Acordei num cutucão. O comandante do avião estava dando as boas vindas a Manaus (foi o máximo que consegui identificar). Então o torcedor inglês ao meu lado não se conteve e me pediu “por favor, posso olhar o rio pela janela?” “Claro”, eu balbuciei, com os olhos mais vermelhos de sono do que o saldo de gols no Brasil nesta Copa. Quando o torpor da soneca se foi, alguns segundos adiante, notei que, onde havia um inglês, bem, havia uma cabeça colada à janela do avião para ver Manaus pelo alto. Aqueles turistas todos, empolgados, mal sabiam que em pouco tempo seriam eliminados da Copa na primeira fase. Mas, talvez, o futebol fosse apenas uma entre as coisas importantes que eles esperavam viver ali, no Amazonas.

LEGADO INVISÍVEL: O Brasil é um grande Camboja. E a Copa pode mudar isso (esse texto foi escrito em dezembro de 2013)

+LEGADO: Torcida viu como a seleção precisa dela, e como ir ao jogo não precisa ser um sacrifício 

Joga bonito
Ingleses tentam jogar futebol em praça de Manaus (foto: Leandro Beguoci)

Aquelas pessoas estavam indo pela primeira vez a uma cidade no meio da Amazônia brasileira e não tinham a menor idéia do que encontrariam. Nem eles nem os brasileiros que moram em Manaus nem os brasileiros que moram fora de Manaus. Aquela cara de surpresa infantil até no sujeito mais mal encarado de alguma quebrada em Liverpool ainda resume a Copa para mim. Foi um Mundial em que as pessoas descobriram que não é preciso ter (tanto) medo assim. O inglês achou que fosse encontrar escorpiões em todos os lugares, como uma parte ruim da imprensa inglesa disse antes da Copa. Ele desembarcou e acabou descobrindo a long neck gigante (a cerveja de 600mls, aquela, que a gente divide e os ingleses acabaram tomando no gargalo mesmo).

A insegurança

Antes da Copa, brasileiros e estrangeiros estavam com os dois pés atrás – isso não é fisicamente possível (você cai, claro), mas mostra o tamanho da encrenca. Os protestos, a reação da polícia aos protestos e a já tradicional violência urbana brasileira deixaram todo mundo apreensivo durante todo o período que antecedeu o Mundial. Ainda me lembro daquela manhã de 11 de junho, indo ao aeroporto, com destino a Manaus, de uma fila de caminhões do exército enfileirados na frente da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Parecia que estávamos prestes a entrar em guerra.

E, de certa forma, nós nos preparamos para a guerra e fomos para a guerra. Na final da Copa, vastas áreas do Rio de Janeiro foram cercadas. Se você quisesse fazer qualquer manifestação, corria o risco de ser preso e acusado por alguma coisa para te manter detido por algum tempo – só não valia fazer barulho no último dia do Mundial. Em São Paulo, no último dia de Copa, pensei que a Vila Madalena estivesse sendo submetida a um arrastão. Havia dezenas de policiais na esquina de uma das ruas, como disse no texto “Na última noite da Vila Madalena, militares se destacaram na festa”. Mas era só precaução mesmo, e dava um baita frio na barriga.

A gente sabe que, por outro lado, a polícia também anda bem pressionada. Os índices que medem a violência no país não andam nada bons. Os números nunca são muito precisos, mas traduzem a sensação de que você não pode sair às ruas com a maior tranqüilidade do mundo. E isso acaba criando uma espiral na qual a gente tem cada vez mais medo. A polícia, pressionada, acaba agindo com cada vez mais força. Resultado? Você tem cada vez mais medo. Nunca se sabe quem vai atirar primeiro…

ÚLTIMA NOITE EM SP: Na Vila Madalena, a multidão mais animada foi a militar

Multidão
Multidão na rua Aspicuelta, na Vila Madalena: todo mundo no passo do pinguim (foto: Leandro Beguoci)

Por outro lado, eu me pergunto: será que o nosso medo está na mesma proporção da insegurança real do país? Digo isso porque, nestas caminhadas da Copa, eu e meus colegas da Trivela passamos por uma série de lugares pelos quais teríamos medo, ou, sei lá, receio de visitar. Em muitos destes recantos, como nos confins do centrão de São Paulo, não havia polícia ao redor. Mesmo assim, as coisas correram bem (nosso baço continua exatamente no mesmo lugar). Em Manaus, meus amigos me disseram “cuidado com essa cara de gringo na Manaus Moderna”. Manaus Moderna é um bairro na beira do rio, onde alguns ingleses chegaram de barco. Claro que dá uma sensação de frio na barriga ali, naquele porto meio abandonado. Mas voltei, tranqüilo, daquele pedaço da capital do Amazonas.

