancada no final da campanha para ficar com a taça. O auge dos altos e baixos que viriam a seguir.

O elenco montado por Zec não era tão bom assim. Nas duas temporadas seguintes, a torcida do Estrela Vermelha precisou se contentar com apenas um título da Copa da Iugoslávia – e ainda tiveram uma conquista da liga dada e retirada na justiça, após uma acusação de manipulação de resultados não provada contra o campeão Partizan. Aquele foi o último ano do treinador. Seu substituto era Velibor Vasovic. Nos tempos de jogador, o defensor causara um enorme imbróglio no Estrela, ao se transferir para o clube e abandoná-lo meses depois, voltando ao Partizan, onde foi ídolo absoluto. Uma rixa que pouco importava perto das contribuições que o treinador poderia trazer. Vasovic foi primordial no Ajax de Rinus Michels, o líbero que impulsionou o ‘Futebol Total’. Era quem coordenava a marcação sufocante e a troca de posições, capitão no título da Champions de 1971, quando se aposentou.

dzajic

Vasovic não teve vida longa no Estrela Vermelha e nem criou uma réplica do Ajax em Belgrado. Todavia, sua mentalidade foi importante para a organização de uma equipe com tantos predicados ofensivos. E, tão vital quanto a forma como o clube jogava, também era a estratégia que adotou para renovar o elenco. A diretoria encabeçada por Dragan Dzajic e Vladimir Cvetkovic, um ídolo do futebol e outro do basquete, passou a buscar os melhores talentos da Iugoslávia. Sobretudo, jovens promessas que pudessem evoluir dentro de cinco anos e transformar os Crveni no melhor time da Europa. Em um país já se abrindo ao capitalismo, o poderio financeiro por trás do Estrela fez a diferença.

A chegada dos campeões ao Marakana

O maior exemplo da política de contratações foi dado naquele mesmo verão de 1986. O Estrela Vermelha trouxe Dragan Stojkovic. O garoto de 21 anos chegava para ser o cérebro do time. E, mesmo tão jovem, tinha totais capacidades para a pesada missão. Afinal, o meia surgira no Radnicki Nis com apenas 16 anos. Titular absoluto a partir da segunda temporada, Stojkovic chegou à seleção mesmo defendendo um clube mediano. Caiu com o Radnicki, mas teve a honra de levá-lo de volta à elite. Foi quando acabou fisgado pelo gigante da capital, que queria seus serviços de camisa 10, dando o toque de classe e marcando gols com chutes fantásticos. Além dele, o lateral Slobodan Marovic era outra peça importante trazida do croata Osijek – embora fosse montenegrino.

Aquela primeira temporada comandada por Vasovic não foi tão gloriosa assim. O Estrela Vermelha iniciou o Campeonato Iugoslavo de 1986/87 com seis pontos a menos, por causa do escândalo do ano anterior, e jogou a toalha no certame, terminando em terceiro. O grande objetivo era a Copa dos Campeões, onde a equipe ficou com a vaga mesmo enquanto o título se encontrava em litígio. E não decepcionou. Os iugoslavos caíram nos gols fora de casa anotados pelo Real Madrid, que foi derrotado por 4 a 2 no Estádio Marakana, mas venceu por 2 a 0 no Santiago Bernabéu. Apesar da eliminação nas quartas de final, aqueles confrontos tiveram serventia. Foram neles que o goleiro Stevan Stojanovic comprovou seu valor. Nascido em território kosovar, mas de família sérvia, ele começou na própria base. O camisa 1 amargou a reserva por anos, mas ganhou a posição naquela temporada. E defendeu um pênalti de Hugo Sánchez na vitória em Belgrado. Encerrada a temporada, era hora de tornar o Estrela Vermelha ainda mais forte, com contratações valorosas.

O elenco ganhava consistência sobretudo no meio-campo. Robert Prosinecki era um meia de estilo extremamente vertical. Filho de um croata com uma sérvia, nasceu na Alemanha e começou a carreira no Stuttgart Kickers, antes de se mudar para a Croácia e se juntar ao Dinamo Zagreb. Entretanto, quando Prosinecki completou 18 anos, o técnico Miroslav Blazevic recusou a dar-lhe um contrato profissional. Caminho livre para que a sua família o oferecesse a Dzajic e, depois de um mero teste, os Crveni já foram contratá-lo. No momento exato. Logo em seguida, o prodígio foi o craque da Iugoslávia no Mundial Sub-20 e, além de ser campeão, ganhou a Bola de Ouro do torneio. Ao seu lado entre os reforços, Dragisa Binic era outro meia do Radnicki Nis com potencial ofensivo, enquanto o bósnio Refik Sabanadzovic vinha para ocupar a lateral direita após estourar no Zeljeznicar sob as ordens de Ivica Ozim.

