A um clube que atravessou diferentes períodos gloriosos ao longo de sua história, a lista de grandes ídolos sempre será extensa. O San Lorenzo, com ao menos um título nacional por década desde os anos 1920 (exceção feita à seca que se estendeu pelos anos 1980), está entre estas instituições respeitáveis. A relação de lendas do Ciclón é recheadíssima e vai de Luis Monti a Beto Acosta, passando ainda por gigantes do porte de René Pontoni, José Sanfilippo, Narciso Doval, Roberto Telch, Héctor Veira, Sergio Villar, Isidro Lángara e outros tantos que poderiam ter sua carreira esmiuçada ao longo do dia. Neste panteão de craques, porém, os cuervos aprenderam a amar um nome em especial. Em 13 de dezembro de 1998, aos 17 anos, Leandro Romagnoli estreou como uma talentosa promessa das categorias de base. Vinte anos depois, ‘Pipi’ é o jogador que mais ergueu taças com a camisa azulgrana e, mais notável ainda, aquele que rompeu as angústias do clube na Libertadores. Natural que sua despedida, realizada neste sábado, contasse com todas as honras sanlorencistas. Uma tarde de emoção no Nuevo Gasómetro.

Romagnoli aprendeu a amar o San Lorenzo desde cedo – ainda que seja filho de um ex-jogador do rival Huracán e tenha passado pelo Globo na infância. Levado posteriormente a Bajo Flores, por influência de sua mãe, viu o seu talento talhado no Ciclón. Estrearia naquele dia de 1998 pelas mãos de outro ídolo cuervo, Óscar Ruggeri, que o conhecia desde as categorias de base. E a afirmação não demoraria a acontecer. Em 2001, Pipi conquistou seu primeiro título, o Clausura de 2001. Era a referência técnica de uma equipe com outros jovens, incluindo Sebastián Saja, Fabricio Coloccini, Walter Erviti e Bernardo Romeo, todos comandados por Manuel Pellegrini. E um passo ainda maior seria dado nos meses seguintes. No início de 2002, em meio à tumultuada crise na Argentina, os azulgranas faturaram a Copa Mercosul derrotando o Flamengo na decisão. O jovem meia era o maestro que conduzia o clube à sua primeira conquista continental. A seca internacional se encerrava.

Em 2002, Romagnoli protagonizaria ainda mais. O San Lorenzo havia passado por mudanças sensíveis e mudou várias peças após o título da Mercosul. Ainda assim, se manteria competitivo, a ponto de conquistar a Copa Sul-Americana em sua edição inaugural. O camisa 10, que já sofria com as lesões, seria decisivo na nova façanha, atropelando o Atlético Nacional na decisão. As duas taças sul-americanas rompiam um desejo sanlorencista. Ainda assim, havia uma enorme cobrança para que o ‘Club Atlético Sin Libertadores de América’ (brincadeira comum feita com a sigla ‘CASLA’) pudesse faturar o principal troféu do continente, como todos os outros grandes argentinos. A ambição continuava intacta.

A carreira de Romagnoli teve os seus descaminhos. Encarou as lesões constantes, sobretudo nos joelhos, e rodou o mundo a partir de 2004. Defendeu Tiburones Rojos de Veracruz e Sporting, sob a impressão de que o talento irresistível que surgiu na base do San Lorenzo nunca desabrocharia de fato. Contudo, a casa de Pipi era mesmo o Ciclón. E seu retorno ao clube, em 2009, iniciou um novo ciclo de feitos.

Nem tudo foram flores nesta caminhada. O camisa 10 precisou lutar contra o rebaixamento do San Lorenzo no primeiro semestre de 2012 e se tornou um dos principais responsáveis pela permanência na primeira divisão. Seus passes precisos abriram caminho a verdadeiros milagres, em reta final de campanha na qual os cuervos já pareciam condenados à segundona e se safaram. Todavia, apesar das crises encaradas pelo clube, as alegrias também não tardariam. Até parecia impossível, mas um ano depois os cuervos já recebiam o troféu de campeões nacionais. Em dezembro de 2013, 15 anos depois de sua estreia, o velho craque era campeão argentino novamente – após meses particularmente atribulados, com mais problemas físicos minando suas aparições. O craque teve participação ativa em uma disputa bastante apertada – como bem conta o Futebol Portenho, neste artigo detalhando a campanha, assim como seus antecedentes.

