Kosovo luta por sua independência da Sérvia há quase uma década. Em 2008, a nação encravada nos Bálcãs fez sua declaração unilateral de libertação. Sem a aceitação dos sérvios, os kosovares buscam o reconhecimento de outros estados para concretizar o seu desmembramento. Enquanto 23 países da União Europeia aprovam a independência, ainda falta firmar o processo na ONU – em junho de 2015, 108 de seus 193 membros assinaram uma carta em apoio. Enquanto isso, o futebol abre a porta para os kosovares serem admitidos como país livre. Dois anos após a Fifa sancionar os amistosos de sua seleção, Kosovo tornou-se membro da Uefa nesta terça-feira.

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Obviamente, a aprovação na entidade europeia contou com uma queda de braço bastante acirrada. A Uefa votou em seu 40º Congresso a entrada da nova federação. Eleição apertada, com 28 votos favoráveis, 24 contrários e duas abstenções. Não à toa, a Sérvia já se posicionou, afirmando que irá acionar os tribunais arbitrais do esporte para impugnar a admissão. Embora as relações diplomáticas tenham evoluído nos últimos anos, com a colaboração dos sérvios na sanção da Fifa de 2014, o resultado na Uefa fere os interesses da Sérvia no território. A permissão para Kosovo se portar como um país em torneios oficiais tende a potencializar a campanha pelo reconhecimento da independência.

Por outro lado, para os kosovares, o resultado da votação por si já soou como uma vitória massiva em seus anseios de soberania. “Agradeço em nome de todos os funcionários, treinadores, árbitros, torcedores e de todos os jovens jogadores do meu país que dedicam suas vidas ao futebol. É um momento histórico e faço uma promessa: defenderei os valores do futebol em uma região que não há tanto tempo era devastada pela guerra. Nós trabalharemos para unir as pessoas em campo e em torno do campo. Essa é nossa visão para o futuro como o 55º membro da Uefa”, declarou Fadil Vokrri, ex-atacante da seleção iugoslava e atual presidente da federação kosovar.

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A princípio, Kosovo pode disputar as competições de clubes e seleções organizadas pela Uefa. No entanto, a nação terá a chance de expandir suas fronteiras no futebol já na próxima semana, diante da realização do Congresso da Fifa. A aceitação na entidade internacional também permitirá que a seleção kosovar participe das Eliminatórias da Copa do Mundo. E, ainda que dependa da votação de seus delegados, a Fifa sempre se mostrou mais simpática do que a Uefa à ideia de ratificar a independência de Kosovo no futebol. Desde dezembro de 2014, a nação já faz parte do Comitê Olímpico Internacional, podendo enviar atletas aos Jogos Olímpicos de 2016.

kosovo

A entrada de Kosovo na Fifa, no entanto, deverá discutir um entrave delicado. Diversos jogadores com origens kosovares que defendem outras seleções já manifestaram interesse em se juntar a um time independente. Em 2013, dez atletas assinaram uma carta à Fifa se posicionando como “exilados” em outras equipes nacionais – entre eles, Xherdan Shaqiri, Granit Xhaka, Valon Behrami e Lorik Cana. A entidade também precisará decidir sobre as aberturas à convocação desses expatriados, em um processo inédito. Em geral, há a permissão para o chamado de jogadores que já serviam o país desmembrado, mas não que venham de outros rincões alheios à disputa política. Destino de muitos refugiados, a Suíça seria afetada, assim como a Albânia, com fortes laços culturais e étnicos com os vizinhos.

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Atualmente, Kosovo conta com uma seleção baseada em jovens e muitos nomes cedidos por clubes alemães. Ex-goleiro do Palermo e atualmente emprestada à Latina, o capitão Samir Ujkani é o nome mais conhecido. A seleção kosovar disputa amistosos desde 1993, mas somente a partir de 2014, com a permissão da Fifa, é que eles se tornaram mais frequentes. Desde então, a equipe já realizou seis confrontos, incluindo o simbólico empate por 2 a 2 com a Albânia em novembro, em jogo que serviu para comemorar a classificação dos albaneses à Euro 2016. A população kosovar é composta por 93% de albaneses étnicos, e os dois povos compartilham a língua e princípios culturais muito próximos. Além disso, a Albânia se tornou o primeiro país a reconhecer a independência de Kosovo, ainda em 1992, e apoiou os vizinhos na guerra que estourou na Iugoslávia em 1998.

Já no plano local, fundada em 1944, a federação kosovar organiza o campeonato nacional desde então. Até os anos 1990, a liga serviu como uma subdivisão do Campeonato Iugoslavo, enquanto acompanhou o processo de luta por independência nas últimas duas décadas. Disputada por 12 equipes, a competição possui patrocínio de um banco austríaco. A participação do campeão de 2015/16 na próxima Champions League, entretanto, ainda não foi confirmada pela Uefa. Líder do torneio com seis pontos de vantagem, o Feronikeli pode ter a honra de ser o primeiro time a estender a bandeira kosovar em um jogo competitivo.