O primeiro título da Era de Ouro e os novos craques

Para chegar ao sonhado título da Champions, o Estrela Vermelha precisava reconquistar o Campeonato Iugoslavo. E, com o timaço que foi montado por Dzajic, não era possível que a taça demorasse ainda mais a vir. Em 1987/88, os Crveni recuperaram a soberania nacional em uma disputa acirrada contra o Partizan Belgrado. Mesmo com o melhor ataque, os alvirrubros fecharam a campanha apenas um ponto à frente de seus arquirrivais. Stojkovic foi o grande protagonista, com 15 gols, e sua ótima fase foi vital para que o clube não perdesse mais pontos. As inflexibilidades de Velibor Vasovic causaram mudanças constantes entre os titulares e a falta de sequência atrapalhou. Um dos motivos, aliás, para que o técnico deixasse o Marakana ao final da temporada, com o retorno de Bosko Stankovic.

Não era a mudança no comando que frearia o Estrela Vermelha nas contratações cirúrgicas. Trazido do Vardar, o macedônio Ilija Najdoski reforçava a zaga, com muita qualidade na marcação. Dejan Savicevic também chegava, em um acerto fechado ainda em janeiro. O habilidoso meia de 21 anos tinha desenvolvido sua técnica jogando em quadras e ainda adolescente estourou no Buducnost. Mais do que talento, o montenegrino possuía brio para não se intimidar nem como o Marakana lotado, assim como para defender a seleção principal. Um reforço que permitia até a partida de Dragisa Binic, importante no título de 1987/88. Já para o ataque, o nome era Darko Pancev. O atacante macedônio de 22 anos também tinha rodagem no Vardar Skopje, famoso pelo alto poder de fogo nas finalizações e o instinto dentro da área. Era o matador que faltava para não desperdiçar a visão de Stojkovic e Prosinecki.

O problema é que o Estrela Vermelha não pôde contar com seus novos craques de imediato. Savicevic e Pancev tiveram que prestar o serviço militar obrigatório – em uma manobra que é atribuída por alguns ao Partizan, que perdeu o leilão na contratação de ambos. Os dois jovens serviam um batalhão em Belgrado, o que dava brecha aos treinos e aos jogos. Apesar disso, os Crveni não conseguiram o bicampeonato. Mesmo com o melhor ataque, a melhor defesa e o menor número de derrotas, o time acabou em segundo. Como? Naquele ano, foram introduzidos pênaltis em caso de empate, que não davam ponto algum a quem perdesse. E, com cinco derrotas em sete disputas, o clube permitiu que o Vojvodina fosse campeão.

Ao menos na competição continental, a honra permaneceu intacta. A equipe vendeu caro a vaga nas quartas de final para o lendário Milan de Arrigo Sacchi, a caminho de seu primeiro título. Com um gol de Stojkovic, os rossoneri tiveram que buscar o empate por 1 a 1 em Milão. Já na volta, o Estrela Vermelha vencia por 1 a 0 até os 20 minutos do segundo tempo e tinha um jogador a mais após a expulsão de Pietro Paolo Virdis, quando um nevoeiro no Marakana cancelou a partida. Não era possível ver absolutamente nada na transmissão da TV e a visão no campo era limitadíssima. Entretanto, conforme o regulamento, o confronto precisou ser reiniciado no dia seguinte desde o primeiro minuto e com o placar zerado. Marco van Basten abriu o placar e Stojkovic empatou, levando a decisão para os pênaltis. Savicevic e Mrkela desperdiçaram suas cobranças, dando a classificação ao Milan.

“Quase foi o fim do sonho para o Milan. Depois do jogo, eles reconheceram que deram muita, muita sorte. O Milan estava de joelhos naquela segunda partida, mas tudo aconteceu rapidamente. De uma hora para outra, tudo ficou invisível. O árbitro queria nos deixar jogar, mas não tínhamos escolha, ficou impossível. Não dava para ver a bola!”, relembrou Stojkovic, em entrevista à BBC em 2013. “Quando perdemos nos pênaltis, como capitão, disse para meus companheiros se sentirem orgulhosos. Rijkaard veio até a mim e disse que eu era um grande jogador. Falou que o Milan teve muita sorte. Estávamos jogando bem, então quem sabe até onde o Estrela Vermelha poderia chegar se eliminasse o Milan? Culpe a neblina por isso. Não tenho mágoas, é ótimo ser parte da história do futebol. Mas o Milan nunca esquecerá esses dois jogos em Belgrado. Eles nasceram na neblina”.

O ouro do futebol e o sangue da guerra

Ao final da campanha, uma nova mudança no banco de reservas. Bosko Stankovic durou apenas um ano no cargo, após entrar em rota de colisão com Stojkovic. E a diretoria sabia que um time campeão era mais fácil de montar com um craque do que com um técnico. O novo escolhido para treinar o time era alguém com alta capacidade de lidar com os talentos, Dragoslav Sekularac, ele mesmo um antigo ídolo em Belgrado. E a constelação do elenco seguia aumentando.

Miodrag Belodedici chegou para ser esteio da defesa. O líbero foi chave para conduzir o Steaua Bucareste ao título da Copa dos Campeões de 1986, experiência importante para os iugoslavos. Fugira da opressão comandada pelos Ceausescu na Romênia ainda em 1988, mas, suspenso por deserção, só pôde jogar no fim de 1989. Já para o meio-campo, Vladimir Jugovic começava a ser lançado no time principal. O garoto surgia como ótima opção na base, mas também teve que conciliar os treinos com o serviço militar obrigatório.

