Boa parte dos grandes clubes europeus passam a pré-temporada nos Estados Unidos ou no Extremo Oriente. A oportunidade de rentabilizar no período se consolida cada vez mais, e a criação da International Champions Cup ajudou a oferecer uma organização maior neste sentido. Além disso, se tornou comum que as supercopas nacionais sejam realizadas fora de seus países – um torneio oficial sem tanta importância, que pode alavancar seus lucros além das fronteiras. O Campeonato Espanhol, entretanto, dá um passo rumo a outro extremo. Segundo reportagem do jornal El País, La Liga firmou um acordo com uma multinacional de Miami (a mesma responsável pela ICC) durante os próximos 15 anos, visando a realização de jogos da competição nos Estados Unidos.

“O objetivo desta extraordinária ‘joint venture’ é que a cultura do futebol cresça nos Estados Unidos. Suporá um grande passo em sua crescente popularidade”, afirmou Stephen Ross ao El País. O empresário é o principal proprietário da Relevent, a companhia que assinou com La Liga. Além disso, possui outros negócios no esporte, incluindo o Miami Dolphins, da NFL. A previsão é de que a parceria atue não apenas nos EUA, como também no Canadá. A união foi batizada como ‘LaLiga North America’. “Esse acordo ajudará que a modalidade cresça no país, depois de termos ficados decepcionados com a ausência na Copa. Tomará que possamos jogar a próxima e ver que o futebol tenha crescido de maneira exponencial até 2026”, complementou.

O primeiro reflexo do acordo talvez aconteça já nesta temporada. A ideia é que se dispute um jogo, de Barcelona ou Real Madrid, do outro lado do Atlântico pelo Espanhol 2018/19. Será um processo na contramão do que acontece nas grandes ligas esportivas americanas. Os torneios locais cada vez mais realizam eventos fora dos EUA. Assim, seria também uma maneira de tentar colocar o ‘soccer’ em maior evidência no mercado local, com uma partida competitiva. “Se a NBA ou a NFL jogam partidas fora de seus países, por que não vai fazer o Campeonato Espanhol? É importante para apresentar nossa marca. Está entre nosso objetivos a curto ou médio prazo levar um jogo do Espanhol todos os anos aos EUA”, aponta Javier Tebas, presidente de La Liga.

Há uma série de críticas à ideia – seja por tirar a vantagem de atuar dentro de casa, de aumentar o desgaste com uma viagem mais longa no meio da temporada e mesmo de alijar as equipes de seus torcedores. Tebas, no entanto, garante que tudo será muito bem planejado para evitar inconvenientes: “Nunca se organizaria contra os interesses dos participantes. Veremos quais equipes podem estar de acordo. E que compensações e estratégias de comunicação levaríamos a cabo. Mudamos muitas coisas nos últimos quatro anos, algumas com muita contestação. Logo se viu que estavam corretas. Para crescer como indústria, não decidiremos as coisas a partir do que dizem”.

O início do namoro entre a Relevent e La Liga aconteceu a partir do Barcelona x Real Madrid realizado pela ICC em 2017. Diante da expansão de mercado de ambos os clubes nos Estados Unidos durante os últimos anos, agora é La Liga quem deseja se firmar também entre os americanos. “A Relevent tem enchido os estádios com a ICC. É uma empresa que pode nos ajudar a crescer nos Estados Unidos, não apenas em um mercado muito competitivo no futebol, mas também na indústria do esporte. As marcas de Barça e Madrid estão muito bem introduzidas. É necessário igualmente levar a marca de La Liga e, assim, beneficiar o restante dos clubes espanhóis”.

Em diferentes momentos desde a década passada, a Premier League também discutiu a possibilidade de realizar uma “39ª rodada” nos Estados Unidos. A ideia surgiu na virada da década, mas, sob pressão da Fifa e das ligas nacionais de outros países, o chefe executivo da liga inglesa garantiu que não existiam planos concretos, embora houvesse interesse dos clubes. Em 2014, o projeto voltou à tona sob a intenção de levar um dos 38 jogos de cada clube para o exterior. Novamente, a oposição interna adiou os planos. Já em setembro de 2017, um dos chefes da Relevent declarou que sua companhia estaria disposta a se envolver diretamente com a Premier League. Conforme suas palavras, já ocorreriam conversas com donos de clubes ingleses que também possuem suas franquias americanas – casos de Manchester United, Liverpool e Arsenal.

No início da semana, La Liga firmou um acordo com o Facebook para a transmissão de jogos do Campeonato Espanhol na Ásia. A rede social comprou os direitos de todos os jogos da temporada para oito países do continente, incluindo Índia e Bangladesh. A companhia americana pagou 90 milhões de euros pelos próximos quatro anos. “O sul da Ásia é um mercado prioritário para La Liga e para o Facebook, então foi fácil chegar ao acordo. Queremos levar ao usuário uma experiência única de ver as melhores competições esportivas do mundo. É uma oportunidade de criar grandes comunidades e crescer ao redor do esporte”, explicou Peter Hutton, responsável pela estratégia global de esportes do Facebook Live.

Ainda não se sabe qual a resposta dos clubes, sobretudo a Real Madrid e Barcelona, em relação ao acordo entre La Liga e Relevent. A primeira manifestação contrária veio da AFE, a Associação de Futebolistas Espanhóis, que emitiu um comunicado criticando o acordo. “La Liga prescinde da opinião dos jogadores e os compromete em ações que só beneficiam a entidade, sem se importar com a saúde e os riscos aos atletas, muito menos com o sentimento das massas sociais dos clubes. O futebolista não é moeda que se possa utilizar em negócios que só beneficiam a terceiras partes”. E não será surpreendente se protestos ocorrerem nas arquibancadas já durante a primeira rodada do campeonato, neste final de semana.


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