O futebol é uma sucessão de tradições movediças e construções mutantes. O que pode parecer “raiz” no presente talvez seja uma impressão relativamente recente, estabelecida a não mais do que duas ou três décadas. Enquanto isso, da mesma forma, o “modinha” de hoje também pode ser o bastião dos costumes num futuro não muito distante. O imagético do esporte entra muito nisso. O que vemos como insígnias dos clubes, por vezes, passaram por diversas transformações ao longo dos anos. Quase nunca o escudo atual de um time é o mesmo de sua criação, especialmente se for uma agremiação centenária. Mas na tentativa de vislumbrar o novo, nem sempre os dirigentes acerta a mão. E um exemplo claro disso veio nesta quarta-feira, com o Leeds United anunciando seu novo símbolo, às vésperas da comemoração do centenário de fundação. O que se pretende como “o brasão pelos próximos 100 anos” causou a fúria de sua torcida – algo perceptível pela reação geral nas redes sociais.

O escudo dos Whites mudou bastante desde a sua criação. O primeiro emblema era simplório, com as corujas que simbolizam a cidade, sofrendo sua primeira alteração em 1965. Nos anos 1970, período áureo sob as ordens de Don Revie, o Leeds passou a adotar a inscrição estilizada da sigla, no que se tornou um verdadeiro clássico. O emblema voltaria a se modificar de maneira mais profunda entre os anos 1980 e 1990, com um pavão efêmero, antes de ser suplantado pela icônica rosa branca. Por fim, desde a virada do século, o simbolismo se contém no escudo azul e amarelo, com a rosa em tamanho menor e a inscrição LUFC.

Nesta quarta, porém, o Leeds indicou o seu novo caminho com um novo escudo. Segundo o clube, foram seis meses de pesquisa e mais de 10 mil consultas até chegar um resultado que reunisse os clamores populares. E, bem, o resultado parece mostrar justamente o contrário. O símbolo perdeu a sua identidade tradicional, com linhas que parecem mais factíveis à Major League Soccer ou à A-League. Traz o nome “Leeds United”, em letras garrafais, assim como o desenho do peito de um jogador com o punho fechado sobre o coração. “Celebrando os torcedores no coração da nossa comunidade” é o lema adotado.

Há uma certa “modernidade” na escolha do Leeds? Sem dúvidas. O ponto é que não parece mais ser o Leeds, e sim um time de final de semana qualquer. O impacto inicial é inescapável, assim como o estranhamento por tudo o que já se viu. Talvez tenha sido assim nos anos 1990, 1980, 1970 ou mesmo nos 1960 – em cada nova criação de escudo dos Whites. Todavia, a quebra de padrões fica clara. Provavelmente as pessoas se acostumarão dentro de alguns anos com o novo emblema, e geralmente é isso que acontece. A discussão, de qualquer forma, se concentra no conflito entre “agregar à marca” ou manter aquilo que os próprios torcedores reconhecem como identidade. Neste ponto, sem dúvidas, as reclamações são naturais – e necessárias.


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