O Campeonato Iugoslavo de 1989/90 foi o que contou com a campanha mais dominante do Estrela Vermelha, mas também acabou marcado pelas tensões que culminaram no fim da Iugoslávia. A equipe de Belgrado nadou de braçada, fechando a 34ª rodada com 11 pontos de vantagem e média de 2,32 gols marcados por jogo.  Todavia, no dia 13 de maio de 1990, quando os Crveni já tinham assegurado o título, o Estádio Maksimir de Zagreb foi palco de um episódio significativo para os conflitos.

O clássico contra o Dinamo Zagreb era tenso por si só, diante de toda a questão étnica e pela importância dos clubes. Ainda assim, ganhou proporções maiores, já que o movimento em prol da independência da Croácia havia vencido as eleições na república croata semanas antes. Fora do campo, as torcidas organizadas ultranacionalistas dos dois clubes entraram em confronto. Os cerca de três mil membros da Delije, do Estrela, provocavam os Bad Blues Boys dizendo que Zagreb pertencia à Sérvia, enquanto os rivais cantavam hinos nacionalistas croatas – algumas destas canções, ligadas ao estado fantoche nazista que existiu na região durante a Segunda Guerra Mundial. Pouco depois, os visitantes quebraram as cercas que dividiam os setores e começaram a bater nos torcedores rivais. Do outro lado, os Bad Blue Boys romperam as barreiras da curva onde ficavam e atravessavam o campo para dar o troco.

Diante do clima hostil, o capitão Stojkovic conduziu sua equipe para os vestiários. Mas o Dinamo permaneceu no gramado assistindo à barbárie. Ambos os lados atiravam pedras, cadeiras e o que mais vissem pela frente. Os Bad Blues Boys eram alvos de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia. E Zvonimir Boban, craque dos croatas, deu uma joelhada no rosto de um policial que agredia um ultra de seu clube. Nome certo na Copa de 1990, o meia foi suspenso por seis meses. A cena é considerada por alguns o estopim da Guerra de Independência da Croácia.

A situação se apaziguou cerca de uma hora depois do início da briga, quando a segurança se reforçou. Só então o elenco do Estrela Vermelha deixou o Maksimir, em um veículo blindado. O saldo oficial contou 117 policiais feridos, além de 39 torcedores do Estrela Vermelha e 37 do Dinamo, enquanto cerca de 100 ultras acabaram presos. Incrivelmente, nenhuma morte foi registrada. Ainda assim, os números possivelmente são mais amplos, até mesmo pelas proporções que a briga teve no Maksimir – algumas fontes falam em mais de 300 feridos. O conflito dos ultras com teor nacionalista foi transmitido pela televisão e recrudesceria os discursos de ambos os lados a partir de então.

Fora do país, sem o mesmo ranço, o Estrela Vermelha seguia batendo na trave em busca de sua glória continental. Sem o título nacional no ano anterior, os alvirrubros tiveram que se contentar com a Copa da Uefa. E não foram além das oitavas de final. Depois de vencerem o Colônia por 2 a 0 em casa, perderam na visita à Alemanha por 3 a 0. O jogo polêmico também abriu o caminho para a chegada do quinto técnico em quatro anos. Sekuralac foi expulso na partida de volta, suspenso pela Uefa e, com isso somado a uma excursão desastrosa à China, preferiu deixar o cargo. O escolhido para a sucessão foi Ljupko Petrovic, treinador que havia conduzido o Vojvodina ao título de 1989 e conhecia vários jovens do Estrela por sua passagem à frente das seleções de base.

iugoslavia estrela 1991

A temporada terminou com outro sonho interrompido. Cinco jogadores alvirrubros representaram a Iugoslávia na Copa de 1990. A seleção só perdeu para a Alemanha Ocidental na fase de grupos, batendo Colômbia e Emirados Árabes Unidos para se classificar na segunda posição da chave. Nas oitavas, com dois gols de Stojkovic, um deles na prorrogação, superaram a favorita Espanha por 2 a 1. Mas pararam nas quartas de final, derrotados nos pênaltis pela Argentina de Maradona, após o placar permanecer zerado por 120 minutos.

A melhor temporada da história

Dragan Stojkovic nem voltou da Itália. O Estrela Vermelha nada pôde fazer diante da oferta do Olympique de Marseille, turbinado pelo dinheiro de Bernard Tapie, e o maestro deixou o elenco depois da Copa. Para compensar, a diretoria buscou de volta Dragisa Binic, então na segunda divisão espanhola como o Levante. E Ljupko Petrovic foi atrás de seu maior talento nos tempos de Vojvodina, Sinisa Mihajlovic. O meio-campista de lançamentos cirúrgicos e cobranças de faltas precisas já tinha sido observado pelos Crveni quando ainda estava no Borovo, mas não foi contratado. Pagaram caro por isso, literalmente. Deram até carro e apartamento para o jogador de 21 anos. Com os dois reforços, o esquadrão campeão estava completo.

