Depois de uma temporada de transição como jogador-treinador do Anderlecht, Vincent Kompany anunciou nesta segunda-feira (17) a sua aposentadoria como atleta para focar completamente em seu trabalho como técnico do clube belga. Com um contrato de quatro anos, o agora ex-zagueiro espera levar o Anderlecht novamente ao título nacional, depois de três anos sem levantar a taça. No processo, quer implementar um futebol atrativo e de resultados.

Aos 34 anos, Kompany talvez ainda tivesse alguns anos em seu tanque como jogador. Entretanto, parece ansioso pela nova carreira como treinador e, por isso, pendura as chuteiras neste momento.

“Quero me comprometer completamente ao meu papel como treinador e preciso de 100% do meu tempo e foco para isso. É por isso que estou me aposentando como jogador de futebol. Nossa ambição permanece a mesma. Quero ficar no clube por pelo menos quatro temporadas e provar que o Anderlecht pode jogar um estilo moderno de futebol, com resultados”, explicou o belga.

Revelado pelo próprio Anderlecht em 2003, Kompany passou três anos em seu clube formador como profissional antes de ir para a Alemanha defender o Hamburgo. Após dois anos na equipe, se transferiu para o Manchester City em 2008 e lá construiu uma era de sucesso e títulos. Foram 11 anos nos Cityzens, com quatro títulos de Premier League e duas Copas da Inglaterra, entre outras conquistas. Em julho de 2019, deixou a equipe ao fim de seu contrato como uma lenda local, estendendo sua representatividade para além do futebol, se engajando socialmente na cidade de Manchester, como quando participou ativamente de uma campanha de auxílio a pessoas em situação de rua.

O passo final de Kompany na carreira como atleta foi retornar ao Anderlecht, com o papel de jogador-treinador. O clube vinha de uma de suas piores temporadas na história, tendo terminado o Campeonato Belga de 2018/19 em 13º lugar, ficando de fora de competições europeias pela primeira vez em 56 anos. A expectativa era de que Kompany traria consigo o espírito vencedor que desenvolvera no City ao longo de mais de uma década.

O início do trabalho, no entanto, foi terrível. Recebido com uma bela homenagem da torcida, Kompany fracassou nos primeiros jogos como jogador-treinador, com duas derrotas e dois empates em quatro partidas. A sequência levou Kompany a abdicar da função de treinador durante os dias de jogo, deixando a responsabilidade com Simon Davies, membro de sua comissão técnica e que foi para o Anderlecht junto com o zagueiro, deixando o City, onde era treinador da equipe reserva.

À época, Davies explicou que Kompany precisava ser “mais um jogador durante a partida”. Como capitão, precisava “liderar de fato o time no campo”. A separação das funções foi o melhor caminho a se seguir, mas não impediu o Anderlecht de ficar mais uma vez de fora de competições europeias. Com o torneio encerrado antecipadamente devido à pandemia do Coronavírus, o clube terminou em 8º lugar.

Portanto, o desafio a Kompany logo em seu início de carreira como técnico é enorme. O clube vem de duas temporadas muito ruins e ainda parece distante de voltar ao patamar que lhe permita brigar por uma conquista nacional – a última aconteceu na temporada 2016/17.

São justamente essas circunstâncias, no entanto, que podem ajudar a impulsionar esta nova trajetória de um vencedor-nato. O contrato longo indica respaldo a um projeto, e muito pode ser feito nesses quatro anos.

Membro da comissão técnica da seleção belga na Copa do Mundo de 2018, em que os Diabos Vermelhos terminaram no 3º lugar, Thierry Henry explicou na Sky Sports, em 2019, por que acreditava que Kompany seria um grande treinador no futuro: “Ele é um pensador. Eu era responsável pelos escanteios ofensivos da seleção belga, e ele costumava me puxar para conversar de manhã. Normalmente, quando ele te puxa para conversar, dura duas horas. A gente conversou, olhou vídeos, e ele me disse o que deveríamos fazer, e funcionou contra o Brasil (no gol que abriu o placar da vitória por 2 a 1 nas quartas de final, marcado por Fernandinho contra sua própria meta”.

“Ele é um pensador, ama o jogo, é tudo de que ele fala. Eu amo o cara, amo o homem que ele é fora do campo e o jogador que ele era dentro dele.”

Os caminhos já pareciam indicar o próximo trajeto de Kompany, e certamente o convívio com Pep Guardiola durante três temporadas no City, entre 2016 e 2019, acrescentou ainda mais ao repertório do ex-zagueiro.

Como ídolo do Anderlecht, ele começa com algum crédito com a torcida, com abertura para erros. Porém, como bem sabemos, esse crédito costuma se consumir rapidamente, e logo Kompany precisará dar ao menos mostras de todo o seu potencial.