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Os clubes rivais que brigam pela mesma identidade e pelo mesmo passado glorioso

*Por João Vítor Roberge

O dia 20 de novembro de 2013 ficará marcado na história do futebol romeno. Dois times de mesmo nome, mesmas cores, reivindicando a mesma história. E não é qualquer história, mas sim a de um clube dono de quatro títulos do Campeonato Romeno, seis da Copa da Romênia, o terceiro no país a mais participar de competições continentais. Um clube fundado em 1948, que foi o primeiro de seu país a chegar às semifinais da Copa da Uefa e às quartas-de-final da Champions League. Em duelo válido pela segunda divisão nacional, Clubul Sportiv Universitatea Craiova e Fotbal Club Universitatea Craiova terminavam um bizarro “clássico” sem gols no Estádio Ion Oblemenco, localizado no sudoeste romeno. Empate que também se dava na queda de braço por recontar o próprio passado.

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O caminho até uma partida entre dois times de mesmo nome que disputam uma mesma identidade e dividem opiniões de imprensa, torcida e ídolos foi feito por uma sucessão de erros administrativos no futebol romeno. Para ser bem explicado e para que seja possível entender a importância deste time a nível nacional e internacional, é necessário voltar a 5 de setembro de 1948, quando um grupo de estudantes e professores da Universidade de Craiova (Universitatea din Craiova, em romeno), fundou o Clubul Sportiv Universitar Craiova, então pertencente à Associação Nacional de Estudantes da Romênia (Asociației Naționale a Studenților din România – ANSR). Em 1950, o Universitar Craiova mudou seu nome para Stiinta (literalmente “Ciência”) Craiova. Só em 1966 o original Clubul Sportiv Universitar Craiova teria o nome pelo qual é mais conhecido: Universitatea Craiova. Stiinta ficou como apelido. E um ano depois, seria fundado o Estádio Central de Craiova, com quase 30 mil lugares (rebatizado após morte do maior artilheiro da história do time, Ion Oblemenco, em 1996).

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Enquanto conquistava seus três primeiros campeonatos nacionais (1973/74, 1979/80 e 1980/81) e suas três primeiras copas (1976/77, 1977/78 e 1980/81) em um país com o futebol fortemente dominado por Steaua e Dinamo, aquele time apelidado de “Craiova Maxima” impressionava também a nível europeu. Após ter sido o primeiro clube romeno a chegar às quartas-de-final da Copa dos Campeões,em 1980/81, eliminado pelo Bayern de Munique, o Universitatea Craiova foi também o primeiro a chegar nas semifinais da Copa da UEFA, em 1982/83. Eliminou Fiorentina, Shamrock Rovers, Bordeaux e Kaiserslautern. A equipe só foi cair nas semifinais, contra o Benfica. O empate sem gols em Lisboa e o 1 a 1 em Craiova definiram a classificação da equipe portuguesa pelos gols fora de casa. Toda a Romênia torcia para aquela equipe de futebol aguerrido e técnico. Além de tudo, aquela geração foi também a base da primeira seleção romena a participar em uma Eurocopa, em 1984.

E vale lembrar, não foram só estas duas campanhas que o Universitatea fez a nível europeu. Entre 1973 e 2001, um intervalo de 28 anos, o time esteve em 23 competições da UEFA, contando com a antiga Recopa Europeia e a Intertoto. Betis, Monaco, Olympiacos, Fiorentinaes), Leeds United e Galatasaray já tiveram seus caminhos interrompidos pela Stiinta.

A nova história após a queda do comunismo

Em 1991, após o Universitatea Craiova ter conquistado a Liga I e a Copa da Romênia, já fazia quase dois anos desde o fim do Comunismo de Nicolae Ceausescu no país. Assim, todos os clubes, que eram até então estatais e possuíam o prenome Clubul Sportiv (por serem poliesportivos) deveriam ser privatizados, à medida em que as instituições das quais eles faziam parte não conseguiam mais mantê-los. Muitos deles, inclusive o Steaua Bucareste, o maior do país, mantiveram os outros esportes sob a manutenção das autoridades públicas, e privatizaram apenas o futebol. Foi o que aconteceu com o Universitatea Craiova. O departamento de futebol se separou do resto do clube.

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Assim, o time de futebol do Clubul Sportiv (CS) Universitatea Craiova se tornava o Fotbal Club (FC) Universitatea Craiova, dando continuidade ao clube de 1948. Muitos outros clubes tomaram a mesma medida. Uma razão social foi feita, e o Universitatea Craiova seguiu, como uma empresa e com proprietários, como as outras equipes do país. Em 1992/93, o time conquistou seu último título, o sexto da Copa da Romênia. A partir dos anos 2000, vieram a decadência, os jejuns perante os rivais Steaua e Dinamo, as campanhas medíocres, os rebaixamentos de 2004/05 e 2010/11.

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Agora, de fato, começa o caso que levou a uma partida entre dois “Universitateas”. Em 20 de julho de 2011, a Federação Romena de Futebol decidiu excluir o Universitatea Craiova, porque o clube não retirou um processo contra o ex-técnico Victor Piturca na justiça comum. Piturca queria o pagamento da cláusula da rescisão do seu contrato, no valor de € 7 milhões. Conforme o estatuto da FRF, um time não poderia entrar na justiça comum para impasses contratuais. Adrian Mititelu não retirou o processo e assim o clube foi extinto. Todos os jogadores da equipe tiveram os contratos rescindidos a custo zero e foram obrigados a assinar com outros clubes para continuar suas carreiras. Centenas de milhares de torcedores ficaram sem o time do coração.