O Torneio Inicial de 2013, além do vice na Copa Argentina do mesmo ano, seriam prenúncios do que se consumou em 2014. O San Lorenzo teria mais uma oportunidade na Copa Libertadores. Mais uma oportunidade de negar os seus traumas. E ainda que tenha flertado seriamente com a eliminação precoce na fase de grupos, dependendo de uma virada milagrosa na reta final para avançar as oitavas, os mata-matas apresentaram outro time. Viram o Ciclón dos Milagres, em uma edição totalmente atípica do torneio continental. A equipe de Edgardo Bauza, Sebastián Torrico, Juan Mercier, Néstor Ortigoza, Ignacio Piatti, Ángel Correa e Héctor Villalba foi derrubando favoritos. Eliminou Grêmio e Cruzeiro graças às defesaças de seu goleiro sob as traves, ganhou confiança ao atropelar o Bolívar nas semifinais, alcançou o inédito superando o Nacional Querido na finalíssima. Enfim, a Libertadores seguia ao Nuevo Gasómetro. E com a presença de Pipi, símbolo incorruptível do esplendor azulgrana.

Romagnoli tinha um pré-contrato para deixar o San Lorenzo logo após a competição. Estava apalavrado com o Bahia. O sucesso do time de coração, porém, fez o maestro mudar de ideia. Nunca mais ele deixaria o Nuevo Gasómetro. E seu desejo de disputar o Mundial de Clubes se cumpriu, mesmo que o título não tenha acontecido contra o Real Madrid. O velho armador era como mais um torcedor dentro de campo. O velho representante da paixão sanlorencista, aquela que nunca dependeu dos títulos, mas que se torna mais evidente aos olhos do mundo a partir deles. No Natal daquele 2014 mágico, o veterano chegou mesmo a escrever uma carta de agradecimento à multidão de cuervos que acompanhou a equipe na viagem até o Marrocos.

A partir de 2015, os feitos da carreira de Romagnoli seriam mais modestos. O San Lorenzo bateu na trave duas vezes no Campeonato Argentino, vice-campeão em ambas, e se contentou apenas com uma Supercopa no período. Além do mais, a idade e o histórico de contusões cobravam seu preço sobre o corpo do velho maestro. No último mês de junho, aos 37 anos, Pipi pendurou as chuteiras de vez. Mas não para se afastar do Ciclón, assumindo o cargo de gerente de futebol dentro do clube. Não poderia ser diferente com aquele que mais conquistou títulos com o Sanloré, que mais vezes atuou no Nuevo Gasómetro, o terceiro com mais partidas oficiais pelo clube. Definitivamente uma lenda, que fez a torcida experimentar algumas de suas maiores euforias, parte delas desconhecidas até então. Os cuervos ganharam expressividade ao restante do continente muito graças ao idolatrado camisa 10. E essa contribuição é inigualável – pela Mercosul, pela Sul-Americana, pela Libertadores.

Como haveria de ser, neste sábado, o adeus de Romagnoli no Nuevo Gasómetro foi grandioso. Disputaram o amistoso de despedida duas equipes, uma formada pelos heróis de 2001 e outra pelos campeões de 2014. Estiveram presentes diversos ídolos históricos azulgranas, de Bernardo Romeo a Ignacio Piatti. Os momentos mais emocionantes, de qualquer maneira, envolveram Pipi. O camisa 10 entrou em campo acompanhado por suas filhas e recebeu a visita surpresa de seu pai, Atilio. Não conteve as lágrimas, em caloroso abraço. “Muito obrigado a todos. Não tenho palavras para expressar o que sinto. Vocês me bancaram sempre, nas boas horas e nas ruins. Vou sentir saudades”, declarou o craque, emocionado, diante da multidão que lotou as arquibancadas e as coloriu para o adeus.

A carreira de Romagnoli sempre será acompanhada pelo questionamento inescapável de que o camisa 10 nunca atingiu seu máximo potencial. E, de fato, pensando estritamente em seu talento, a impressão é esta. O garoto com uma facilidade impressionante aos dribles e uma visão acima do comum tinha capacidade para ao menos jogar alguns anos em alto nível na Europa – chegou até a se aproximar do Bayer Leverkusen, no auge do clube no início do século, em negócio que não se concretizou apenas pelos trâmites finais. As insistentes lesões, afinal, dilapidaram o futuro promissor do jovem craque.

Porém, esses pensamentos caem por terra quando se pensa no San Lorenzo. O que se pede a um grande ídolo? Que conquiste títulos notáveis, que honre a camisa acima de todas as coisas, que deslumbre a torcida com sua magia, que dê seu suor nas dificuldades. Tudo isso Pipi fez, ao longo de seus 16 anos defendendo os cuervos profissionalmente. Mais do que isso, transformou-se no profeta que livrou a agremiação do inferno da segundona e concluiu a travessia sanlorencista no deserto da Libertadores. Deixou seu povo no oásis do êxtase continental. São raríssimos os capazes de uma façanha deste tamanho. Assim, independentemente do que não ocorreu, Pipi é lenda por tudo o que viveu. Uma lenda que terá sua história contada e recontada por décadas, em Boedo, em Almagro, em Bajo Flores e em outros cantos da América do Sul.