Kalidou Koulibaly, de uma maneira como ninguém gostaria, se transformou em um símbolo da luta contra o racismo no futebol italiano. Os ataques sofridos pelo zagueiro do Napoli, durante o jogo contra a Internazionale, geraram amplos debates no país e também uma repercussão internacional sobre o caso. Desde então, o próprio clube e o jogador têm empunhado de maneira firme a bandeira contra a discriminação. Nesta quinta-feira, ele concedeu uma longa entrevista ao canal dos celestes, expondo os seus pensamentos e o seu posicionamento.

“Se estou feliz em ser um ícone da luta contra a discriminação? Sim e não. Não porque é lamentável que precisemos seguir combatendo a discriminação nos dias atuais. Acredito que somos todos iguais, é um valor que aprendi desde pequeno. Tento transmitir isso à minha família e a todos que conheço. Desta maneira, é uma pena ser um ícone nesse assunto, mas também algo bom. É uma causa em que acredito e agora posso demonstrar a todos. É uma luta importante, não apenas hoje”, declarou Koulibaly.

O defensor aponta, inclusive, os reflexos positivos do episódio infeliz: “Acho que surgiram aspectos positivos nestas últimas semanas. Um deles, definitivamente, tem sido a minha família, que realmente me apoiou. Pode parecer algo esperado, mas é enorme para mim. Minha família é a coisa mais importante e é excelente saber que eles estão me apoiando. Também recebi muitas mensagens de amigos e pessoas que não conheço pessoalmente. Algumas coisas negativas aconteceram, mas no fim eu nunca me esquecerei do apoio que recebi, isso me deixou muito feliz. Acho que me tornei mais maduro também. Não acredito que poderia ter respondido desta maneira antes”.

O senegalês citou as crianças como exemplo e, inclusive, contou como o carinho dos colegas de escola ajudou seu filho: “No ano passado, fizemos uma ação em uma escola de Milão e foi ótimo. Esta é a abordagem certa. Precisamos ensinar os valores desde cedo, na escola e ao longo da vida. Não preciso dizer isso ao meu filho. Ele vai a uma escola italiana e fala italiano. Ele também fala francês e pode entender minha língua nativa de Senegal. É sempre duro explicar o racismo para uma criança. Ele ainda é muito novo para entender, mas quando o levei para a escola, as outras crianças o apoiaram, o que me deixa muito feliz. Eles não entendem. Para eles, é normal que as pessoas de todas as cores sejam iguais. Quando olho para as crianças, acho que devemos ser mais como eles”.

Nascido na França, Kalidou Koulibaly comparou a realidade que enfrenta na Itália com o seu país natal. E afirmou como o caráter multicultural da população francesa atenua os casos de racismo. Embora também existam por lá, o zagueiro nunca foi vítima de discriminação, seja nos estádios ou mesmo em seu cotidiano.

“Precisamos perceber que somos todos diferentes, mas iguais ao mesmo tempo. Temos feito grandes progressos no mundo, mas o fato de continuarmos lutando contra o racismo significa que andamos para trás e isso é uma vergonha. Na França, onde nasci, nunca tive problemas como esse. Nem no dia a dia ou dentro de campo. Cresci ao lado de muitos estrangeiros. Foi uma grande mistura, mas nunca houve problemas. Então, a partir dessa perspectiva, acho que a França é um país diferente. Há muitas influências e você vê isso na população. Acho que é um lugar mais progressista a esse respeito”, analisou.

Em compensação, na Itália, Koulibaly passou a perceber o racismo à medida em que começou a dominar a língua: “Não senti tanto quando cheguei à Itália, talvez porque estivesse mais focado no futebol. Entretanto, quando meu italiano melhorou, comecei a perceber o que as pessoas estavam dizendo. A primeira vez que eu percebi a discriminação foi quando ouvi cânticos contra os napolitanos. Não entendi muito, mas isso realmente me entristeceu, porque Nápoles é uma belíssima cidade. No fim das contas, a luta é necessária porque as pessoas precisam perceber que um jogador do Napoli também é um italiano. Pense em Insigne. Quando ele joga pela Itália, todos o apoiam e ele é realmente importante”.

Por fim, o jogador avaliou como o futebol é uma excelente ferramenta de combate ao racismo: “O futebol é muito popular no mundo, então acho que pode ajudar na questão. Cabe aos jogadores, não apenas a mim, darem um passo à frente para combater a discriminação. Acredito que podemos fazer isso. Já realizamos muitas iniciativas e, no futuro, podemos fazer ainda mais para combater o racismo e todas as formas de discriminação”.