Torcedor acredita sempre, é de sua natureza acreditar. Mesmo o mais corneteiro acredita, e o palmeirense é um especialista pós-graduado em cornetagem e em desconfiança. Por isso, o 12 de junho de 1993 começou tão alviverde quanto alvinegro, ainda que o jogo de ida da final do Campeonato Paulista tenha terminado com vitória do Corinthians. O Palmeiras teve direito a metade das arquibancadas do Morumbi para a decisão, e ocupou cada centímetro de seu espaço. Havia confiança, mas havia tensão acima de tudo.

O Palmeiras tinha uma das melhores oportunidades de acabar com a maior estiagem de títulos de sua história. Levou o Paulista de 1976, mas, depois disso, forjou o caráter de duas gerações alviverdes com situações inacreditáveis, eliminações inexplicáveis. Até o mais cético acreditava que parecia ação de uma força maior para maltratar os corações verdes.

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Em 1979, o timaço de Telê Santana deu o azar de cruzar com o timaço do Internacional de Ênio Andrade no Brasileiro. Levou a melhor quem tinha Falcão. A má gestão do final dos anos 70 — que levou ao impeachment do presidente Jordão Bruno Sacomani — estourou na virada da década, com uma crise que levou o clube a péssimos resultados durante alguns anos. O time se recuperou, mas aí acumulou frustrações contra times do interior: XV de Jaú (1985), Internacional de Limeira (1986), Bragantino (1989) e Ferroviária (1990). Salvo a de 1989, todas jogando em São Paulo.

Tudo isso estava acumulado naquele 12 de junho de 1993. Ter o melhor time não era o suficiente. Não vinha sendo naqueles confrontos contra um aguerrido — e limitado — Corinthians: os alvinegros haviam vencido os dois confrontos mais recentes, ambos pelo Paulista, por 3 a 0 na fase de classificação e 1 a 0 (o do “gol porco” de Viola) no jogo de ida da decisão. Por isso, não há alviverde que ignore o quão nervoso estava naquele dia em que o Palmeiras precisava vencer no tempo normal para forçar a prorrogação, quando jogaria pelo empate.

Foi uma vitória tranquila: 3 a 0 nos 90 minutos, mais 1 a 0 na prorrogação. Com dois a menos em campo desde o segundo tempo, não havia possibilidade de o Corinthians reagir. Mas as unhas só deixaram de ser roídas no apito final de José Aparecido de Oliveira. Era muita zica e, se o XV de Jaú de Wilson Mano ou a Inter de Limeira de Tato causaram tanto estrago, por que não o Corinthians de Neto com dois a menos? Tem coisas que só acontecem com o Botafogo, mas todo palmeirense tinha certeza que certas coisas também só aconteciam com o Palmeiras.

Como acabar com a zica? Com um esquadrão histórico. O Palmeiras de 1996 é muito lembrado pelas goleadas absurdas e campanha irretocável no Paulista, mas, em uma perspectiva de longo prazo, o time de 1993 era tão bom ou até melhor quanto o dos 102 gols: Sérgio; Mazinho, Antônio Carlos, Tonhão e Roberto Carlos; Amaral (suspenso na final, deu lugar a Daniel Frasson), Cesar Sampaio, Zinho e Edílson; Edmundo e Evair.

Essa base foi mais que a formação que tirou o Palmeiras da fila. Ela marcou uma época, tanto em conjunto quanto individualmente, depois que o grupo se desfez. Naquele período, o Brasil se preparava para disputar as Eliminatórias da Copa de 1994, tanto que a final do Paulista foi realizada em um sábado para abrir espaço para a TV transmitir Brasil x Inglaterra pela US Cup (torneio amistoso que servia de evento-teste dos Estados Unidos para o Mundial) no dia seguinte.

Claro, nenhum palmeirense estava com a camisa amarela no empate por 1 a 1 em Washington, mas quatro (Mazinho, Antonio Carlos, Zinho e Evair) foram convocados por Carlos Alberto Parreira para as Eliminatórias. Zinho e Mazinho seguiram no time e conquistaram o tetra nos EUA. Em 1996, Amaral e Roberto Carlos conquistaram o vice da Copa das Confederações e o bronze olímpico. Mais dois anos e três membros do Palmeiras de 1993 defenderam o Brasil na Copa de 1998: Roberto Carlos, Cesar Sampaio e Edmundo. E, quatro anos depois, Edilson e Roberto Carlos fechariam a relação daquele time com o Brasil conquistando o penta. Até o técnico, Vanderlei (conhecido como Wanderley em 1993) Luxemburgo passou pela Seleção.

Em um mundo que já se globalizava, com novos países surgindo como destino de jogadores brasileiros e a Europa se abrindo para mais estrangeiros, foi impossível o Palmeiras manter aquela base de 1993 ao longo da década. Ainda assim, um time praticamente igual a esse (Cléber entrou no lugar de Tonhão, Mazinho substituiu Amaral no meio-campo, dando espaço para a entrada de Gil Baiano na lateral direita) foi campeão brasileiro, acabando com a fila de 20 anos do clube sem conquistas nacionais.

No ano seguinte, poucas mudanças: Gato Fernández (pai do botafoguense Gatito) entrou no gol, Cláudio substituiu Gil Baiano e Rincón entrou na rotação entre o meio e o ataque com Edílson e Edmundo. O Palmeiras conquistou o bicampeonato paulista. No segundo semestre, Mazinho e Roberto Carlos saíram, mas chegaram Rivaldo e Flávio Conceição. Foi o suficiente para levar o bicampeonato brasileiro.

O segundo título nacional, que completava uma trajetória de quatro grandes conquistas em dois anos, foi o fim desse grupo. A história que começou com uma vitória sobre o Corinthians no Paulista de 1993 se completou com o título sobre o mesmo adversário na decisão do Brasileiro de 1994. A comemoração nem havia acabado direito e o clube anunciou que Cesar Sampaio, Zinho e Evair estavam vendidos ao Yokohama Flügels, do Japão.

O Palmeiras seguiu competitivo e formou ainda outras grandes equipes na década de 1990, mas já não era mais aquele esquadrão de 1993-94. Um time com tantos talentos que foi capaz de superar até a tensão e a zica da maior fila da história alviverde.


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