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A Albânia está prestes a viver, na Champions, o seu maior momento no futebol

O “caminho dos campeões” da Champions League não é unanimidade, mas garante lugar a cinco donos de títulos nacionais em ligas menores na fase de grupos. A chance que muitos países têm de buscar o sucesso no torneio, mesmo que seja pela mera classificação. E, nesta edição do torneio continental, ninguém se destaca mais do que a Albânia. Pela primeira vez, um clube local chega tão longe nas preliminares da LC. O Skënderbeu Korçë será o azarão diante do Dinamo Zagreb. Mas com chance de levar o futebol albanês ao maior momento de sua história, em um orgulho nacional único entre os clubes.

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De certa maneira, o caminho ajudou o Skënderbeu. A equipe escapou de adversários mais fortes, eliminando o Crusaders (Irlanda do Norte) e o Milsami Orhei (Moldávia), que já tinha feito o trabalho sujo no chaveamento ao eliminar o favorito Ludogorets Razgrad (Bulgária). O Dinamo possui um time bem mais qualificado que os albaneses, especialmente pelas jovens promessas que começam a despontar. Ainda assim, não parece nada inacessível para os azarões. A chance de fazer história está aí, em um jogo que possui também pano de fundo político-cultural, diante das animosidades que existem nos Bálcãs – embora bem mais fortes com os sérvios do que com os croatas.

Em toda a história da Champions, os times albaneses só haviam vencido sete duelos eliminatórios. E nenhum clube havia emendado duas classificações em uma mesma edição, como fez o Skënderbeu desta vez. Em 2013/14, a equipe se aproximou do feito, mas caiu diante de outra zebra histórica dos playoffs, o Shakhtyor Karaganda, do Cazaquistão. Na tentativa de ir à fase de grupos da Liga Europa, porém, também caiu nas preliminares. Desta vez, independente se passar ou não pelo Dinamo Zagreb, já garantiu a primeira participação na história de um albanês na fase principal de um torneio europeu.

A campanha do Skënderbeu significa muito. Especialmente, pela maneira como a Albânia acompanha o futebol. Assim como em boa parte do Leste Europeu, a paixão pelo esporte é imensa no país. Só que, sem um campeonato nacional forte, e diante dos muitos episódios de violência em suas arquibancadas, os albaneses acabaram desenvolvendo o seu gosto pelas ligas estrangeiras. A Premier League, sobretudo, possui uma popularidade fortíssima por lá. Um conceito em que o desempenho dos locais pode ajudar a mudar.

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Dentro das perspectivas históricas do país, o Skënderbeu é um clube de sucesso recente. A equipe da cidade de Korçë surgiu em 1925, e chegou a ser campeão nacional em 1933. Contudo, nunca esteve entre as principais potências. Durante a época do comunismo, adotou o nome de Puna (trabalho, em albanês), mas apenas oscilou entre a primeira e a segunda divisão. A grande virada aconteceu a partir de 2009/10, em um momento de baixa. Ameaçado de rebaixamento, o Skënderbeu acabou assumido por um grupo de notáveis – entre os quais faziam parte o presidente da Red Bull na Albânia, o Ministro das Finanças e o prefeito de Korçë. Com dinheiro no caixa, bons patrocínios e uma gestão bem feita, o clube decolou. Após se safar do rebaixamento, conquistou o pentacampeonato albanês.

Assim, o Skënderbeu serve de exemplo de organização dentro do futebol albanês, que nunca foi forte, e ainda sofreu com o sucateamento pós-cortina de ferro. E ainda possui um claro apelo para ser motivo de orgulho nacional na Champions. O nome Skënderbeu homenageia Skanderbeg, um nobre albanês do Século XV, que liderou a resistência na guerra contra o Império Otomano, e que segue como símbolo de heroísmo nacional. Nada mais propício para a cidade de 75 mil habitantes se tornar o centro do futebol nacional, ao menos nesta campanha.

Mesmo a seleção albanesa representa muito pouco em sua história. A equipe nunca fez grandes campanhas nas grandes competições e, no máximo, pode considerar como maior feito a vitória sobre a França em amistoso no último mês de junho. Mais do que isso, apenas atenções por assuntos extracampo, como o drone que causou grande tumulto no duelo contra a Sérvia, pelas Eliminatórias da Euro de 2016, ou a maneira como o êxodo causado pela Guerra do Kosovo enfraqueceu o potencial da seleção – com Shaqiri e Xhaka entre os albaneses étnicos mais notáveis. Agora, enfim, a grande oportunidade de um verdadeiro sucesso esportivo. São apenas dois jogos no caminho do Skënderbeu.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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