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Petrovic tinha em mãos uma equipe extremamente técnica. Sem Stojkovic, Prosinecki passou a ser quem conduzia as ações ofensivas, dando apoio a Pancev no 4-4-1-1 armado pelo treinador. Savicevic e Binic eram dois meias bastante agudos, enquanto Jugovic e Mihajlovic garantiam a qualidade no passe à frente da defesa, liderada por Belodedici. E a braçadeira de capitão ficou com o goleiro Stojanovic, o único a ter participado desde o início da ascensão do time. Petrovic prezava por um estilo que dominasse o tempo de jogo, sem deixar de lançar mão das habilidades individuais. E qualidade era o que não faltava naquele elenco.

O Campeonato Iugoslavo de 1990/91 foi o último antes da independência de Croácia e Eslovênia. E foi com todos os rivais pelo caminho que o Estrela Vermelha conquistou o bicampeonato. A equipe somou oito pontos a mais que o segundo colocado, o Dinamo Zagreb, e anotou impressionantes 88 gols. Sozinho, Pancev balançou as redes 34 vezes em 32 jogos, o suficiente para faturar a Chuteira de Ouro, como o maior artilheiro da Europa. O troféu só foi recebido 15 anos depois, já que o artilheiro do Campeonato Cipriota, com uma marca maior, havia tido seus tentos facilitados e o prêmio acabou suspenso naquela temporada – por conta desse episódio, inclusive, as regras da honraria foram alteradas.

Porém, o que marcou mesmo a trajetória do Estrela Vermelha foi mais uma controvérsia na Croácia. No dia 18 de maio de 1991, a equipe voltava ao Estádio Maksimir para enfrentar o Dinamo Zagreb, no reencontro após os incidentes do ano anterior e já com a Guerra de Independência da Croácia em andamento. Os visitantes abriram 2 a 0 no placar, mas acabaram sofrendo a virada por 3 a 2 – uma derrota que não influenciaria o título já conquistado. Tempos depois, Prosinecki e Petrovic admitiram que os Crveni facilitaram o triunfo dos rivais, temendo pela própria integridade, ao mesmo tempo que a arbitragem também estava arranjada para que os croatas vencessem – líderes nacionalistas do país estavam nos camarotes. “Fomos forçados a perder pelos círculos políticos”, disse Petrovic.

A caminhada até a final

Por tudo que vinha fazendo, o Estrela Vermelha surgia como um time a ser acompanhado de perto na Copa dos Campeões. Mas não era o favorito. Esse rótulo ficava por conta do Milan, dono dos dois últimos títulos; do Bayern de Munique, bicampeão alemão e estrelado por jogadores da seleção que triunfou na Copa; do Real Madrid, pentacampeão espanhol; do Napoli, ainda com Maradona e vencedor da Copa da Uefa em 1989; e do Olympique de Marseille, bicampeão francês e turbinado financeiramente. Os iugoslavos não tinham responsabilidade nenhuma para o restante da Europa. Entretanto, seguiam com o objetivo traçado cinco anos antes por Dzajic e Cvetkovic, pelo qual montaram aquele time.

20-Equipe Panini Etoile Rouge de BELGRADE 1991

O primeiro desafio era o Grasshopper, treinado por Ottmar Hitzfeld e que trazia jogadores da seleção suíça – como Marcel Koller ou Alain Sutter. E o Estrela Vermelha não começou bem, ao empatar por 1 a 1 no Marakana, diante de 50 mil torcedores. Peter Közle até abriu o placar para os suíços aos 14 minutos, num petardo cobrando falta. Binic correu atrás do prejuízo e decretou o empate aos 43 do primeiro tempo, completando de cabeça um ótimo cruzamento de Savicevic. O susto foi necessário para fazer a equipe acordar, goleando por 4 a 1 na Suíça e selando a classificação.

Pancev abriu a contagem logo aos 11 minutos, num lance de oportunismo, ao ser lançado em velocidade. Os alvirrubros criaram chances para mais no primeiro tempo, mas ampliaram apenas na volta do intervalo, num pênalti convertido por Prosinecki aos quatro minutos. Também anotaram o terceiro logo depois, com Dusko Radinovic mandando um chute no cantinho. Közle descontou aproveitando o rebote de um pênalti que ele mesmo perdeu, parado pelo goleiro Stojanovic, mas Prosinecki também voltou à marca da cal e fechou a contagem. Aquela era uma prova de força importante para a sequência da competição.

Com a vaga nas oitavas, os Crveni encarariam o Rangers. Os Teddy Bears eram dirigidos por Graeme Souness e iniciavam uma série hegemônica que rendeu nove títulos escoceses, numa equipe forte que reunia nomes como Mo Johnston, Chris Woods, Trevor Steven, Mark Hateley e Ally McCoist. Desta vez, os iugoslavos trataram de vencer por 3 a 0 em casa e encaminharam a classificação na ida. Num clima insano dentro do Marakana, cheio de fogos de artifício, os alvirrubros abriram o placar logo aos oito minutos. Contaram com um gol contra de John Brown, mandando para dentro um cruzamento rasteiro de Radinovic. Os outros tentos vieram no segundo tempo. Prosinecki anotou um belo gol de falta, em tiro que tocou a trave antes de entrar. Por fim, Pancev fez grande jogada individual e completou após tabela com Binic.

