Leonardo Jardim tinha uma carreira relativamente modesta quando chegou ao Monaco. Treinou várias equipes pequenas em Portugal, até passar uma temporada satisfatória no Braga. Dirigiu o Olympiacos, mas sequer durou o Campeonato Grego inteiro. E também ficaria um ano no Sporting, suficiente para ser vice-campeão, embora tenha rescindido seu contrato ao final do Campeonato Português. Livre no mercado, tornou-se uma aposta dos alvirrubros por sua filosofia, voltada principalmente à formação de jovens jogadores. Cumpriu a missão com êxitos e foi muito além, ao protagonizar grandes campanhas, especialmente a conquista da Ligue 1 em 2016/17. Entretanto, os resultados são importantes além da prospecção. Sem eles, os monegascos veem suas perspectivas se reduzirem neste início de temporada. E o desgaste natural confirmou a demissão do lusitano nesta quinta-feira.

O Monaco ainda não encontrou encaixe ao seu jogo nesta temporada. As sucessivas vendas de protagonistas diminuíram o potencial do elenco e a remontagem se mostra problemática, sobretudo pela queda de nível de alguns veteranos. O clube do principado apresenta dificuldades defensivas e nem mesmo o esforço de Radamel Falcao García, com participação direta em 60% dos tentos da equipe, tem bastado. Na Liga dos Campeões, foram duas derrotas duras em duas rodadas. Já na Ligue 1, os monegascos só venceram na estreia. Acumulam oito rodadas em jejum, com direito a três derrotas consecutivas. Nem mesmo o currículo do homem que transformou a história recente no Estádio Louis II seria suficiente para sustentar a relação. Na antepenúltima posição do campeonato, ocupando a zona dos playoffs contra o rebaixamento, o bilhete azul se tornou inescapável.

O desempenho é muito diferente do que o Monaco se acostumou a viver ao longo desta década. O acesso de volta à primeira divisão aconteceu em 2012/13 e, na primeira temporada novamente na elite, Claudio Ranieri conseguiu o vice-campeonato. Quando Leonardo Jardim chegou, porém, a situação no clube se transformava. O magnata Dmitry Rybolovlev cortava os seus investimentos mais ambiciosos, por conta de sua dispendiosa separação, e precisava se concentrar em jovens. O que o novo treinador conseguiu, acumulando também ótimos desempenhos. Sempre classificou o time à Liga dos Campeões, variando entre a primeira e a terceira colocação. Disputou ainda três finais de copas nacionais, apesar da freguesia diante do Paris Saint-Germain. E também alcançou as semifinais da Champions em 2016/17. Tudo isso coroado pelo fim do jejum de 17 anos na Ligue 1, quebrando a hegemonia do PSG e registrando alguns recordes pelo aproveitamento estrondoso. Não foram os parisienses que perderam aquela taça, foram os monegascos que conquistaram.

Os frutos de Leonardo Jardim se espalharam em campo e nas finanças do Monaco. A partir de sua segunda temporada, o clube arrecadou mais de €760 milhões em vendas, de jogadores que se valorizaram pelas mãos do comandante. Lista repleta que inclui Anthony Martial, Geoffrey Kondogbia, Layvin Kurzawa, Yannick Ferreira Carrasco, Benjamin Mendy, Bernardo Silva, Tiemoué Bakayoko, Thomas Lemar, Fabinho e sua grande pérola, Kylian Mbappé. O lusitano não teve travas para lançar muitos desses jovens e soube aproveitar o melhor da maioria. É o que manteve o ciclo de alegrias dos monegascos. O ponto é que nem sempre deu para manter o nível das revelações. E mesmo apostas que pareciam racionais nos últimos tempos, depois da conquista da Ligue 1, não se firmaram como se esperava. A margem de erro se tornou maior.

Neste ponto, é que se concentra também o entrave de Leonardo Jardim. Repetir o nível de atuações de 2016/17, depois de tantas transferências, seria impossível. O time já não rendeu tão bem na temporada passada, mas fez o suficiente para competir no Francês, apesar da queda precoce na Liga dos Campeões. Entretanto, o desgaste contínuo levou os alvirrubros a se perderem de vez na atual campanha. O time se mostrou um degrau abaixo de Borussia Dortmund e Atlético de Madrid na Champions. E na liga, apesar da sequência dura no começo da campanha, os resultados deixaram de acontecer mesmo contra adversários fracos, como o Angers e o Rennes. A esperada reação não se concretizou. O caminho seria renovar as ideias.

O Monaco possui um bom elenco, apesar de jogadores envelhecidos e em queda. Djibril Sidibé, Kamil Glik, Jemerson, Youri Tielemans, Nacer Chadli e Radamel Falcao García são nomes suficientes para reerguer a equipe. Há ainda talentos ascendentes, como Pietro Pellegri, uma tacada de mestre da diretoria. Resta saber quem será o homem responsável por comandar essa guinada. O nome mais cotado é o de Thierry Henry. O veterano é elogiadíssimo pelo que desenvolveu na seleção belga e se tornou a vedete recente do mercado. No Estádio Louis II, há um apelo especial, sobretudo por seu histórico por lá e pela aura que suscitará. Cenas aos próximos capítulos.

Enquanto isso, Leonardo Jardim estará livre no mercado. O início de temporada ruim mancha um pouco sua imagem, assim como a badalação maior pelo fantástico 2016/17 já passou. Ainda assim, continua com um mercado grande para saltar rumo às principais ligas da Europa, quem sabe a um clube de tradição. Considerando a influência que os treinadores portugueses têm exercido na Premier League, não surpreenderia se o seu nome surgir a partir da próxima demissão. Além disso, fica a impressão de que este não será um capítulo final no Monaco. Por aquilo que construiu, o lusitano está garantido na história da agremiação. E, em outro momento oportuno, certamente sua figura será bem-vinda novamente no Louis II.


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