Nas últimas três décadas, não houve momento mais desafiador para a hegemonia de Barcelona e Real Madrid no Campeonato Espanhol do que o início dos anos 2000. Três vezes num intervalo de cinco anos, os todo-poderosos tiveram os seus planos frustrados. Enquanto os blaugranas atravessavam um período difícil de renovação, os merengues não conseguiam manter o mesmo ímpeto em todas as frentes de disputa, abrindo a mão da Liga em prol da Champions. Assim, outros timaços se afirmaram. Tempos em que Deportivo de La Coruña e Valencia não ficavam devendo para as potências, também erguendo a taça.

O Depor foi o primeiro a celebrar neste novo momento, depois de muito ensaiar o seu primeiro título. Em 1999/00, a façanha finalmente se concretizou. Já o Valencia ficou com o caneco em 2001/02. Em 5 de maio, há exatos 15 anos, os Ches derrotaram o Málaga por 2 a 0 e ratificaram conquista, após ocuparem a primeira colocação durante boa parte da reta final da campanha. Feito digno, um ano depois de terem perdido a decisão da Champions para o Bayern de Munique, em amarga disputa por pênaltis em Milão.

Dono de quatro taças do Espanhol até então, o Valencia não vivia a glória desde 1971. Todavia, as boas campanhas na virada do século começaram a credenciar o time. Primeiro, sob as ordens de Claudio Ranieri, faturou a Copa do Rei em 1999. Héctor Cúper conseguiu um terceiro lugar na Liga, além de liderar os Ches à decisão da Champions em 2000 e 2001. Entretanto, o grande artífice do triunfo seria um técnico relativamente novato, contratado após a saída do argentino para a Internazionale: Rafa Benítez. Ex-defensor de carreira modesta, o novo comandante nunca tinha treinado equipes de ponta. Rodara por clubes médios, até ganhar a grande chance no Mestalla.

De fato, o trabalho de Benítez já tinha uma excelente base. Ao longo dos anos anteriores, o Valencia moldou o elenco campeão espanhol. A partir de 1997, as primeiras peças começaram a se encaixar. Alguns jogadores importantes saíram ao longo do processo, como Cláudio López e Francisco Farinós. Os Ches, de qualquer maneira, não deixaram de investir pesado. As apostas mais caras vieram entre 1999 e 2000, quando o time voltou a figurar na Liga dos Campeões. No entanto, a ausência da competição continental em 2001/02, provocada pela inesquecível bicicleta de Rivaldo, fechou as torneiras para contratações. A diretoria priorizou a manutenção do grupo, embora não tenha negado a bolada oferecida pela Lazio a Gaizka Mendieta, único protagonista a sair após o vice na Champions.

Desta maneira, sem se distrair tanto com a Copa da Uefa, o Valencia concentrou suas forças no Campeonato Espanhol. E contava com um elenco homogêneo e tarimbado para buscar as primeiras colocações na tabela. Santiago Cañizares era o paredão dono do gol, muito bem assessorado por Andrés Palop na reserva. A defesa se centrava em diversos medalhões, como Roberto Ayala, Amedeo Carboni, Mauricio Pellegrino e Miroslav Djukic – embora alguns jovens ganhassem espaço, como Carlos Marchena, Curro Torres e Fabio Aurelio. Com apenas 27 gols sofridos, a consistência atrás se transformou em um grande diferencial ao longo da campanha.

O esteio do meio de campo era David Albelda, formado nas categorias de base e ídolo absoluto no Mestalla. Ao seu lado, na faixa central, Rubén Baraja era outro símbolo dos Ches. Para as meias, as opções mantinham o bom nível com Francisco Rufete, Kily González e o então promissor Vicente. Pablo Aimar era o toque de talento para orquestrar a equipe na armação. Por fim, a linha de frente variava bastante, por vezes com um homem enfiado, em outras com dois parceiros se revezando. Miguel Angulo, Salva Ballesta, Mista, Juan Sánchez, John Carew e Adrian Ilie ofereciam numerosas alternativas. Curiosamente, nenhum atacante anotou mais de cinco tentos na campanha. O artilheiro foi Albelda, com modestos sete gols. O ataque foi apenas o sexto melhor da competição.

Apesar da estreia contundente, derrotando o Real Madrid por 1 a 0, com gol de Angulo, o Valencia oscilou demais durante o primeiro turno. Empatou em excesso, variando entre a terceira e a sétima colocação. Entretanto, aquele campeonato foi bastante parelho. E, quando começaram a pegar embalo, os Ches dispararam. As três vitórias consecutivas no início de fevereiro impulsionaram o time ao topo da tabela. Então, a máquina engrenou. Foram dez vitórias nas últimas 12 rodadas, perdendo apenas para o Rayo Vallecano e empatando com o Mallorca. Na arrancada, chegaram a bater Barcelona e Deportivo. E os merengues, principais concorrentes a partir de março, não aguentaram o ritmo. Lutando por La Novena na Champions, o clube da capital ficou pelo caminho.

Com uma rodada de antecedência, o Valencia já assegurou o troféu. Visitou o Málaga em La Rosaleda e venceu, com tentos de Ayala e Fábio Aurélio. Deixou a festa para o reencontro com a torcida no Mestalla, na partida final. Bateu o Betis por 2 a 0, em enorme recepção de seus fanáticos. No fim das contas, o Real Madrid ainda perdeu o segundo lugar para o Deportivo, embora tenha se recompensado com a orelhuda, na memorável decisão continental ante o Bayer Leverkusen abrilhantada por Zinedine Zidane. Os Ches acumularam sete pontos de vantagem na primeira colocação, além de sofrerem apenas cinco derrotas, metade de seus principais concorrentes. Não fossem os empates do início da empreitada, seria até mais fácil.

A preservação do elenco foi talvez o maior trunfo do Valencia naquele ciclo vitorioso. Terminaram apenas na quinta posição na temporada seguinte, além de caírem nas quartas de final da Champions para a Internazionale – algoz também na Copa da Uefa do ano anterior. Ao menos compensaram em 2003/04, com mais um título do Espanhol e a Copa da Uefa em cima do Olympique de Marseille. Depois disso, as mudanças foram graduais. Rafa Benítez seguiu ao Liverpool, alguns jogadores esforçados caíram de nível, nem todas as contratações se adaptaram. Ainda assim, confiando bastante em jovens, o Valencia se manteve como um clube respeitável até a virada da década. Os problemas financeiros e a irregularidade dos últimos anos, contudo, tornam os times campeões no Mestalla uma mera lembrança empoeirada.