Diante da ampla vantagem construída na ida, deu para administrar o resultado na visita ao Estádio Ibrox, com o empate por 1 a 1. O Estrela Vermelha até abriu o placar em Glasgow, numa ótima trama de seu ataque. Prosinecki ganhou a disputa na área e cruzou para Pancev. O centroavante dominou e conseguiu emendar um voleio, que Woods não defendeu. O Rangers empatou com McCoist, mas sem muitas forças à reação, diante do placar agregado. Enquanto isso, o Napoli era o primeiro dos favoritos a ficar pelo caminho, eliminado nos pênaltis pelo Spartak Moscou.

O adversário do Estrela Vermelha nas quartas era o Dynamo Dresden, penúltimo representante da Alemanha Oriental na Copa dos Campeões. Bicampeão nacional, o time dirigido pelo recém-aposentado Reinhard Häfner tinha perdido craques como Matthias Sammer e Ulf Kirsten no início da temporada. Mesmo assim, tinha bons jogadores como Andreas Trautmann, Uwe Rösler e Torsten Gütschow. Só não deu para peitar um adversário bem mais forte e em seu ápice, com os alvirrubros encaminhando a classificação desde o jogo de ida. A vitória por 3 a 0 no Marakana abriu caminho aos Crveni mais uma vez.

Prosinecki estava mesmo calibrado nas cobranças de falta e abriu o placar aos 22 minutos, com outro tiro perfeito no ângulo, provocando o furor no Marakana abarrotado. Pouco antes do intervalo, Binic também apareceu, recebendo um passe magistral de Savicevic e definindo na saída do goleiro. Já no início do segundo tempo, Savicevic também merecia deixar sua marca. O craque recebeu na intermediária e mandou uma bola rasteira no canto. A festa alvirrubra era imensa nas arquibancadas, com os torcedores cientes de que algo grandioso poderia vir.

O Estrela Vermelha também venceu na visita à Alemanha Oriental, por 2 a 1. Gütschow até abriu o placar aos três minutos, cobrando pênalti, mas a reação não passaria disso. Até porque, aos sete do segundo tempo, o empate saiu numa obra-prima de Savicevic. O meia fez um carnaval na defesa do Dynamo Dresden. Conseguiu se desvencilhar do primeiro marcador, fez o segundo passar lotado no carrinho e também deixou o terceiro no vácuo. A definição seria à altura da jogadaça, com uma bomba no alto da meta. E a virada seria cortesia de Pancev, ao dominar e bater firme, quando o relógio marcava 24 minutos.

Aquele jogo de volta sequer seria encerrado. Aos 33 do segundo tempo, um quebra-quebra começou no Estádio Rudolf-Harbig, com os torcedores alemães revoltados. Uma chuva de objetos caía no gramado antes que Prosinecki fosse cobrar um escanteio. O duelo seria paralisado e, sem condições para ser retomado, os times saíram de campo. Nos tribunais, a Uefa concedeu o triunfo por 3 a 0 aos iugoslavos. As quartas de final da Champions ainda marcariam as eliminações de Real Madrid e Milan. O Spartak também foi o algoz dos merengues, embora a grande surpresa fosse mesmo a despedida dos italianos diante do Olympique de Marseille. Sem mais os então bicampeões continentais, um novo rei surgiria na Europa durante aquela campanha.

A presença do Estrela Vermelha nas semifinais da Copa dos Campeões encerrava um hiato de 34 anos do clube naquela fase da competição. Pela frente, teriam o temível Bayern de Munique, treinado por Jupp Heynckes. Os bávaros tinham sido bicampeões nacionais na temporada anterior e, embora não conquistassem a Champions desde 1976, acumulavam boas campanhas continentais. Tinham sido vice-campeões em 1987 e, em 1990, caíram na semifinal contra o Milan apenas pelo gol fora dos rossoneri. Em campo, os germânicos reuniam grandes jogadores: Jürgen Kohler, Klaus Augenthaler, Stefan Reuter, Olaf Thon, Stefan Effenberg e Brian Laudrup. Tanta experiência e qualidade não bastaria aos alemães.

No Estádio Olímpico de Munique, o Estrela Vermelha já apresentou suas credenciais e venceu o primeiro duelo por 2 a 1. O Bayern até abriu o placar aos 23 minutos, numa troca de passes envolvente, com toque de letra de Thon para Roland Wohlfarth dar um chute por cima do goleiro Stojanovic. Era uma partida aberta, de qualquer maneira, em que os iugoslavos criavam boas chances. As cobranças de falta de Prosinecki e Mihajlovic faziam os alemães prenderem a respiração, enquanto a zaga da casa precisou salvar uma bola em cima da linha. Assim, o empate sairia naturalmente aos 45. Num avanço rápido, Binic aproveitou o corredor pelo lado direito e cruzou rasteiro, para Pancev se esticar e completar de carrinho.

