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Em um momento no qual a Serie A era a liga a ser assistida no mundo, a Lazio sonhou com o título por alguns anos e parecia destinada a nunca conseguir. Isso até a temporada 1999/2000, quando um timaço comandado por Sven-Goran Eriksson conseguiu um milagre e levou o segundo scudetto para o lado biancocelesti da capital italiana. Um milagre porque a equipe da capital estava nove pontos atrás da Juventus a oito rodadas do fim e tudo parecia conspirar para o título da Velha Senhora. Só que uma emocionante reta final mudou isso.

Era um time estrelado da Lazio, com nomes como Marcelo Salas, Alessandro Nesta, Sinisa Mihajlovic, Diego Simeone, Juan Sebastian Verón, Pavel Nedved, Roberto Mancini, Alen Boksic, Attilio Lombardi, a experiência de Fabrizio Ravanelli e Simone Inzaghi, em seu primeiro ano na capital, muito antes de qualquer um imaginar que ele seria um bom técnico no próprio clube. Um time muito rodado, cheio de jogadores experientes e capazes de irem além do segundo lugar na temporada anterior. Seria preciso subir um degrau em desempenho, especialmente nos momentos decisivos, para ascender também na tabela. Além disso, era preciso superar o trauma da perda dramática do título em 1998/99.

 O contexto de crescimento (e dinheiro)

O empresário Sergio Cragnotti, dono da Cirio, assumiu a presidência da Lazio em 1992 e passou a investir no clube, o que fortaleceu a equipe da capital. Os laziali passaram a figurar entre os primeiros colocados e tinham no seu time um centroavante decisivo, Giuseppe Signori, três vezes vezes artilheiro da Serie A (1992/93, 1993/94, 1995/96).

O primeiro scudetto, na temporada 1973/74, já estava distante. Na temporada 1997/98, o time finalmente quebrou o jejum com a conquista da Copa da Itália. Na temporada seguinte, ficou no quase com a Copa da Uefa de 1997/98, perdida para a Inter na final em Paris. O time já estava entre os principais da Itália e o desempenho na Serie A mostrava isso: foram dois segundos lugares e um terceiro desde que Cragnotti assumiu. Na temporada 1998/99, a Lazio já tinha sido vice-campeã para o Milan. O scudetto estava maduro.

Para 1999/20, a Lazio perdeu Christian Vieri, vendido à Internazionale por € 46,48 milhões, um valor altíssimo na época (em valores corrigidos pela inflação, € 66,71 milhões). A saída de Vieri cortou os corações dos laziali. A quantidade de dinheiro foi de fato absurda para a época, ainda mais porque Vieri chegou depois de uma temporada excelente no Atlético de Madrid e uma Copa do Mundo em 1998 que se destacou.

O seu preço anterior, € 16 milhões, foi pago com um imenso lucro. A Internazionale parecia estar fazendo uma loucura para levar o atacante, que era uma sensação naquele momento. E Vieri, mais uma vez, não ficou mais do que uma temporada nos clubes que defendeu. Curiosamente, isso mudaria na Inter, um time que defenderia pelos seis anos seguintes.

Só que o Lazio usou bem o dinheiro (e gastou ainda mais) e trouxe reforços importantes: Juan Sebastián Verón, que veio do Parma por € 30 milhões (€ 43 milhões, em valores corrigidos pela inflação); Diego Simeone, que saiu da Inter por € 10,9 milhões (€ 14,6 milhões, em valores corrigidos); Néstor Sensini, contratado do Parma por € 7,5 milhões (€ 11,3 milhões); e Simone Inzaghi, então com 23 anos, que estava no Piacenza.

Os reforços se uniram a um elenco que já era muito recheado de grandes jogadores: Luca Marchegiani, de 33 anos; Sinisa Mihajlovic, já experiente, aos 30 anos; Dejan Stankovic, um jovem com 20 anos; Pavel Nedved, o craque tcheco, então com 26 anos; Roberto Mancini, já veteranos com 34 anos; Alen Boksic, o centroavante croata de bom nível, com 29 anos; Marcelo Salas, com 24 anos e no auge da forma; e Fabrizio Ravanelli, de 30 anos. Um elenco cheio de bons jogadores, que era um ótimo desafio para o técnico Sven-Goran Eriksson.

Início promissor

Com a decepção do ano anterior, frustrada na última rodada, e com os reforços, a Lazio começou com esperanças. Como campeã da Recopa Europeia de 1998/99 (a antiga competição da Uefa que reunia os campeões de copas nacionais), a Lazio enfrentou o Manchester United, então campeão da Champions League, pela Supercopa da Uefa. Os italianos venceram com um gol de Marcelo Salas. Depois do jogo, Ferguson declarou: “Acho que eles ganharão a Serie A este ano”.

Os quatro primeiros jogos da Serie A foram empolgantes para o time de Eriksson: três vitórias e um empate. No quinto jogo, um duelo muito badalado com o então campeão, Milan, que tinha como nova estrela Andriy Shevchenko, sucesso pelo Dynamo de Kiev na temporada anterior. Mesmo abrindo 3 a 1, a Lazio não conseguiu segurar a vantagem e acabou tomando a virada para 4 a 3 e arrancou um empate para diminuir o prejuízo. Aquele 4 a 4 deixou dúvidas sobre a capacidade do time em grandes jogos, ainda mais com um vencedor em série como o Milan.

O time emendou três vitórias em quatro jogos, com um empate contra a Inter no único compromisso que não venceu. Só que veio o primeiro grande abalo: diante da arquirrival Roma, no dia 21 de novembro de 1999, uma pancada: a Lazio foi goleada por 4 a 1, em um jogo que Marco Delvecchio e Vincenzo Montella marcaram duas vezes cada, ainda no primeiro tempo. Mihajlovic ainda descontaria, mas só foi mesmo o gol de honra. Mais uma vez, a Lazio dava uma demonstração de que faltava algo nos jogos grandes.

Nas 11 rodadas seguintes, a Lazio conseguiu seis vitórias, quatro empates e uma derrota. Um dos empates foi um 0 a 0 com a Juventus, em Roma. A derrota foi para o Venezia, fora de casa, no primeiro jogo do time em janeiro de 2000. Na 22ª rodada, novamente o Milan pela frente. Naquele dia 20 de fevereiro, mais uma vez a Lazio sucumbiu: derrota por 2 a 1, com Boban como grande destaque dos rossoneri e um gol de Simone Inzaghi. Com isso, a equipe perdeu o segundo lugar na tabela ao próprio Milan. A Lazio caiu para terceira posição, com 43 pontos, contra 44 do Milan e 47 da líder Juventus – dirigida então por Carlo Ancelotti.

A oito jogos do fim, nove pontos atrás da Juventus

Diego Simeone comemora gol da vitória contra a Juventus, em 2000

Nos três jogos seguintes, a Lazio conseguiu duas vitórias e empatou a terceira, contra a Inter. Depois, na 26ª rodada, no dia 19 de março, perdeu para o Verona por 1 a 0 fora de casa e sua situação ficou difícil na corrida pelo scudetto. Com oito jogos restantes (naquela época a Serie A só tinha 18 times), a Lazio precisaria um milagre para tirar os nove pontos de diferença para a líder Juventus.

Tinha tudo para ser mais um fracasso, mas as coisas começaram a mudar na rodada seguinte. No sábado, 23 de março, o Milan recebeu a líder Juventus em San Siro e a derrubou com uma atuação decisiva de Shevchenko, que fez os dois gols na vitória por 2 a 0. No dia seguinte, um domingo, a Lazio tinha um desafio monumental: o clássico da cidade eterna contra a Roma.

O fantasma de jogos grandes aparecia de novo. Ainda mais porque a Roma abriu o placar, com Montella. Daquela vez, porém, as coisas mudariam. Mesmo saindo atrás tão cedo, a Lazio conseguiu reagir no primeiro tempo. Aos 25 minutos, empatou o jogo com Pavel Nedved. Logo depois, aos 28, Verón marcou o segundo e virou o placar no clássico. A Lazio venceria, enfim, um embate deste tamanho. E diminuía a diferença para seis pontos em relação à Juve.

A rodada seguinte era crucial. A Lazio visitava a Juventus em Turim e precisava aproveitar a oportunidade de tirar mais três pontos no confronto direto. E o jogo, como se podia imaginar, foi épico. Zinedine Zidane e Alessandro Del Piero tentaram muito, mas foi um cruzamento preciso de Verón para a cabeçada de Simeone que decidiu: 1 a 0 e vitória fora de casa. A diferença caía para só três pontos.

Restavam seis jogos. Na rodada 29, a Juventus venceu o Bologna e a Lazio superou o Perugia, mantendo a situação igual na tabela. A rodada seguinte tinha muito potencial. A Lazio visitou a Fiorentina e, fora de casa, acabou desperdiçando dois pontos contra a Viola – em um jogo emocionante, que acabou em 3 a 3. Depois de abrir o placar com Gabriel Batistuta, Nedved empatou para a Lazio e Alen Boksic virou o jogo. Só que Enrico Chiesa igualou já no segundo tempo. No final, a Lazio teve um pênalti convertido por Mihajlovic, aos 44 minutos. A vitória parecia selada, mas Batistuta, nos acréscimos, empatou e estabeleceu o placar de 3 a 3.

No dia seguinte, a Juventus tinha um jogo difícil contra a Internazionale em San Siro. E com dois gols de Darko Kovacevic, venceu os nerazzurri por 2 a 1, com Clarence Seedorf descontando no final da partida o placar favorável ao time de Turim. A caminhada rumo ao título seguia firme, agora com cinco pontos de vantagem e apenas quatro jogos pela frente. Mais uma vez, a Lazio precisaria de um pequeno milagre.

À espera de um milagre

A 31ª rodada teve a Lazio vencendo o Piacenza fora de casa por 2 a 0, e a Juventus batendo a Fiorentina por 1 a 0. A três rodadas do fim, a Juve surpreendentemente perdeu para o Verona por 2 a 0 no Estádio Marcantonio Bentegodi. A Lazio, por sua vez, venceu de forma suada o Venezia por 3 a 2. A diferença caía para dois pontos, a duas rodadas do fim.

As duas últimas rodadas foram emocionantes. Na 33ª, a Juventus venceu o Parma por 1 a 0, em uma partida muito contestada pelos torcedores ducali. Fabio Cannavaro conseguiu o gol de empate para o Parma, em uma cabeçada, mas o tento foi anulado sem dar muito para entender a razão.

Cragnotti, presidente da Lazio, foi duro nas declarações sobre o lance. “Nosso futebol precisa ser completamente reconstruído. Todo mundo viu o que aconteceu em Turim e ninguém é capaz de explicar por que aquele gol não foi validado. Eu não sei [por que o gol foi anulado]. A Lazio merece o título, tanto moralmente quanto pelo nosso futebol”, bradou o dirigente do time da capital.

Enquanto isso, a Lazio, fora de casa, venceu o Bologna por 3 a 2, em um jogo no qual os laziali sofreram dois gols de um antigo ídolo, Giuseppe Signori, atuando pelo Bologna. A batalha pelo scudetto seguia aberta, com dois pontos de vantagem para a Juve sobre a Lazio. Mas a esperança da Lazio se esvaía. A Juventus dependeria apenas de uma vitória sobre o Perugia para ser campeã, independente do que a Lazio fizesse. E isso parecia muito provável.

Como uma ironia do destino, o Perugia foi justamente o adversário do Milan na última rodada da temporada anterior, quando a Lazio também precisava de uma derrota do então líder. O Perugia sucumbiu com facilidade diante dos rossoneri, que celebraram o título, deixando o amargor na boca dos torcedores laziali. Não parecia que seria diferente em 2000.

Os acontecimentos naquela rodada final foram dignos de filme. A Lazio jogou, venceu a Reggina por 3 a 0 com facilidade e os torcedores, então, voltaram seus olhos para o jogo da Juventus. A partida não aconteceu ao mesmo tempo por um adiamento de 80 minutos, em razão de fortes chuvas. Mas, eventualmente, o duelo foi retomado, mesmo com o gramado encharcado.

A partida tinha arbitragem de Pierluigi Colina, o badalado árbitro italiano. Uma forma de tentar evitar reclamações com a arbitragem favorável à Juventus, o que era uma constante. Quando o jogo pôde ser iniciado, no começo do segundo tempo, o Perugia marcou. Eram quatro minutos da etapa final quando o zagueiro Alessandro Calori dominou no peito, ajeitou de joelho e finalizou no cantinho: 1 a 0. Havia todo um segundo tempo, e a Juventus tentou. Zidane, Davids, Inzaghi. Todos tentaram, tiveram chances, especialmente este último. Não conseguiram.

O título era, enfim, da Lazio. Os torcedores laziali invadiram o gramado do Estádio Olímpico, depois de tantos momentos de tensão. Comemoraram muito. Aquela façanha do clube ficaria marcada para sempre. Até porque eventualmente, o investimento de Cragnotti se esvaiu o time foi se desmontando aos poucos.

No ano seguinte, em 2001, Eriksson aceitou uma proposta para ser técnico da seleção da Inglaterra. Alessandro Nesta foi para o Milan, Veron foi para o Manchester United, Nedved foi para a Juventus. Na temporada 2002/03, o clube já não investia mais e a competitividade caiu.

O time já tinha passado do seu melhor e não conseguiria repetir mais. Até por isso, a saudade daquele esquadrão seria eterna. Marcelo Salas, com seus 12 gols naquela temporada, Diego Simeone, com sua participação decisiva e um título como tinha conseguido com o Atlético de Madrid anos antes, Eriksson, Nedved e tantos jogadores icônicos escreveram um dos mais belos capítulos da história da Lazio. O segundo scudetto está eternamente no coração de cada um dos torcedores biancocelesti.