O nome de Jeff Astle sempre estará marcado na história do West Bromwich. Entre os 174 gols que o jogador anotou com a camisa dos Baggies, um deles foi o que deu o quinto e último título da Copa da Inglaterra ao time de Hawthorns, conquistado suadamente diante do Everton, em 1968. Jeff, porém, morreu sem se lembrar deste e de outros grandes feitos que havia realizado enquanto jogador. Foi embora, inclusive, sem sequer saber que havia trilhado uma carreira no futebol, aos 59 anos. Segundo a Justiça do Reino Unido, as lesões ao cérebro que causaram sua morte podem ser consideradas um “acidente de trabalho”, já que provavelmente são resultado de anos e anos cabeceando bolas de futebol – que, naquela época eram mais pesadas do que as de hoje. Este ano, completam-se 15 anos desde seu falecimento, mas seu caso e a questão por trás dele continuam presentes em estudos, discussões e apelos, como o feito por Ian St. John, lenda do Liverpool nos tempos de Bill Shankly e e membro do time que conquistou dois campeonatos e uma Copa da Inglaterra para os Reds entre 1963 e 1966.

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St. John, hoje aos 78 anos, continua batendo na tecla de que o futebol deve se responsabilizar pelos casos de demência, Alzheimer e outras enfermidades e condições cerebrais e mentais de ex-jogadores profissionais. Em entrevista recente à BBC Radio 5, ele disse que muitos de seus ex-companheiros de esporte hoje sofrem com doenças da cabeça, e ele acredita que elas sejam resultado da prática do cabeceio de bola na década de 50 e 60, quando o material do qual era feito o principal instrumento do futebol o tornava muito pesado. “Os jogadores da nossa época, as bolas com as quais jogávamos eram grandes e muito pesadas. Para levantá-las para fazer um lançamento, tínhamos que fazer um treinamento especial. As condições em que nós jogávamos – debaixo de neve, chuva e lama – e treinávamos todos os dias também tinham influência nisso”, comentou o ex-jogador durante a entrevista.

“Se esse problema de demência apressa o fim de sua vida ou não, eu não sei. Não sou médico para dizer. Mas o que eu estou falando é que esses eram meus amigos, esses eram os caras com quem eu joguei e hoje muitos deles têm esses problemas”, falou ainda. “Penso que se alguém precisa de cuidado especial como resultado de sua carreira e sua carreira foi no futebol, então o futebol deve pagar pelos cuidados”, complementou, opinando que a federação e as demais autoridades do futebol deveriam custear tratamentos e tudo o que for necessário para o amparo de ex-jogadores profissionais que enfrentam o mesmo problema pelo qual passou Jeff, e que, segundo St. John, não são poucos. Martin Peters, Nobby Stiles e Ray Wilson, três jogadores que estiveram no elenco da seleção inglesa campeã da Copa do Mundo de 1966, são três entre alguns exemplos citados pelo escocês.

O caso do ídolo do West Brom é o mais notável quando o assunto é a deterioração da saúde cerebral de ex-jogadores ligada exclusivamente à prática do cabeceio no passado, mas estudos recentes comprovam que a técnica no presente também causa danos ao cérebro e à memória a curto prazo. Mesmo que a estrutura da bola tenha mudado, a sequência desse tipo de impacto compromete a memória e altera as funções cerebrais dos atletas pouco tempo depois de um treino ou de um jogo. Isso segundo uma série de experimentos realizados pela Universidade de Stirling, na Escócia. Os estudos quanto aos danos a longo prazo seguem, embora muitas pesquisas médicas já mostrem há tempos que o futebol causou problemas de saúde a jogadores em épocas passadas por conta dos impactos da bola. E St. John irá até o fim na luta pelos direitos de seus ex-colegas de esporte nesse sentido.