No meio do caminho, acabei encontrando um monte de gente que me ajudou a descobrir, por exemplo, um ótimo restaurante de peixe ali perto. O resultado final foi bastante positivo.

Os números

Depois da Copa, essa sensação de que tudo correu bem acabou expressa em números. Uma pesquisa do instituto Datafolha, publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, entrevistou os visitantes de outras nacionalidades que estiveram no país. Segundo o instituto, 83% dos estrangeiros consideraram o Mundial bem organizado. O número sobe quando a hospitalidade dos brasileiros é avaliada: 95% gostaram muito da forma como foram recebidos no Brasil. E a segurança, bem, a segurança foi pior do que os outros itens, mas infinitamente melhor do que a nossa percepção diria: ela teve aprovação de 60%.

É curioso pensar nesses números todos e tentar materializa-los de alguma forma. Lembro de uma noite, voltando da Arena Pantanal, em Cuiabá. Estava andando pelo centro da cidade. As ruas estavam vazias. De repente, me deu medo. Uma cidade que não é a minha. Vazia. Acendi o sinal de alerta na hora. Parei em um hotel e pedi um táxi. Eu pretendia chegar a casa onde estava hospedado a pé, mas desisti. O recepcionista foi gentil e chamou o táxi. Por essa experiência, eu diria que a hospitalidade foi bem maior do que 95%. Já a sensação de segurança foi inferior aos 60%, embora sem nada material para sustentar essa impressão.

A COPA NO CENTRO DE SP: Futebol é o ópio do povo? Então o centro de SP é overdose coletiva

Torcedores na Arena Corinthians, em São Paulo (AP Photo/Julio Cortez)
Torcedores na Arena Corinthians, em São Paulo (AP Photo/Julio Cortez)

Enquanto deixava o calor ir embora com uma boa ducha de água fria, 20 minutos depois de ter embarcado no táxi em Cuiabá, fiquei lembrando dos meus primeiros meses em Londres. Morei na Inglaterra na época em que fui fazer mestrado, entre 2009 e 2010. As ruas são escuras. A cidade tem muitas vielas. Alguns dos meus amigos, brasileiros, tinham a mesma sensação que eu: Jack, o Estripador, parecia estar sempre prestes a atacar. Mas ele nunca apareceu.

Ao longo do tempo, aquela sensação foi se diluindo na mesma medida em que passávamos cada vez mais tempo na rua – seja pelas avenidas iluminadas seja pelos becos cheios de bêbados tomando cerveja. Com neve ou com sol, tínhamos a sensação de que estava tudo bem. Mas foi só voltar a São Paulo que, imediatamente, ligamos o modo tensão de novo. Mão no bolso para evitar um furto. Olhe para trás e verifique se não está sendo seguido. Evite andar a pé no Jardim Europa quando escurece porque, afinal, a gente nunca sabe o que vai acontecer. Não sei como é ai, na sua cidade. Espero que seja melhor. Mas, em São Paulo, na dúvida, a gente toma cuidado.

Mas, na Copa, essa sensação de medo parece ter sido temporariamente suspensa. Uma pesquisa da agência de publicidade Riot, da ferramenta de monitoramento de redes sociais Scup e da Mobile Marketing Association (MMA) mostrou onde as pessoas tiravam mais fotos, por exemplo. A pessoa tinha de tirar o seu celular caro do bolso e sair por ai fotografando, dando check-in, o que fosse. E a maior parte das pessoas estava na rua. Ruas, praças e Fan Fests foram os lugares onde os smartphones foram mais usados.

