Quem é leitor de longa data desta coluna já sabe que ela iniciou-se falando sobre o futebol de todo o chamado “Benelux”. Sabe, também, que ela passou a se focar somente no que ocorre na Holanda, desde o último semestre do ano passado. E sabe, mais ainda, que ela prometeu falar do futebol da Bélgica, sempre que julgasse importante. Até porque a geração que saiu da terra de Kim Clijsters, Eddy Merckx e da Stella Artois anda sendo incensada Europa afora. Com justiça, diga-se de passagem.

Então, nada melhor do que falar de como anda o Campeonato Belga agora, que ele chega às fases finais. Não custa lembrar: após as trinta rodadas da primeira fase, os seis primeiros colocados disputam o título nacional. Os oito clubes seguintes na tabela são divididos em dois grupos de quatro equipes, cujos vencedores disputam quem enfrentará o quarto colocado do hexagonal pelo título por uma vaga na Liga Europa. Penúltimo e último colocado jogam uma melhor de cinco (o penúltimo sai com três pontos de bônus), na qual o pior time cai para a segunda divisão.

E, ao contrário do que se vê na Holanda, há um clube que anda tranquilo na liderança do campeonato. E um clube muito conhecido: novamente, o Anderlecht dita o ritmo com facilidade na Jupiler League. A cinco rodadas do final da fase preliminar, os Mauves estão com 59 pontos, oito à frente do vice-líder. E tal desempenho é natural: de longe, a equipe é a mais entrosada na Bélgica. Conta com vários jogadores que se conhecem há pelo menos cinco anos – principalmente na defesa, em que o goleiro Silvio Proto e o capitão Olivier Deschacht viram um bom acréscimo na contratação do holandês Bram Nuytinck.

Há ainda Dieumerci Mbokani. Embora não seja o principal goleador do torneio, o congolês é o principal homem dos alvirroxos quando o objetivo é colocar a bola nas redes. Tem média de gols melhor até do que o próprio artilheiro: 16 gols em 16 jogos. Um por jogo. Não impressiona que Mbokani já queira uma nova transferência para um centro maior da Europa, para tentar apagar da memória as atuações opacas que teve nas passagens por Monaco e Wolfsburg. Além dele, o brasileiro Kanu e Tom de Sutter ainda exibem bom desempenho. Como se não bastasse, o Anderlecht ainda conta com as revelações Massimo Bruno e Dennis Praet, que já são frequentes na equipe.

Claro que ajudou para o Anderlecht ver os principais rivais fracassando na perseguição a ele. Se tinha o sonho de acabar com os sete anos sem título na liga, o Club Brugge viu que terá de se esforçar muito para realizá-lo: já tendo passado seis jogos sem vitória, os azuis e negros demitiram o técnico Georges Leekens – lembremos, Leekens deixara a promissora seleção belga só para conduzir o time ao título que já conquistara em 1989/90.

Na partida seguinte à demissão de Leekens, um clássico contra o Anderlecht, nada de solução: humilhantes 6 a 1 sofridos. Somente sob o comando do espanhol Juan Carlos Garrido é que a equipe de Bruges se recuperou levemente. Com a espinha dorsal do time refeita à base de algumas alterações táticas (como avançar o antes zagueiro Ryan Donk para o meio-campo, onde hoje é volante), e com o crescimento do colombiano Carlos Bacca, hoje artilheiro do campeonato, com 18 gols, o Brugge subiu na tabela. Não disputa a ponta, mas está em sexto lugar, disputando um lugar no hexagonal final.

Empatado em pontos com o Club Brugge (43), outro grande belga sofreu com a irregularidade. O Standard também precisou demitir seu técnico para crescer um pouco: patinando no 12º lugar, em outubro, o holandês Ron Jans deu lugar ao romeno Mircea Rednic. E os jogadores também subiram de produção. Com destaque, claro, para o nigeriano Imoh Ezekiel, que tomou o lugar de Marvin Ogunjimi para fazer gols e ajudar a equipe a melhorar – claro, além da importância de gente como o goleiro Eiji Kawashima. Só então os Rouches voltaram a subir. Hoje, já estão em quinto lugar.

Mas, com a queda dos grandes, a sorte foi de clubes antes anônimos. Como o Zulte Waregem. Contando com a volta do técnico Francky Dury, o Essevee aprimorou um entrosamento já elogiável. E, com as boas atuações de Mbaye Leye e Franck Berrier, a equipe alcançou a vice-liderança. E tem esperanças de alcançar o Anderlecht, quem sabe, no hexagonal final. Seguindo a equipe, há ainda o Lokeren, na terceira posição, contando com o experiente goleiro marfinense Boubacar “Copa” Barry, e os atacantes Hamdi Harbaoui e Ayanda Patosi. Em quarto, o Racing Genk, fiando-se nos gols de Jelle Vossen.

E assim vai o Campeonato Belga. Com alguns clubes médios superando os irregulares grandes. Mas sem responder à pergunta que o rege: alguém pode superar o Anderlecht?