“Complicamos muito a nossa situação”, disse Edgardo Bauza logo depois da estreia do São Paulo na Copa Libertadores. A avaliação era correta. A derrota no Pacaembu – o Morumbi estava em obras – diante do Strongest foi surpreendente e fez o time sofrer em toda a primeira fase, até o último minuto, contra o próprio Strongest. Uma classificação tão sofrida resultou no confronto com o Toluca, que se classificou com um pé nas costas no forte grupo que tinha ainda Grêmio, LDU e San Lorenzo.

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Mas como diz Juan Román Riquelme, craque argentino que se consagrou nesta competição vestindo a camisa 10 do Boca Juniors, “La Copa empieza em octavos de final”. É o famoso “no mata-mata, a história é outra”. Já vimos tanto isso acontecer que não chega a surpreender, mas é de fato impressionante como o São Paulo que entrou em campo no Morumbi tenha sido um time tão diferente daquele que se arrastou na fase de grupos.

O São Paulo mostrou a sua cara. Uma goleada por 4 a 0, uma atuação digna de elogios e de incendiar o estádio do Morumbi em uma noite gelada em São Paulo. Paulo Henrique Ganso, o camisa 10, foi novamente destaque. Assim tem sido este ano. Ganso é destaque até nos jogos pouco inspirados do time. Nos jogos que o time esteve mais perdido. Mas nesta quarta, ele foi mais do que só um destaque do time. Foi o craque. Comandou uma blitz desde o início do jogo. O time da casa sufocou o clube mexicano no seu campo de defesa. O jogo só existia da intermediária ofensiva do time do Morumbi em diante.

Há de se ressaltar que os 4 a 0 tiveram um caráter simbólico não só pelo placar, mas pela construção dos gols e por quem os marcou. O gol que abriu o placar foi de Michel Bastos, que só em 2016 já teve momentos para lá de terríveis. Finalizou na área depois de um lateral cobrado por Bruno e que a defesa mexicana deixou passar até a marca do pênalti. Ele não perdoou e, mesmo sem acertar em cheio a bola, mandou para as redes.

O gol poderia dar tranquilidade ao São Paulo, que passaria a controlar mais o jogo. Não foi o que se viu. Mas isso não foi um mau sinal, ao contrário. Pressionando o time mexicano, o São Paulo continuou em cima, sem deixar o Toluca tomar fôlego. Jogou bola na trave, obrigou grande defesa do goleiro e procurou o segundo gol. Viu ali uma chance de abrir uma vantagem que poderia ser fundamental.

De todas as opções para o ataque, Centurión certamente seria uma das últimas do torcedor são-paulino nesta noite. Jonathan Calleri conquistou os torcedores com gols,mas estava suspenso. Alan Kardec seria seu substituto imediado, mas teve uma virose na terça que o debilitou a ponto de ter que tomar soro. Bauza preferiu deixá-lo no banco. O técnico argentino poderia apostar em Rogério Wilder Guisao (Rogério estava machucado e não foi para o banco) no ataque. Não quis. Colocou Ricardo Centurión.

O atacante argentino faz um ano péssimo, não vinha entrando muito em campo e, quando o fazia, não justificava a aposta. Entrou numa posição que nem é a sua. Ficou centralizado no ataque. Se movimentou muito mais que um centroavante, claro, mas ainda assim era a sua posição inicial. Já quando o relógio apontava 41 minutos do primeiro tempo, Centurión recebeu a bola no lado esquerdo, puxou para o pé direito e, já de dentro da área, chutou. A bola acertou o ângulo oposto goleiro. Um golaço no Morumbi, que tira a zica. Ele ainda não tinha marcado em 2016.

Quem esperava um segundo tempo mais morno novamente se enganou. O Toluca viu novamente o São Paulo ávido por jogar, atacar, tentar fazer gols. No intervalo, os jogadores disseram que pensavam em matar o confronto no Morumbi. Assim o fizeram. Com a faca e o queijo na mão, tornaram a vida dos mexicanos um inferno no Morumbi.

Primeiro, com uma tabela envolvente de Thiago Mendes e Ganso. Sim, Thiago Mendes, que fazia um ano horrível. Lembra que falamos do simbolismo dos gols? Este é mais um. O volante, que perdeu a posição para João Schmidt, teve que jogar porque o novo titular está machucado. E voltou a jogar bem, aparecer e marcou um gol, bonito, que deixou o São Paulo em uma situação muito confortável.

Mas não era tudo. Depois de cruzamento na área, Centurión, posicionado entre os zagueiros, brigou pela bola e finalizou, quando ela apareceu na sua frente. Cravou 4 a 0 no placar e fincou o pé do São Paulo quase inteiramente na classificação. Só uma hecatombe, uma tragédia de proporções monumentais tira o tricolor das quartas de final. Um 4 a 0 simbólico pelo placar e por ter Michel Bastos, Centurión e Thiago Mendes como aqueles que balançaram as redes. Todos tiveram momentos bem difíceis neste 2016.

La Copa empieza en octavos. Riquelme tem razão. Em 2014, o San Lorenzo de Bauza também mostrou isso, classificado como o 15º entre 16 times. Enfrentou justamente o 16º, Nacional-PAR. Mais do que ninguém, Bauza sabe bem que a Copa Libertadores não respeita o histórico da primeira fase. Ela quer ver o que o time faz nas oitavas. E o São Paulo das oitavas é um outro time. Foi, ao menos, neste jogo do Morumbi. Precisará continuar sendo se a esperança for a quarta estrela na camisa.

Os gols: