Todos os dias, milhares de pessoas escolhem usar uma parte do seu tempo para tentar se divertir jogando Fifa, da EA Sports, o jogo de futebol mais popular do mundo. A Konami tem um forte concorrente, o PES, mas o Fifa segue como o jogo com maior alcance no mundo. Sendo assim, estar nele é importante. Algo que o Brasileirão passa longe. La Liga, porém, segue firme. EA Sports e La Liga anunciaram nesta quarta-feira uma renovação do licenciamento por 10 anos.

Com isso, o Campeonato Espanhol está garantido na franquia Fifa e a EA Sports continuará como parceira exclusiva de La Liga para explorar licenciamento. O comunicado divulgado afirma que as duas organizações irão expandir seus esforços para continuar a criar um “entretenimento de futebol que seja líder mundial”.

Segundo o comunicado, o Fifa 20 se tornou a jogo mais jogado da história da franquia, o que não é pouca coisa – ainda mais porque tem lançamento de jogo novo todo ano. Houve um crescimento de 10% em relação ao ano passado, o que fez com que o número de jogadores únicos tenha atingido uma alta histórica. Houve também um aumento imenso do número de horas assistidas de Fifa no Twich, de 260%, mas isso é compreensível em um momento que ficamos três meses sem futebol ao vivo e a foram promovidos eventos com jogos de Fifa.

“Nossa visão é crescer o amor pelo esporte pelos nossos jogos e serviços, e com parcerias estratégicas com organizações icônicas como La Liga, nós estamos posicionados de forma única para entregar uma autenticidade e inovação sem precedentes nos próximos anos”, afirmou Cam Weber, vice-presidente executivo gerente geral de grupos da EA Sports. “Nosso comprometimento conjunto irá permitir impactos imediatos para as experiências nos próximos, Fifa, oportunidades de longo prazo para continuar fortalecendo o engajamento dos torcedores de La lia pela próxima década”.

“Esta renovação nos permite crescer o alcance e popularidade de La Liga para mais e mais torcedores ao redor do mundo que jogam EA Sports Fifa todos os dias”, afirmou Javier Tebas, presidente de La Liga. “Nós construímos uma parceria colaborativa com a EA Sports por mais de 20 anos que viu ambas organizações se tornarem marcas internacionais líderes. Nosso novo acordo significa nosso compromisso em manter esse crescimento e criar o melhor entretenimento para os torcedores de futebol em todo mundo”.

A ideia de um licenciamento completo da liga é tornar a experiência de quem joga mais parecida com quem assiste a um jogo de La Liga, com a identidade visual, todos os clubes e estádios, além de cantos das torcidas – que, aliás, estão sendo usados pelos clubes de verdade neste momento de jogos sem público.

Bom, no caso dos estádios, um continua fora: o Barcelona mantém contrato de exclusividade com a Konami para o PES, concorrente do Fifa. O Barcelona, porém, aparece integralmente no jogo, com seus uniformes e seus jogadores. Só mesmo o estádio não estará no jogo enquanto for válido o contrato do clube catalão com a Konami.

Essa identidade é importante porque é uma forma de também expandir a sua base de pessoas interessadas. Não é preciso que aquele jogador que escolheu a Real Socidad no jogo e criou uma carreira de sucesso nela se torne um torcedor fanático do clube basco, mas o jogo já gerou interesse para que ele assista aos jogos na televisão, mesmo morando em um país distante da Espanha. E, assim, a base de pessoas que assistem e consumem La Liga, de alguma forma, se amplia.

O modo mais popular do jogo, Ultimate Team, colocar jogadores de todos os clubes licenciados disponíveis aos jogadores. Os de La Liga continuarão lá e muito provavelmente continuarão se tornando mais conhecidos ao redor do mundo. Enquanto isso, o Brasil, com o seu Campeonato Brasileiro, não tem licenciamento no jogo, pelo modelo que temos aqui, e os jogadores também não são licenciados, em sua grande maioria.

O licenciamento que o Brasileirão tem no PES é apenas parcial. Isso porque a nossa liga não tem uma identidade visual – fica a cargo de quem transmite – e a maioria dos clubes está lá apenas com nome e uniforme, porque não há licenciamento dos jogadores. Por aqui, não há uma entidade que faça a gestão de licenciamento de produtos para os clubes e jogadores, coo existe na maioria dos países.

La Liga pode licenciar o uso de todos os clubes, assim como os jogadores são licenciados via sindicatos. Aqui, os sindicatos não são usados para representar os jogadores, que negociam individualmente. Ou seja: para que a EA Sports ou a Konami tenham todos os jogadores licenciados, é preciso ir um a um fazendo contratos, ou ao menos tentar fazer em forma de grupo nos clubes.

Só que, como sabemos, as negociações de jogadores acontecem e os novos jogadores não ficam licenciados. Sem contar que alguns não aceitam os termos e não entram no jogo. Vale o mesmo para clubes: para tê-los, é preciso negociar individualmente. Uma loucura, que é alimentada por processos sofridos pela EA Sports por causa de questões de licenciamento não pagas a jogadores em jogos antigos. Assim, as empresas se tornaram muito mais cautelosas quanto a isso e o Brasil foi se apagando em termos internacionais.

Foi a razão também do Football Manager parar de ser vendido no Brasil: licenciar todos os jogadores individualmente seria uma loucura, inviável, então não é feito. Com o sindicato, o licenciamento é feito uma vez só, o pagamento é realizado e todos os jogadores por ele representados – ou que venham a ser representados por eles, como jogadores jovens – estão disponíveis para quem compra a licença. Sem isso, como licenciar um por um milhares de jogadores por um país?

É uma questão que os clubes precisarão resolver. Hoje, vemos o famoso cada um por si e Deus contra todos. Enquanto não houver uma organização não só dos clubes, mas dos jogadores, que tenham um sindicato que os represente, em termos de interesse de licenciamento, claro, mas também pelos seus interesses além disso, como horários nos jogos e folgas, o Brasil continuará muito atrás. Ruim para todos os envolvidos: clubes, jogadores e torcedores. Ah, e gamers. Porque, afinal, como explicar para o seu filho que o time dele, ou o jogador preferido dele, não está no jogo preferido de futebol dele? Está na hora disso mudar.