É raro vermos irmão jogando no mesmo time em alto nível, mas os irmãos Touré conseguiram isso. Kolo Touré, hoje com 39 anos, foi um jogador de destaque na Premier League. Atuou por três grandes clubes, Arsenal, Manchester City e Liverpool, além do Celtic, na Escócia. Seu irmão, Yayá, jogou com ele no Manchester City, onde foi destaque. Kolo, aliás, fez grandes elogios ao irmão, dizendo que embora ele seja mais talentoso, era ele, Kolo, que trabalhava mais duro. E que se o irmão fosse tão esforçado quanto ele, teria conquistado uma Bola de Ouro.

Kolo Touré foi um dos primeiros marfinenses a atuar na Premier League. E não jogou em qualquer clube. Ele saiu do Mimosas, no seu país, para defender o Arsenal de Arsène Wenger, em 2002. Fez parte de um esquadrão histórico, os “Invincibles”, que terminaram a temporada 2003/04 invictos. Ele comentou sobre a derrota do Liverpool para o Watford, que encerrou uma longa invencibilidade.

“O Liverpool é um time incrível”, ele disse. “O que eles fizeram é inacreditável. Eles ganharam todo jogo. Nós não fizemos isso. Nós ganhamos alguns, empatamos alguns. [Ficar invicto] não é algo que realmente nos importamos”, disse o antigo zagueiro.

Ainda jogou pelo Manchester City, passou pelo Liverpool e encerrou a carreira atuando pelo Celtic. E quando chegou à Inglaterra, ele diz que sabia ter uma responsabilidade de mostrar que os jogadores do seu país eram talentosos e abrir esta porta Inglaterra.

“Eu sentia isso. Eu sentia que eu precisava fazer tudo de forma apropriada. Se você faz as coisas certas, as pessoas irão pensar ‘Kolo Touré vem da Costa do Marfim e ele está indo bem, isso significa que que há outros bons jogadores da Costa do Marfim’ e eles irão ir e encontrar novo talento lá”, afirmou o ex-zagueiro.

“Eu fiquei realmente orgulhoso porque [Didier] Drogba, Yayá, [Didier] Zokora, Gervinho, Salomon Kalou e muitos outros jogadores da Costa do Marfim vieram para cá expressar o seu talento. Mas houve duas coisas que eu precisei aprender muito rapidamente. A língua e o clima. Foi difícil sem a minha família. E parecia que estava sempre chovendo”, disse o hoje auxiliar técnico de Brendan Rodgers.

“Em um dia, me disseram para ir para Londres para um exame. Eu olhei pela janela e o céu estava azul. Eu pensei ‘que grande dia’. Então eu coloquei minha camiseta e fui para Londres. Inacreditável. Eu estava congelando. Eu aprendi logo de cara que você sempre precisa de um casaco neste país”, brincou.

“Yayá Touré poderia ser Bola de Ouro”

O marfinense se transferiu do Arsenal para o Manchester City em 2009 e também fez parte de um outro time vencedor: a equipe que conquistou o título da Premier League em 2012. Nos Citizens, jogou junto com o seu irmão, Yayá, desde 2010. Os dois ganharam até música da torcida do City.

“Se alguém me dissesse 15 anos atrás ‘Kolo, as pessoas irão estar cantando seu nome em todos os lugares no Reino Unido’, eu diria: ‘Você está brincando?’”, disse o ex-zagueiro. “Eu não posso me comparar ao meu irmão. Ele foi um jogador melhor do que eu, com certeza. Eu sei que ele ama o City, mas porque inglês não é a nossa primeira língua, às vezes dizemos coisas que não queremos dizer”.

“Ele foi melhor do que eu aqui e ele é mais talentoso. Mas eu sou mais competitivo que Yayá. Eu corria mais e trabalhava mais duro. Se Yayá trabalhasse tanto quanto eu, com o seu talento, ele ganharia uma Bola de Ouro”, disse o ex-jogador, talvez exagerando um pouco.

Carreira como técnico

Depois de se aposentar no Celtic, ele entrou para a equipe do técnico Brendan Rodgers, em setembro de 2017. Depois, acompanhou Rodgers na sua ida para o Leicester. E ele tem um objetivo claro: sabe que há poucos treinadores africanos e, por isso, quer repetir o mesmo que fez como jogador: abrir caminhos.

“No final da minha carreira, eu pensei o que eu poderia trazer ao mundo. Qual é a minha força na vida. Eu pensei em outras indústrias, mas a única coisa que eu realmente sei e gosto é futebol. A única indústria que eu senti que realmente posso trazer alguma criatividade foi o futebol”, explicou ainda Kolo Touré.

“Eu quero passar minha experiência e conhecimento para uma geração jovem. Uma das coisas mais importantes, que tocam meu coração, é que eu sou da África. Não há muitos técnicos africanos nas principais ligas na Inglaterra ou mesmo na Europa. Eu estou acostumado em ter que caminhar um longo caminho porque não há ídolos e não há exemplos para seguir. É por isso que eu estou tirando minhas licenças”, explicou Touré.

“Alguns dos meus amigos que estavam jogando talvez não tenham pensado nisso. Mas eu quero fazer isso porque a África precisa disso. Você está se colocando lá e vai ser difícil. Mas sempre deve haver uma pessoa para começar e o resto nos seguirá”, continuou.

“Eu tenho o sonho um dia que um time africano ganhe a Copa do Mundo. Talvez leve 20 anos, talvez 30. Talvez eu vá ser um dos que tenta, mas não aconteça e fique para a próxima geração. Mas é por isso que eu estou trabalhando. Este é o meu objetivo. Para conseguir alguma coisa, você tem que sonhar sobre isso. Se você não sonha com isso, você nunca deve vir para cá”, declarou o hoje auxiliar técnico.