Obviamente, essa pesquisa não é sobre a população brasileira. É sobre a população brasileira que tem dinheiro para comprar um smartphone e usou o aparelho na Copa. De qualquer forma, mostra que essa fatia da população, durante a Copa do Mundo, se divertiu um bocado justamente naqueles lugares dos quais nós temos tanto medo: a rua, a calçada, a praça, qualquer lugar público. O medo foi suspenso por alguns dias e pudemos ocupar a praia junto com milhares de pessoas desconhecidas, ir a Taguatinga na Fan Fest de Brasília, visitar o Vale do Anhangabaú, passar a noite na Savassi, em Belo Horizonte.

Foram momentos em que conseguimos, por alguns dias, conhecer pessoas tão diferentes de nós e que moram na mesma cidade que nós. O medo foi suspenso pela festa.

Um mundo de perguntas

Claro, o medo não foi suspenso em todos os lugares. Em alguns deles, provavelmente a sensação de insegurança aumentou porque abrigavam pessoas que foram vistas pela polícia como causa da insegurança – manifestantes, por exemplo. No meio da Copa, a polícia de Pernambuco retirou com força muito acima do tom uma série de pessoas que protestavam no cais Estelita, no Recife.

FIM DE JOGO: O dia em que os ingleses desistiram de odiar Manaus

Torcedores carregam fotos de Javier Hernandez e David Luiz em Fortaleza (AP Photo/Themba Hadebe)
Torcedores carregam fotos de Javier Hernandez e David Luiz em Fortaleza (AP Photo/Themba Hadebe)

E isso leva a uma série de perguntas após a Copa: como a gente consegue criar cidades mais seguras, espaços públicos mais ocupados e cheios de vida, sem violência pública (da polícia) e privada (dos bandidos)? Como a gente vai lidar com protestos de agora em diante? Por que a gente tem tanto medo quem não é do mesmo bairro que a gente? É um legado cheio de perguntas e sensações. Afinal, foi bom andar pelo país e descobrir cidades que nunca tínhamos ido. Caminhar por alguns bairros e se encantar com pedaços deles dos quais nunca tínhamos ouvido falar. Encontrar pessoas estranhas, ser ajudado por elas e ajudá-las. Foi uma experiência tremenda de descoberta, humana, cultural, que não pode ser interrompida de repente. É muito difícil voltar à rotina de medo, de “não vá ali”, “não viaje para tal cidade”, “evite passar por ali”, “não converse com fulano”

Porque, afinal, a Copa ajudou o Brasil a deixar de ser um grande Camboja. Paramos de olhar para os gringos como se eles fossem ETs que tinham acabado de fazer contato com a Terra. Eles puderam perceber que o Brasil era o clichê dos melhores sonhos deles e também muito mais do que isso – teve até jornalista inglês sugerindo que a FIFA transferisse o Mundial de 2018 para o Brasil.

E não foi só isso. Por alguns dias, descobrimos que quem mora em Itaquera pode ser muito parecido com alguém de Moema – e merece ter um bairro melhor, assim como quem mora nos lugares centrais da cidade.

A ideia de Clastres

Pierre Clastres é um dos mais importantes e originais antropólogos do século 20. Seus estudos sobre antropologia política são interessantíssimos porque, a partir dos seus estudos sobre os índios, Clastres constroi ideias bastante relevantes para, finalmente, construir uma hipótese para a pergunta: Como surge a violência? Ou, trazendo para a Copa: de onde surge a violência que nos faz ter tanto medo?

Klose comemorou seu aniversário com os pataxós, novos brothers dos alemães
Klose comemorou seu aniversário com os pataxós, novos brothers dos alemães

Um dos seus livros, um clássico chamado “Arqueologia da Violência”, analisa a guerra e o conflito entre diferentes etnias. Ele desconstrói várias ideias feitas – especialmente a tese de que os índios são bons selvagens, que desconhecem a violência e a guerra. Clastres mostra que a guerra era uma constante na vida de quase todas as etnias do mundo. Depois de uma longa exposição dos diferentes argumentos que tentaram explicar por que índios guerreiam entre si, Clastres chegou a uma hipótese bastante relevante: as sociedades indígenas funcionavam como sistemas que bastavam em si. Elas pouco dependiam umas das outras porque tinham pouco contato umas com as outras. Não havia muitas trocas. Isso acabou criando uma desconfiança profunda não só entre os índios do Brasil, mas em várias sociedades do mundo, de que o estrangeiro é uma ameaça. E então os índios guerreavam, e guerreavam o tempo inteiro. “A guerra impede o Estado. O Estado impede a guerra”, escreveu Clastres.

