Kurt Cobain deixou sua marca no cenário musical durante os anos 1990. O Nirvana influenciou uma geração dentro do rock, muito graças à mente única de seu vocalista. O americano podia não ser o melhor cantor ou o melhor guitarrista, mas o seu estilo – de pensar e de compor – inegavelmente arrebatou uma legião de fãs. Criatividade cessada por sua escolha, em abril de 1994, aos 27 anos. Se ainda estivesse vivo, o músico completaria cinco décadas de vida nesta segunda.

VEJA TAMBÉM: Outros artigos da Trivela fazendo tabelinha entre futebol e música

Embora nascido em uma região apaixonada por futebol, Cobain não se comovia por esportes. Seu rosto até já apareceu nas arquibancadas do Seattle Sounders, em uma bandeira, mas por iniciativa isolada de um torcedor. No entanto, um dos shows mais marcantes do Nirvana acabou afetado por aquilo que acontecia dentro dos estádios. Em 26 de junho de 1992, a banda se apresentou no Festival Roskilde, na Dinamarca, um dos maiores eventos musicais da Europa. Naquele mesmo dia, a seleção dinamarquesa enfrentaria a Alemanha na decisão da Eurocopa. Ficou com o título inédito, graças à vitória por 2 a 0, e o resultado impactou diretamente sobre o show, diante de 60 mil pessoas.

A história é contada pelo baixista Krist Novoselic, no Seattle Weekly. Vale como homenagem à memória de Cobain, em um episódio cruzado com o mundo do futebol:

*****

A última vez que eu tive algum interesse em um evento esportivo foi em 1992, quando eu, involuntariamente, dependia de seu resultado. O Nirvana estava tocando no Festival Roskilde, na Dinamarca, e todos estavam eufóricos com a final da Eurocopa. Havia bandeiras dinamarquesas e muitos torcedores pintaram o rosto. Eu olhei para o cronograma e percebi que o festival seria interrompido para que o público assistisse ao jogo. Eles tinham televisores para transmitir!

Eu nunca estive em um show no qual esporte e música se combinaram daquele jeito. Eu nunca tinha participado de um festival com uma parada bem no meio. Existia uma empolgação no país porque a seleção dinamarquesa nem deveria estar na Euro. A Iugoslávia tinha se qualificado, mas foi suspensa por causa da guerra. A Dinamarca, vice-líder do grupo nas eliminatórias, ganhou a vaga.

Os dinamarqueses estavam malucos por causa daquela final. Fui informado sobre o significado político da situação. A Dinamarca recentemente havia votado contra a adoção do euro. O jogo era visto como uma retaliação à Alemanha, promotora da nova moeda e sua adversária em campo. De alguma maneira, o campeonato iria influenciar isso – mas, de novo, não sou antenado com esportes e realmente não conheço moedas internacionais. Mas, aqui, nossa banda era afetada: a apresentação aconteceria imediatamente depois da partida!

Kurt e Dave não gostavam de esportes, também. Mesmo sem assistir ao jogo, estávamos torcendo para a Dinamarca. Não era nada contra a Alemanha, mas sim a favor de nossos interesses. Se a Dinamarca ganhasse, então o público estaria mais extasiado. Você sabe, um show de rock é uma troca – se a multidão oferece energia, a banda devolve.

Enquanto o público estava vidrado no jogo, eu tomei uma cerveja, esperando que esses descendentes dos vikings ganhassem. Conversava com os outros que não ligavam para a final e me animei ao ouvir um grande grito da galera: a Dinamarca fez um gol! Eu fiquei satisfeito, porque significava que eles poderiam vencer. Depois de um tempo, outro grito e outro gol dos dinamarqueses. Um sentimento de alívio caiu sobre nós, porque parecia que eles iriam vencer. E venceram.

As pessoas ficaram insanas! O time que nem havia se classificado para o torneio conquistou a taça. Era realmente como um conto de fadas. E a banda que entrou depois da final fez um ótimo show, se posso me gabar. Nós parabenizamos os dinamarqueses pela vitória e fomos ovacionados. Foi um espetáculo fácil de fazer.