Ainda em 2011, a então candidata à prefeitura de Craiova, Lia Olguta Vasilescu, do Partido Social-Democrata da Romênia (PSD), se aliou a Adrian Mititelu e, em sua campanha eleitoral, prometeu fazer o FC Universitatea Craiova voltar a existir. Além disso, uma das promessas de Vasilescu era demolir o Estádio municipal Ion Oblemenco, que estava abandonado, para construir uma moderna arena, nos moldes da UEFA e da FIFA. Lia Olguta Vasilescu venceu as eleições e é a prefeita da cidade desde novembro de 2012.

Desde a extinção, torcedores organizaram uma série de protestos em Craiova e em Bucareste, na sede da FRF, agregando milhares de pessoas e reivindicando o retorno imediato da Stiinta às competições. Um torcedor chegou a tentar suicídio do alto de uma das torres de refletores do Estádio Ion Oblemenco, no início de 2013. Os torcedores Ultras do clube foram mais longe e criaram o ‘Justice for Craiova’, movimento que além dos protestos na rua, promoveu invasões aos gramados nos jogos de futebol, incluindo jogos da seleção romena e jogos válidos pela Champions League e Liga Europa, como a partida entre Chelsea e Steaua Bucareste em 2013, no Stamford Bridge, em Londres.

A briga política que causou a discórdia

Em 2013, o FC Universitatea Craiova conseguiu na Justiça o direito de voltar às competições. No entanto, a agora prefeita de Craiova, Lia Olguta Vasilescu, e Adrian Mititelu romperam a parceria que tinham e se tornaram fortes inimigos. Em vez de Vasilescu ajudar na volta do FC U Craiova, ela se aliou aos investidores Adrian Andrici e Mihai Rotaru, criando o CS Universitatea Craiova, em julho de 2013. Voltamos ao primeiro parágrafo.

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O CS Universitatea Craiova se diz detentor de todos os títulos e história do time original, fundado em 1948, considerando o FC Universitatea Craiova um clube criado logo após a privatização e a separação entre o time de futebol e o resto do clube poliesportivo. Um dos argumentos é o fato de Adrian Mititelu ter alterado fundado novas razões sociais para o FC U Craiova à medida em que o clube tinha uma crise financeira grave e precisava se reorganizar. Na visão do CS U Craiova, novos clubes eram fundados a cada vez que isto acontecia, a última delas em 2013.

Com a chegada do CS U Craiova, a Prefeitura boicotou o time de Adrian Mititelu, despejando-o do estádio Ion Oblemenco. Muitos dos ídolos, que eram desprezados pelo empresário, abraçaram o projeto e lá trabalham até hoje, como os ex-jogadores Silviu Lung, Sorin Cârtu, Ion Geolgau e Emil Sandoi. O FC U Craiova se tornou um clube itinerante, buscando lugar para treinar e com jogadores que nunca foram pagos até hoje, dependendo apenas da solidariedade de seus atletas para entrar em campo. Mititelu, endividado, não conseguiu manter o FC U Craiova, que acabou mais uma vez, em março de 2014. Os torcedores, que a princípio estavam extremamente resistentes ao CSU, passaram a admitir o clube e a trocar de lado, tornando a divisão de torcida bastante acirrada. Muito disso também se deve ao clube apoiado pela prefeitura ter uma baita estrutura para os padrões romenos e pela boa campanha na primeira divisão a partir de 2014/15, terminando na quinta colocação.

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O CS Universitatea Craiova é atualmente apoiado por seus torcedores e pela imprensa da região. Torcedores de outros clubes, jornalistas, jogadores, técnicos, dirigentes e ex-jogadores não adotam a tese de que o CS Universitatea Craiova, que foi implementado em 2013, seja a refundação do legítimo clube fundado em 1948. Torcedores de clubes tradicionais como Universitatea Cluj e Dinamo Bucareste se manifestaram contra o CSU em partidas disputadas em 2014.

O FC Universitatea Craiova e seus seguidores não concordam com o argumento do CSU, considerando-o um time criado como manobra política e de forma ilegal. Isto porque o time começou a temporada 2013/14 direto da segunda divisão romena, como “indenização” concedida pela Federação Romena de Futebol à cidade de Craiova por causa da extinção do FCU em 2011. No entanto, os únicos craques que defendem o FCU são Ilie Balaci, maior ídolo vivo do futebol de Craiova e um dos três maiores da história da Romênia (ao lado de Hagi e Dobrin) e o ex-volante Aurel Ticleanu.

CS Universitatea Craiova e FC Universitatea Craiova chegaram a se enfrentar na segunda divisão romena em duas oportunidades. As duas partidas terminaram em zero a zero. A segunda, no Estádio Ion Oblemenco, lotou o estádio com a grande maioria sendo torcedores do FC Universitatea, apesar de o rival ser o mandante. O CSU conquistou o título da Liga II em 2013-14 e chegou ao quinto lugar na Liga I em 2014/15. O FCU não existe mais, e uma cooperativa de torcedores tenta refundá-lo na Liga IV a partir da temporada 2015-16, a exemplo do que acontece com outras equipes tradicionais na Romênia que já foram extintas, como Arges Pitesti e Politehnica Timisoara.

* João Vítor Roberge é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e dono do blog O Craiovano, especializado em futebol romeno. Como projeto de conclusão de curso, ele produzirá um documentário sobre a história da briga em Craiova e viajará à Romênia no próximo mês. O lançamento está previsto para 2016.

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