Flamengo, Corinthians, Palmeiras. Em um país no qual a organização do basquete muitas vezes caminhou lado a lado com o futebol, algumas das maiores torcidas do Brasil tiveram o gosto de idolatrar Oscar Schmidt com as cores de seu clube. O Mão Santa, como qualquer garoto brasileiro, gostava de chutar sua bola pelas ruas de Natal e até sonhou seguir a carreira pelos gramados. Entretanto, para a sorte do basquete nacional, seu destino foi outro e marcou a história da modalidade. As quadras ganharam o seu maior cestinha, que, por outras vias, pôde de brilhar por alguns dos gigantes do país. Lenda que completa 60 anos nesta sexta, e merece todas as considerações por suas façanhas esportivas.

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Enquanto a carreira de Oscar quase sempre é exaltada por aquilo que viveu na seleção brasileira, vale lembrar que o craque também construiu uma trajetória excepcional por clubes. E não apenas no Brasil. Na mesma época em que a Itália desfrutava de seus anos dourados no futebol, com tantos astros internacionais povoando os estádios da Serie A, o Mão Santa protagonizou o mesmo efeito nas quadras. As décadas de 1970 e 1980 marcaram um período memorável para o basquete italiano, em que os times do país apareciam entre os melhores da Europa. O cestinha brasileiro era uma das estrelas internacionais que ajudaram a impulsionar este momento.

A passagem mais marcante de Oscar pelo basquete italiano aconteceu na JuveCaserta. Apesar do nome e das cores bianconeri, a equipe não tinha ligação direta com a Juventus do futebol. A escolha, de qualquer maneira, não tinha sido aleatória: seu fundador era tifoso fanático da Velha Senhora e fez a homenagem quando criou a agremiação, em 1951. No fim das contas, o tributo até poderia parecer um contrassenso, décadas depois. Afinal, Caserta fica na Campânia, sul da Itália, e boa parte dos seguidores desta Juve, na realidade, torcem também para o Napoli no futebol. Não à toa, entre os ilustres que costumavam visitar as quadras para assistir ao Mão Santa estava ninguém menos do que Diego Armando Maradona, em seu auge pelos celestes.

Ao contrário da Juventus homônima, a JuveCaserta não era tão bem sucedida na Serie A do basquete. Nos oito anos em que Oscar defendeu o clube, por mais que os bianconeri frequentassem os playoffs, não conquistaram o Scudetto. Foram duas vezes vice-campeões, derrotados nas finais pela poderosa Olimpia Milano – dos americanos Mike D’Antoni e Bob McAdoo. O único título de Oscar aconteceu em 1988, faturando a Coppa Italia sobre a Varese. Por outro lado, individualmente, o brasileiro destoava. Em seis anos consecutivos ele terminou como cestinha do Campeonato Italiano, de 1984 a 1989. Magia que transformou o garoto Kobe Bryant – filho de Joe Bryant, que atuava na liga – em um de seus maiores fãs.

O ápice de Oscar na JuveCaserta aconteceu além das fronteiras. Por conta do título na Coppa, os bianconeri ganharam o direito de disputar a Recopa Europeia em 1988/89 – em campeonato de moldes parecidos com o que se via no futebol. Nas semifinais, os italianos eliminaram o fortíssimo Zalgiris Kaunas, do mito lituano Arvydas Sabonis. Já na decisão, o desafio da Juve era ninguém menos que o Real Madrid, potência do basquete espanhol. Aquela final costuma ser cultuada pelos fãs da modalidade como uma das maiores de todos os tempos. Inclusive, por aquilo que protagonizou Oscar no jogo disputado em Pireu, na Grécia.

Se a Snaidero JuveCaserta (chamada assim na época por questões de patrocínio) confiava em Oscar Schmidt, o Real Madrid também contava com o seu gênio: Drazen Petrovic, considerado um dos melhores da história do esporte. Meses antes, quando os merengues contrataram o iugoslavo junto ao Cibona Zagabria, também tentaram tirar o Mão Santa da Itália, mas ele preferiu reiterar seu vínculo com os bianconeri. Assim, os possíveis companheiros se tornaram adversários na decisão da Recopa. Fariam a diferença para as suas equipes.

Oscar foi magistral naquela partida. Anotou 44 pontos, com seis cestas de três, além de 16 lances livres convertidos em 17 arremessados. O problema é que Petrovic estava completamente impossível. Foram 62 pontos para o iugoslavo, com 12 cestas em 14 tentativas dentro do perímetro, além de oito bolas de três. Faltando 19 segundos, Oscar chegou a acertar uma cesta de três que empatou o jogo em 102 a 102. Acabaria forçando a prorrogação, com uma posse desperdiçada para cada lado no tempo restante. Petrovic cometeu um erro que quase colocou tudo a perder para os madridistas. Todavia, a JuveCaserta também não aproveitou os seis segundos que faltavam. No estouro do cronômetro, o armador Nando Gentile sofreu uma falta, mas os árbitros assinalaram que o relógio havia zerado no momento do contato.

Na prorrogação, quatro jogadores titulares dos bianconeri (incluindo Oscar e o próprio Nando Gentile) acabaram excluídos por ultrapassarem o limite de faltas, assim como dois merengues. Com o caminho livre, ficou mais fácil para Petrovic determinar o título do Real Madrid. O iugoslavo somou 11 pontos no período extra, determinando a vitória por 117 a 113. Entretanto, os questionamentos sobre a arbitragem pairaram entre os torcedores da Juve – inclusive Maradona, que faz menção ao episódio no vídeo acima.

Petrovic deixou o Real Madrid já na temporada seguinte, juntando-se ao Portland Trail Blazers. Oscar, por sua vez, permaneceu na JuveCaserta por mais um ano, antes de se transferir à Pallacanestro Pavia. O Mão Santa ficou na Itália até 1993, antes de uma rápida passagem pelo Valladolid. Depois, voltaria ao Brasil, para encerrar a sua carreira atuando por Corinthians e Flamengo, entre outros clubes. Uma trajetória respeitabilíssima. E que não deixa de possuir as suas intersecções com o futebol.