O futebol italiano (e não só ele) vive uma escalada assustadora de manifestações intolerantes, racistas e fascistas. Os ultras da Lazio, sobretudo, protagonizam cenas deploráveis. E se torna bastante emblemático que, justamente na véspera da data em que se comemora a libertação italiana durante a Segunda Guerra Mundial, os biancocelesti tenham realizado um ato partidário a Benito Mussolini antes da classificação contra o Milan na Copa da Itália. Os dois clubes se posicionaram sobre o episódio, assim como sobre as seguidas perseguições racistas dos laziali a Tiemoué Bakayoko. Enquanto os rossoneri foram contrários, os laziali passaram o pano vergonhosamente. Entende-se a permissividade e a impunidade diante de crimes.

Em nota oficial, a Lazio tirou o seu corpo fora. O argumento de que os fascistas representam uma minoria da torcida é totalmente legítimo. Mas a inação do clube diante do preconceito recorrente acaba reiterado através do posicionamento. De certa maneira, parecem ignorar sua história intrinsecamente ligada ao movimento fascista durante a ditadura de Benito Mussolini, assim como as repetidas manifestações deploráveis de intolerância nas últimas décadas. Não se mostram dispostos a mudar este curso, que seja direcionado por uma minoria.

“A Lazio se distancia claramente dos comportamentos e das manifestações que não correspondem de algum modo ao valor do esporte sustentado e promovido pelo clube há 119 anos. Rejeita e contesta a tendência simplista de alguns meios de comunicação em considerar a torcida inteira como responsáveis pelos atos isolados por alguns elementos, por motivações alheias a qualquer forma de paixão esportiva. O clube sempre lutou pelo respeito às leis e pela retidão dos comportamentos”, escreveu o clube.

Se a postura da Lazio já incomoda por afastar sua responsabilidade, as declarações de Arturo Diaconale são ainda piores. O porta-voz do clube conversou com a agência Ansa. Não apenas reiterou a postura dos biancocelesti, bem como trouxe velhos clichês que soam repugnantes neste contexto. Preferiu defender o “direito de expressão” e negou até mesmo os evidentes cânticos racistas. Não muito diferente do que se ouve em outros cantos do mundo, veio com a ideia rasa de “separar esporte da política” e preferiu atacar uma suposta “campanha da imprensa”. É o tipo de gente que só sublinha o contexto asqueroso ao redor do clube, mas que poderiam mudá-lo através de palavras e atitudes.

“A Lazio se distancia dessas manifestações, que não tem nada a ver com o esporte e são parte de uma lógica política. É importante não misturar as duas áreas, de outra maneira você acaba fazendo o que uma parte da mídia acusa: não é verdade que a Lazio é nostálgica ao fascismo. Pintar todos com a mesma tinta, isso sim é uma mentalidade fascista. Se há certos grupos que querem manifestar suas ideias políticas, vamos deixá-los fazer isso em respeito à lei”, declarou.

“Quanto aos gritos racistas, se aconteceu, eles foram abafados pelo resto da torcida e o árbitro não ouviu. Não penso que ocorreu algum cântico particularmente vergonhoso ou outros gestos. Somos prejudicados pelas ações de uma minoria que está prejudicando o clube e o restante da torcida. A maioria da torcida da Lazio não aceita esses incidentes. Deve haver educação, não apenas repressão. A atenção da mídia só alimenta estes gestos e eles devem ser ignorados”, complementou o laziale, de maneira repulsiva.

Já o Milan condena publicamente e faz a denúncia aos órgãos competentes. Também lançou um vídeo se posicionando contra o racismo. Uma postura necessária, mas também óbvia, que segue um script no qual não se vê grande pressão por mudanças. “O Milan quer reiterar a sua condenação a todas as formas de racismo e discriminação, após os incidentes no segundo jogo das semifinais contra a Lazio. Cânticos recorrentes e sons de macaco foram dirigidos aos jogadores Franck Kessié e Tiemoué Bakayoko, emitidos pelo setor visitante antes, durante e depois da partida”, relatou a agremiação.

“Durante seus 120 anos, os rossoneri sempre honraram os valores do esporte, o respeito e a inclusão, que sustentaram tudo o que fazemos. O clube quer agradecer aos jogadores de ambos os times por seu profissionalismo, bem como aos torcedores por seu apoio apaixonado e o comportamento responsável, apesar do clima exacerbado por estes episódios inaceitáveis. O Milan sente a obrigação de denunciar os sérios incidentes de ontem aos órgãos de governo, com a esperança de que medidas serão implementadas para eliminar o racismo dos estádios”, finalizou, se esquecendo que seus ‘120 anos de inclusão’ também possuem asteriscos.

As estruturas de poder no futebol italiano já se mostraram extremamente coniventes com episódios de racismo e fascismo – o que não é exclusividade dos cartolas do país, embora a frequência dos casos salte aos olhos. Pior do que isso, as próprias autoridades não cumpre seu papel, em casos criminais que superam a própria esfera esportiva. O crescimento de movimentos neofascistas tende não apenas a aumentar a incidência de manifestações nos estádios, como expandir a impunidade. A pressão pela mudança se espera através dos atores, sobretudo jogadores e clubes. Porém, até pela inação da Lazio, as esperanças são nulas. Outra vez um crime passará batido.

Segundo a orientação da federação, o árbitro no futebol italiano não pode parar o jogo em caso de cânticos racistas. Um representante da federação e as autoridades locais é que possuem a responsabilidade sobre os casos. Nesta quarta, anúncios foram feitos no sistema de som do San Siro, ignorados e ridicularizados pelos ultras da Lazio. Também surgiram bananas infláveis no setor visitante. Os racistas não foram retirados das arquibancadas pela polícia. No máximo, 23 pessoas terminaram detidas pelo ato pró-Mussolini.