A euforia brasileira é tão grande às vésperas da Copa que falar em uma eventual derrota acaba soando como fatalismo. Ainda assim, a hipótese nunca pode ser vista como improvável e qualquer possível foco de fragilidade deve ser analisado. Por isso, a Trivela foi conversar com um dos técnicos que melhor conhece a sensação de perder um Mundial pelo Brasil: Sebastião Lazaroni.

Aliás, ele admite que a queda ainda nas oitavas-de-final em 1990 se deveu em grande parte desorganização apresentada pelo Brasil. E que analisar os motivos da derrota foi importante para chegar ao título quatro anos depois.

Reconhecendo-se um observador externo, Lazaroni disse que, para 2006, o Brasil vai por um bom caminho, mas alerta para o fato de o torneio ser disputado na Europa. Além disso, o técnico falou sobre as perspectivas dos Estados Unidos no Mundial. Afinal, ele também participou da competição, como comandante da Jamaica nas eliminatórias da Concacaf.

Veja a seguir a entrevista de Sebastião Lazaroni à Trivela:

Uma das principais discussões a respeito da Seleção Brasileira é sobre o sistema tático do time. O próprio Parreira o considera muito ofensivo, mas alguns até pedem a inclusão de um quinto jogador de características ofensivas (Robinho). Seria recomendável atuar de outra forma?
Independentemente de como o time está, acho que o importante neste momento é não mudar mais. Os jogadores já estão se acostumando a esse esquema e fazer modificações só aumenta o risco de haver uma instabilidade.

O sistema com dois meias ofensivos e dois atacantes lhe agrada?
A Seleção cresceu bastante no último ano, sobretudo depois que passou a atuar desta maneira. Até porque tivemos a sorte de os jogadores atingirem seu ápice ao mesmo tempo. Outra coisa boa é ver que o grupo está disposto a dar uma dose de sacrifício pelo Brasil, até porque estão todos economicamente bem resolvidos e não vão buscar na Seleção algo além da satisfação pessoal.

Você se refere a se desconcentrar por discutir premiação, como em 1990?
O que ocorreu em 1990 já foi falado por todo mundo e não é mais segredo. Não preciso continuar com esse assunto.

Então não há risco de essas discussões se repetirem agora?
Ah, é completamente diferente hoje. O ambiente de trabalho já é bem melhor, porque a própria CBF já aprendeu como trabalhar para isso. Houve avanço na parte econômica e criou-se um padrão de procedimento. A entidade já dá estrutura e suporte para os jogadores, não há muito mais o que discutir.

Pela experiência que teve em 1990, você vê algum aspecto em que o Brasil deveria tomar cuidado?
Esta Copa será realizada na Europa, como em 1990, e isso já é suficiente para ter uma grande mudança, um contexto histórico diferente. Os times jogam mais atrás, o jogo fica mais amarrado e é muito mais difícil para os sul-americanos se soltarem.

Você participou destas eliminatórias pela Jamaica. Por que o time não conseguiu chegar à fase final da Concacaf?
Eu não tive condições de realizar um bom trabalho. Estreei sem ter um amistoso antes e acabei conhecendo pessoalmente os jogadores apenas dois dias antes da partida contra os Estados Unidos. O time não teve preparação adequada e acabou caindo por um ponto.

Aliás, o que se pode esperar deste time dos Estados Unidos?
Eles podem surpreender. A seleção já tem bons jogadores, que ganharam experiência nos últimos anos depois que passou a ter uma boa dose de exportação para a Europa. Mesmo em um grupo difícil, contra Itália, República Tcheca e Gana, eu não descarto a possibilidade de eles irem mais longe.

Quais seriam os principais destaques do time?
Eu fiquei bem impressionado com o Landon Donovan e o DaMarcus Beasley, ambos atacantes. São rápidos, habilidosos e não têm medo de partir para cima do adversário.

Isso desmistificaria aquela idéia de que as seleções norte-americanas são boas na defesa?
Não exatamente, pois eles continuam fortes nesse aspecto. A aplicação tática deles ainda é importante, com um meio-campo muito consistente. A diferença é que há destaques individuais na frente.

Você chegou a acompanhar o Freddy Adu?
Não, pois ele só foi chamado pelo Bruce Arena depois que eles já estavam classificados para a Copa.


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