Essa hipótese conversa, e conversa muito, com as teses do sociólogo alemão Norbert Elias, autor do clássico “O Processo Civilizador”. Grosso modo, Elias queria entender como as sociedades foram se tornando menos violentas, como fomos adquirindo hábitos que, gradativamente, foram amenizando os conflitos. E nesse livro, cheio de referências históricas, ele afirma que a profunda violência da Idade Média, por exemplo, diminuiu na medida em que fomos nos tornando mais interdependentes.

Quanto mais dependentes somos uns dos outros, menores as chances de rompermos esses pactos. O custo é alto. Pense na sua vida e nas redes de relações que você tem. Quanto mais relações você tem, quanto mais ligações você tem com outras pessoas, menores as chances de você tomar atitudes intempestivas. Não impede, claro. Mas diminui as chances.

Torcida holandesa em Porto Alegre
Torcida holandesa em Porto Alegre

A Copa permitiu que uma quantidade grande de pessoas finalmente começasse a ter laços com pessoas e com regiões da cidade que era praticamente desconhecidas – e muito temidas. Uma amiga minha, a Karen Cunsolo, nasceu e viveu na zona leste de São Paulo, onde foi construído o estádio de abertura da Copa. Ela passou muito tempo da vida falando para as pessoas da faculdade, muitas de classe média e criadas na zona oeste e na zona sul, que a zona leste NÃO era o fim do mundo perigoso que elas achavam que era.  Quando as pessoas tiraram fotos de Itaquera e colocaram, felizes, nas redes sociais, a Karen cravou: Um dos melhores lados da Copa foi mostrar que dá para ir a Itaquera, tranquilo. Não é o fim do mundo. Pela primeira vez, milhares de pessoas foram para o leste da cidade. Foi a primeira experiência delas com uma parte gigante da capital paulista.

E agora?

Esta Copa deixou um enorme legado de novas experiências, sensações e ideias. Talvez a gente saia dela menos caipira, bem menos disposto a repetir a frase mais falsa do mundo, a infame “só no Brasil”. Não, não é só no Brasil que as melhores coisas do mundo acontecem – nem é só por aqui que as piores tomam forma. Mas o que seria bom, de verdade, é se essa Copa deixasse uma inquietação tremenda para todo mundo: e se essa sensação de poder encontrar gente diferente, de caminhar tranquilamente pela cidade, durasse o ano todo? E se pudesse ser assim em qualquer canto do país?

“SÓ NO BRASIL? NÃO!” Como a Copa virou uma máquina de matar chavão

Faz uma foto minha?
Faz uma foto minha? A paisagem de algumas das cidades brasileiras encantou a gringolândia (Foto: Leandro Beguoci)

Poderia acontecer muita coisa, é verdade. E uma delas, particularmente, seria sensacional: a incompreensão mútua e o desconhecimento alheio cairiam drasticamente. Não viraríamos uma comunidade hippie (não é nem esse o caso, claro), mas com certeza entenderíamos melhor quem são as outras pessoas que dividem o mesmo bairro, a mesma cidade e o mesmo país que a gente. Na Copa, a gente fez isso com o mundo. Depois da Copa, a gente poderia fazer isso com o país – entender quem é o vizinho, quem é o manifestante, quem é o policial. Do nosso bairro e muito além dele.

Afinal, quanto mais próximos estamos uns dos outros, como diziam Elias e Clastres, quanto mais dependentes somos uns dos outros, mais a violência tende a diminuir – e não sou que estou falando. São anos e anos de pesquisas em trocentas cidades mundo afora. Obviamente que o policiamento é importante. Obviamente que políticas públicas contra o crime são fundamentais. E obviamente que as pessoas têm o direito de protestar. Desde que não quebrem nada, faz parte do jogo. O fundamental é diminuir as diferenças e aumentar a compreensão.

Portanto, é hora de buscar caminhos que nos ajudem a diminuir a tensão e a sensação de que somos estranhos uns aos outros. Com bairros melhores, cidades melhores, podemos ir perdendo o medo – e a gente já descobriu como é bom viver um mês sem pânico. Uma cidade mais justa pode nos ajudar a descobrir outras pessoas e outros jeitos de viver a vida que estavam aqui, do lado.