O Bayern botou pressão durante o segundo tempo. A equipe de Jupp Heynckes reclamou de um pênalti que a arbitragem não deu e ainda viu um gol ser anulado. Porém, não se protegeu direito e permitiu a virada do Estrela Vermelha num contra-ataque fulminante. Aos 25 minutos, Savicevic recebeu em velocidade o sutil passe de Pancev. O meia fez Köhler comer poeira, antes de sair sozinho com o goleiro Raimond Aumann e bater no canto. Os iugoslavos poderiam ter construído uma vantagem maior, aproveitando muito bem os espaços. O goleiro Aumann evitou o prejuízo dos bávaros. Porém, no fim, Effenberg também desperdiçou a chance do empate ao mandar para fora uma cabeçada, completamente sozinho.

No Marakana, o Bayern precisava da vitória a qualquer custo. Apesar da iniciativa, os alemães cederam o empate por 2 a 2 no apagar das luzes, num lance de pura infelicidade, e amargaram a eliminação. O primeiro tempo ainda pendeu ao Estrela Vermelha. O time da casa abriu o placar aos 24 minutos, com uma das famosas cobranças de falta de Mihajlovic. A tentativa era de muito longe, mas o volante mandou no canto inferior e Aumann nem se mexeu. Dava até para construir uma vantagem superior antes do intervalo, com muitas oportunidades desperdiçadas pelos iugoslavos dentro da área.

A reviravolta no placar começou aos 16 do segundo tempo, para lamento de Stojanovic. O goleiro cometeu uma falha bisonha, também em cobrança de falta de Augenthaler. O capitão deveria fazer uma defesa protocolar, numa bola tranquila que estava nos seus braços, mas engoliu um frango clássico ao permitir que a penosa passes por baixo de seu corpo. O Estrela Vermelha sentiu o baque e tomou a virada cinco minutos depois. Desta vez o erro foi da defesa, que espanou a bola dentro da área e permitiu que Manfred Bender entrasse, com uma chicotada na bola para vencer novamente Stojanovic.

Depois disso, o jogo virou uma loucura. O Estrela Vermelha precisava sair para o ataque, mas sua defesa continuava brincando com o perigo. Thon deu uma enfiada precisa e Wohlfarth encobriu Stojanovic, como na ida. Quando o atacante já iniciava o pique para comemorar o gol certo, a bola caprichosamente bateu no pé da trave, sem que Effenberg pegasse o rebote com a meta aberta. Os Crveni respiravam aliviados. E, no desespero, o empate salvador aconteceu aos 45. Mihajlovic cruzou e a bola parecia despretensiosa. Porém, Augenthaler retribuiria a gentileza dos adversários e falharia feio. O zagueiro da seleção espirrou o taco e viu a bola tomar uma trajetória inesperada, descendo repentinamente rumo às redes. O goleiro Aumann confiou no golpe de vista e também errou. Num golpe de sorte, os iugoslavos passavam à decisão. O Marakana explodia em festa.

A inesquecível decisão em Bari

Pela primeira vez em 25 anos, um clube da Iugoslávia chegava à final da Champions. O Estrela Vermelha, contudo, seguia como azarão rumo à decisão marcada para o Estádio San Nicola – em Bari, um dos palcos recém-inaugurados para a Copa do Mundo de 1990. O adversário seria o Olympique de Marseille. Depois da façanha contra o Milan nas quartas, os franceses não bobearam contra o surpreendente Spartak Moscou e venceram os dois jogos nas semifinais. O dinheiro jorrava no Vélodrome, onde o magnata Bernard Tapie enfileirava craques locais e astros internacionais. A bonança era tanta que os celestes quase tinham contratado Diego Maradona dois anos antes, em negócio só impedido pela resistência do Napoli em vender o gênio.

Para aquela decisão, o Olympique de Marseille mandou a campo vários figurões. O técnico Raymond Goethals contava com Jean-Pierre Papin em fase infernal no ataque, além de veteranos da seleção francesa, como Manuel Amoros e Jean Tigana – este, reserva naquele jogo para que um volante a mais entrasse na marcação de Prosinecki. Futuros heróis dos marselheses na Champions de 1992/93, Basile Boli e Abedi Pelé também eram titulares. Mozer dava firmeza à zaga, enquanto Chris Waddle era um talento na meia direita. E havia um encontro particular ao Estrela Vermelha. Afinal, o ídolo Dragan Stojkovic vestia a camisa celeste. Não vinha tão prestigiado na Provença, bem abaixo da mágica que se vira por tantas vezes no Marakana, mas estaria no banco de reservas do Estádio San Nicola.

Para chegar até ali, o Estrela Vermelha tinha exibido um futebol ofensivo, com 18 gols em oito partidas. Todavia, diante do imponente rival, os alvirrubros abdicaram desse estilo para buscar a taça. O técnico Ljupko Petrovic conhecia também o potencial do ataque do Olympique de Marseille. Papin era o artilheiro da Champions e vinha jogando demais, acompanhado por Abedi Pelé e Chris Waddle. Eram jogadores letais nos contra-ataques. Por isso mesmo, o treinador iugoslavo resolveu atuar sem a posse. “Se os franceses derem a bola, devolvam a gentileza”, dizia. Não queria deixar seu time exposto. Por outro lado, ele sim buscava aproveitar os contragolpes. E, com essa mentalidade, os Crveni seguiram para a Itália.

