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Não existia outra solução plausível ao futebol espanhol a não ser adiar suas competições, diante da pandemia de coronavírus. Inicialmente, a federação espanhola suspendeu os torneios sob sua alçada, embora não pudesse interferir diretamente na primeira e na segunda divisão do Campeonato Espanhol. Caberia a La Liga decidir o que fazer e, ante a disputa recorrente entre Luis Rubiales e Javier Tebas, até esboçou-se outra queda de braço neste sentido. Contudo, o anúncio da quarentena no Real Madrid, após um caso de covid-19 no elenco de basquete, evitou discussões mais amplas. A paralisação era necessária.

Assim como outras competições, La Liga faz suas contas em relação ao prejuízo que irá absorver. E os espanhóis já têm as cifras: segundo um estudo interno, caso a temporada não seja concluída, o impacto será de €678 milhões aos clubes. O montante representa 20% da receita total prevista para 2019/20. A primeira divisão teria uma perda de €610 milhões, enquanto os outros €68 milhões ficariam na segundona.

O maior déficit é relativo à televisão. Se a temporada não for concluída, os donos dos direitos de transmissão poderiam deixar de pagar €549 milhões aos clubes, €494 destes correspondentes à primeira divisão. Os carnês de temporada representam um impacto de €88 milhões em devoluções, enquanto se perderiam mais €41 milhões em vendas de ingressos. A diferença nos números deixa bem claro por que realizar as partidas com portões fechados era cogitada por Tebas, apesar do risco que poderia representar a atletas e funcionários.

O duelo entre Valencia e Atalanta pela Champions League, porém, escancarou como fechar os portões não basta. Nos arredores do Mestalla, centenas de torcedores se reuniram para receber o ônibus dos valencianos e acompanhar a partida nos bares vizinhos. Não respeitaram as recomendações das autoridades e ignoraram a escalada dos contágios no país. O ocorrido, ao menos, foi importante para afastar a ideia na rodada seguinte de La Liga.

Enquanto isso, os responsáveis começam a ver alternativas à situação emergencial em suas administrações. Os clubes estudam como podem compensar a queda de receitas em relação às despesas estruturais, como salários. O governo espanhol recebeu os primeiros contatos de dirigentes e sindicatos, em relação aos procedimentos quanto aos vínculos empregatícios. O futebol se torna apenas mais uma indústria a encarar a incerteza.

Obviamente, a suspensão dos jogos impacta de maneira diferente nos clubes. Gigantes como Real Madrid e Barcelona podem sofrer um prejuízo na casa das dezenas de milhões de euros. Em compensação, as potências também possuem recursos para contornar as perdas de outras maneiras, sobretudo a partir de sua capacidade comercial. Clubes menores podem ter rombos mais contidos, mas a fatia relativa aos direitos de TV é mais representativa em seu dia a dia. Em alguns deles, este montante chega a superar os 50% das receitas.

O ressarcimento dos torcedores deveria ser um compromisso dos clubes e o procedimento para devolver o dinheiro dos carnês de temporada está sendo estudado em um plano global, caso a temporada seja mesmo cancelada. Enquanto isso, o dinheiro da televisão deixa de entrar. Representa uma bola de neve, pelos anúncios que se perdem, mas também dentro da capacidade de investimento das próprias agremiações e do equilíbrio de suas contas. Este é o principal ponto a ser discutido e resolvido durante as próximas semanas, sob a análise de diferentes desdobramentos. Diversos clubes espanhóis, afinal, operam sem muita margem de manobra e alguns já precisaram lidar com amplas dívidas recentes.

Diferentemente de outras ligas europeias, como a Serie A e a Bundesliga, La Liga ainda não possui planos sobre os próximos passos da temporada. Ainda assim, tudo dependerá da maneira como as autoridades sanitárias espanholas conseguirão conter a epidemia – e, neste momento, a curva ascendente vivida no país está entre as mais preocupantes. Segundo a Universidade John Hopkins, a Espanha superou os 5,2 mil casos confirmados de covid-19 nesta sexta, quando o número chegava a 3 mil na quinta. São 133 mortes no país, além de 193 pacientes recuperados do vírus.

Diante de tamanho crescimento dos contágios, a realização do fim da temporada dentro de algumas semanas, com o calendário ampliado e o adiamento da Eurocopa para 2021, parece uma perspectiva otimista ao Campeonato Espanhol – e a outras grandes ligas europeias. A cooperação é essencial para contornar o momento e se preparar a diferentes cenários também no futebol. Inclusive, a pausa pode providenciar uma análise mais plena da situação, em que as receitas se perderiam e os clubes teriam que rever seu equilíbrio financeiro.

No momento, os clubes devem se concentrar no bem-estar de seus funcionários, na saúde dos jogadores e na conscientização dos torcedores. Por enquanto, La Liga é a única das cinco grandes ligas europeias que não teve um caso positivo entre seus futebolistas, apesar da quarentena ao Real Madrid. Cifras ficam para depois, quando há um risco claro de saúde pública e a irresponsabilidade da organização do campeonato poderia gerar consequências maiores. Dá até para discutir se as atividades na Espanha não deveriam ter sido interrompidas antes, mas ao menos a consciência preponderou sobre as preocupações financeiras nesta semana.

E quando o pico da pandemia for superado, tanto na Espanha quanto em outros lugares, o bom senso será tão importante quanto o consenso. Está claro, também, que as medidas drásticas deixarão seus rastros na economia e não é o futebol que deveria ser visto como um ambiente especial, alheio à situação, com permissão especial para seguir em frente. Será um momento importante para readequar as contas dos clubes e até mesmo estudar algumas distribuições do campeonato. A solidariedade não deverá vir apenas no controle ao vírus. Quem sabe, a razoabilidade também prepondere para um diálogo mais racional entre liga e federação.