O Estádio Emirates recebeu o grande jogo da rodada na Premier League. O Arsenal x Manchester United tinha um peso praticamente de decisão, considerando a importância do resultado na briga pelo G-4. Os Red Devils estavam muito mais motivados, após o milagre contra o Paris Saint-Germain na Liga dos Campeões e os nove jogos de invencibilidade na liga sob as ordens de Solskjaer. Enquanto isso, os Gunners precisavam levantar a poeira, três dias depois da acachapante derrota ante o Rennes na Liga Europa e as oscilações nas rodadas recentes do campeonato nacional. E o futebol, este esporte que odeia grandes previsibilidades, permitiu que o Arsenal saísse com uma vitória nos detalhes. Não foi uma partida ruim dos mancunianos, terminando com mais posse de bola e martelando bastante. Mas, além de duas bolas na trave dos visitantes, os goleiros fizeram a diferença. De Gea falhou desta vez, em contraste a Leno, perfeito ao longo da noite. O alemão foi o melhor em campo no triunfo dos londrinos por 2 a 0, que os recoloca na zona de classificação à Liga dos Campeões.

Unai Emery entrou em campo com um meio-campo recheado ao Arsenal. O time vinha escalado no 3-5-2, com Granit Xhaka, Aaron Ramsey e Mesut Özil na faixa central. Já na linha de frente, liberdade para Pierre-Emerick Aubameyang e Alexandre Lacazette. Ole Gunnar Solskjaer, do outro lado, começava confiando no 4-4-2, com Paul Pogba e Fred servindo de pulmões no meio, além de Marcus Rashford e Romelu Lukaku no comando do ataque. Qualidade de ambos os lados, algo determinante para o bom jogo do Emirates.

O Arsenal começou melhor na partida. Tinha a iniciativa e tentava sufocar o Manchester United, trabalhando a posse de bola com objetividade. O time da casa se postava no campo de ataque e buscava as brechas, deixando os Red Devils contra as cordas. As finalizações eram constantes, embora sem tanto perigo quanto poderiam. Curiosamente, a primeira chance clara de gol veio do outro lado. E os visitantes poderiam ter saído em vantagem no placar, com o gol negado por centímetros. Após cruzamento de Luke Shaw pela esquerda, Lukaku se antecipou à marcação e arrematou em direção ao chão. A bola quicou e até venceu o goleiro Bernd Leno, mas ganhou altura demais. Acabou estalando o travessão. O lamento se ampliaria pouco depois.

Afinal, o Arsenal já abriu o placar aos 12 minutos. Granit Xhaka finalizou de fora da área, em um chute um tanto quanto despretensioso. A bola, porém, pegou um efeito enorme. David De Gea deu um passo em falso ao lado contrário e foi pego no contrapé, não conseguindo se recuperar. Falha feia do goleiro, que talvez arranje alguma desculpa no vento intenso ou na visão encoberta. Nada que alivie sua culpa. O United, de qualquer maneira, tinha que se recobrar do prejuízo. Na sequência, os Red Devils esbarrariam na trave outra vez. Fred mandou uma bola no capricho de média distância, fazendo curva para fora. O chute beijou o pé da trave, dando a impressão de que Leno ainda deu uma triscadinha com a ponta dos dedos.

Embora o Arsenal continuasse com mais posse de bola, o Manchester United começou a apresentar uma postura mais agressiva no fim do primeiro tempo. Buscava o ataque e tinha uma postura mais intensa, graças à presença física de seus jogadores. Além disso, Solskjaer soltou mais os seus alas, com Diogo Dalot e Luke Shaw avançando bastante na adaptação do sistema para um 3-5-2. Só que a insistência dos Red Devils não se materializava em muitas oportunidades. Na melhor delas, Lukaku avançou na marra e Leno se agigantou à sua frente para defender.

O United voltou ainda mais ligado para a etapa complementar e, dominante, também arriscava mais finalizações. Aos cinco minutos, aconteceu o lance capital do jogo. Rashford entregou o presente a Lukaku e o centroavante estava dentro da área, pronto a definir. Depois de soltar a bomba, viu Leno fazer uma defesa milagrosa, esticando a perna para desviar o chute à queima-roupa. O movimento espetacular ressaltava a boa atuação do goleiro, que continuou segurando a diferença. Depois de um míssil de Rashford para fora, o alemão sairia nos pés do atacante inglês para impedir que ele empatasse aos 19. Só depois é que seu time despertou.

Recobrando uma postura mais propositiva, o Arsenal voltou a empurrar o United contra seu campo de defesa a partir dos 20 minutos. Começou a criar jogadas dentro da área dos visitantes e, aos 24, saiu o segundo gol. Fred cometeu um pênalti sobre Lacazette e, na cobrança, Aubameyang mandou para as redes. O tento atordoou os Red Devils, que perderam o fôlego. Os Gunners continuaram indo para cima e ficaram muito próximos do terceiro, em batida de Lacazette que seguiu para fora. Só depois é que Solskjaer começou a acionar o seu banco, mandando Anthony Martial a campo no lugar de Dalot. Unai Emery, por outro lado, preferia resguardar o seu time, renovando a energia no meio-campo para aguentar a ofensiva adversária nos minutos finais. Só que o avanço do United não deu muitos frutos. O sistema defensivo do Arsenal manteve a segurança, com menção especial à boa partida de Ainsley Maitland-Niles pela direita. Depois de uma longa pressão sem arremates, Leno pegou seguro a cabeçada de Rashford, último suspiro dos mancunianos no norte de Londres.

O resultado excelente ao Arsenal deixa a briga pelas vagas na Liga dos Campeões ainda mais interessante. O Tottenham é o terceiro colocado, vagaroso em seus 61 pontos. O Arsenal toma a quarta posição, com 60. O Manchester United cai para o quinto lugar, somando 58. E o Chelsea poderia até estar em melhores condições após o tropeço deste domingo, mas vem com 57, além de um jogo a menos que os três concorrentes. Cenário totalmente incerto, que aumenta as emoções para as oito rodadas finais. Ainda que o maior embalo seja dos Red Devils, os Gunners demonstraram que ainda há muita água por rolar.

Especialmente após o baque sofrido na Liga Europa, o Arsenal renova sua motivação. Esta vaga no G-4 será a prioridade do clube nos próximos meses, com uma tabela mais tragável na reta final da Premier League. E, em sua primeira temporada no Emirates, o saldo é razoável a Unai Emery durante os “grandes jogos”. Foram três vitórias, três empates e quatro derrotas contra os adversários do chamado Big Six – Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham. O aproveitamento de 40% está longe de ser algo espantoso, mas já o melhor do clube desde a temporada 2013/14, quando também faturou 12 pontos nos 10 embates. Algo essencial para deixar os londrinos novamente no páreo pela Champions.