Logo depois do já relatado episódio aterrorizante em Zagreb, em que o Estrela Vermelha deu de bandeja a vitória para o Dinamo no clássico temendo represálias, o elenco dos Crveni chegou a Bari. O clube fechou seus jogadores na concentração, longe das famílias. Os dirigentes também queriam proteger os jovens talentos dos empresários que rondavam a cidade e desejavam fazer propostas, o que poderia atrapalhar a concentração para o jogo mais importante da história dos alvirrubros. Além disso, a diretoria tratou de levar à Itália antigos ídolos do clube. Nomes como Rajko Mitic e Dragoslav Sekularac conversaram com os atletas para motivá-los. O espírito vencedor estava semeado.

O Estrela Vermelha entrou em campo no Estádio San Nicola com força máxima e aplicado na estratégia de Ljupko Petrovic.  O time fechava bem os espaços na defesa e, quando o Olympique de Marseille buscava o contra-ataque, a linha de impedimento funcionava à perfeição. A cautela, de qualquer maneira, também se via entre os marselheses. Raymond Goethals reforçou a proteção na cabeça de área, deixando Mozer e Boli mais livres na sobra. Com tais posturas, os dois poderosos ataques passaram em branco ao longo dos 120 minutos da amarrada partida. Foram raríssimas chances de gol, com nenhuma finalização certa dos franceses e apenas três chutes dos iugoslavos em toda a noite.

No ataque do Estrela Vermelha, Pancev se via isolado, enquanto Binic e Savicevic eram perseguidos em marcações individuais. No máximo, Prosinecki mandaria uma falta com perigo para fora. O próprio Savicevic não duraria tanto tempo em campo, substituído aos 39 da segunda etapa por conta de uma lesão. Do outro lado, o Olympique dava mais sustos nas bolas alçadas, mas mesmo assim nada que exigisse defesas de Stojanovic. A tensão era evidente. E o reencontro dos alvirrubros com Stojkovic dentro de campo foi breve. Raymond Goethals colocou o craque somente aos sete minutos do segundo tempo extra. Ele mal pegaria na bola com a camisa celeste. Por fim, o empate por 0 a 0 levou a decisão aos pênaltis.

O Estrela Vermelha estava bem mais preparado para a disputa na marca da cal. Stojanovic defendeu logo a primeira cobrança dos franceses, batida pelo rodado Manuel Amoros. Aquela intervenção já seria suficiente para que a conquista acontecesse, com todos os seus companheiros balançando as redes em seus arremates. Prosinecki, Binic, Belodedici, Mihajlovic e Pancev converteram os seus pênaltis. A vitória por 5 a 3 tornava a Europa branca e vermelha, como o Estrela Vermelha tanto sonhara. Stojanovic era o primeiro goleiro da história a levantar a Champions, enquanto Belodedici foi o pioneiro a levá-la por dois clubes diferentes, depois de seu feito anterior com o Steaua Bucareste.

Já do outro lado, um misto de frustração e felicidade personificado em Stojkovic. “Em meu último dia em Belgrado, deram uma festa no clube e me desejaram boa sorte. Minhas últimas palavras foram: ‘Agradeço a vocês por tudo, desejo o melhor e os vejo na final’. Eles riram. Quando fiquei sabendo da vitória sobre o Bayern, percebi que aquilo realmente iria acontecer. Emocionalmente, você não acredita que ficará em um lado diferente de seus amigos. Mas é a vida. Foi muito difícil para eu aceitar, mas fui para o banco e joguei oito minutos no tempo extra. Pedi para não bater o pênalti, não queria essa responsabilidade contra eles. Perdi como um membro do Marseille e estava triste por isso, mas também fiquei feliz por ver o Estrela campeão. Mas ainda acho que foi um erro eu ter sido reserva. Os jogadores do Estrela tinham medo do que eu poderia fazer”, recordou o meia, em entrevista ao In Bed With Maradona.

O orgulho de uma nação esfacelada

A volta a Belgrado foi triunfal. O Estrela Vermelha foi recepcionado por milhares de torcedores, exibindo o troféu que os tornava como os melhores do continente. Um símbolo para quem defendia a Iugoslávia ainda unida, já que entre os protagonistas havia um croata (Prosinecki), um montenegrino (Savicevic) e um macedônio (Pancev), além do capitão nascido em território kosovar (Stojanovic). Ainda assim, o feito seria muito mais aproveitado pelos ultranacionalistas que queriam proclamar a supremacia dos sérvios, bem como reprimir os anseios por independência de croatas, eslovenos e bósnios.

Em meio ao conflito, o desmanche do time campeão foi inevitável. O sucesso era a deixa para que muitos saíssem do país. Ljupko Petrovic aceitou uma oferta do Espanyol e rumou à Catalunha, enquanto cinco titulares se transferiram para clubes do exterior. A defesa praticamente se desmontou: Stojanovic foi para o Royal Antuérpia, Marovic seguiu ao Norrköping e Sabanadzovic defenderia o AEK Atenas. Binic foi outro que fez as malas e se mudou ao Slavia Praga. Mas o caso mais emblemático foi o de Prosinecki. Por ter ascendência croata e sérvia, o meia manteve-se neutro diante da divisão étnica que tomava o país. Foi ameaçado. Seria baleado se continuasse servindo a seleção iugoslava. Não pensou duas vezes quando recebeu uma proposta do Real Madrid, mudando-se para a Espanha.

Ex-meia do clube, Vladica Popovic assumiu o comando técnico. E, com a equipe desfigurada, mesmo preservando os principais talentos ofensivos, os Crveni não conseguiram conquistar a Supercopa Europeia. Na época, o torneio era disputado em dois jogos. Porém, a Guerra na Iugoslávia fez com que Estrela Vermelha e Manchester United decidissem em jogo único, disputado em Old Trafford. Vitória da equipe de Sir Alex Ferguson por 1 a 0, com gol de Brian McClair.

Já no final de 1991, os iugoslavos seguiram ao Japão, onde enfrentariam o Colo Colo no Mundial Interclubes. E os campeões da Libertadores conheciam muito bem os alvirrubros: o técnico era Mirko Jozic, vencedor do Mundial Sub-20 com a Iugoslávia. Não adiantou . Mesmo com Savicevic expulso no primeiro tempo, Jugovic resolveu. Foram dois gols do meio-campista e outro de Pancev na vitória por 3 a 0 sobre os chilenos. Depois da Europa, os Crveni se coroavam como os melhores do mundo. Outra mostra do patamar que o time alcançou foi dada na Bola de Ouro. Papin venceu o prêmio, mas quatro dos oito primeiros colocados eram alvirrubros. Pancev e Savicevic ficaram empatados com Lothar Matthäus na segunda colocação. Prosinecki terminou em quinto, enquanto Belodedici foi o oitavo.

A máquina de gols vira máquina de guerra

Pouco tempo depois, não existiam mais motivos para comemorar. O sangue escorria nos Bálcãs. Mesmo assim, o Campeonato Iugoslavo foi disputado em 1991/92, culminando no tricampeonato do Estrela Vermelha. Sem croatas e eslovenos na competição, os alvirrubros abriram quatro pontos de vantagem sobre o Partizan na liderança. E o torneio sequer chegou ao fim. Em abril, teve início a Guerra de Independência da Bósnia, a maior barbárie na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. O clube de Belgrado foi declarado dono da taça mesmo faltando três rodadas para serem disputadas.

Já na recém-reformulada Liga dos Campeões, o Estrela Vermelha não conseguiu ampliar o reinado. Os alvirrubros eliminaram Portadown e Apollon Limassol nas fases iniciais, precisando mandar seus jogos na Hungria por conta da Guerra da Iugoslávia. Naquela edição, foi introduzido um quadrangular semifinal no torneio para definir os dois classificados à decisão. Os Crveni seguiriam sem poder jogar em Belgrado durante esta fase de grupos, dividindo suas partidas como mandantes entre Budapeste e Sofia. Até conseguiram duas vitórias contra o Panathinaikos e uma contra o Anderlecht. No entanto, diante de uma fortíssima Sampdoria que vinha do Scudetto, os iugoslavos perderam os dois confrontos diretos e viram os italianos se confirmarem na final contra o Barcelona. Na última rodada, quando precisava vencer o Anderlecht na Bélgica e torcer por um tropeço da Samp contra o Panathinaikos no Luigi Ferraris, o Estrela Vermelha perdeu por 3 a 2 e se despediu das esperanças do bicampeonato.

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Era o adeus do esquadrão do Estrela Vermelha. Todos os seis remanescentes do título de 1991 foram contratados por clubes estrangeiros: Savicevic (Milan), Pancev (Internazionale), Belodedici (Valencia), Jugovic (Sampdoria), Mihajlovic (Roma) e Najdoski (Valladolid). A geração dourada sequer pôde se reunir novamente na seleção. Por conta do genocídio, a Iugoslávia perdeu sua vaga na Euro 1992 – substituída justamente pela campeã Dinamarca – e não participou das competições internacionais até as Eliminatórias da Copa de 1998.

E pior: parte da torcida que empurrava o Estrela Vermelha no Marakana se transformou no braço armado do governo de Slobodan Milosevic. A batalha em Zagreb contra os Bad Blues Boys era apenas um ensaio para a Delije. Sob o comando de Zeljko Raznatovic, o Arkan, um contingente que variava entre 500 e mil alvirrubros se tornou os ‘Tigres’, força paramilitar responsável por milhares de mortes durante a guerra. A milícia lutou tanto na Croácia quanto na Bósnia e Arkan foi indiciado por diversos crimes contra a humanidade. Assassinado em 2000, nunca foi julgado. Uma morte não apagou a mancha que deixou para sempre na história vitoriosa do Estrela Vermelha, o último vestígio de uma Iugoslávia multiétnica.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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