Koeman abre mão do conforto da seleção neerlandesa para assumir o caos no Barcelona

Ídolo como jogador, Koeman tenta repetir como técnico o sucesso em campo, mas terá muito trabalho para lidar com um clube em crise

O Barcelona anunciou nesta quarta-feira (19) a contratação de Ronald Koeman, de 57 anos, para substituir Quique Setién no cargo de treinador. Será o quinto técnico holandês na história dos culés, seguindo o caminho de Rinus Michels, Johan Cruyff, Louis Van Gaal e Frank Rijkaard. O neerlandês chega com um contrato de dois anos, em um dos momentos mais conturbados do clube catalão em mais de uma década. Ao trocar o conforto da seleção neerlandesa pelo caldeirão que é hoje o Barça, assume um risco grande em sua carreira, que pode ter frutos igualmente grandes.

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A informação já corria pela imprensa europeia há alguns dias: a derrota por 8 a 2 para o Bayern de Munique nas quartas de final da Champions League havia sido a gota d’água para o Barça, e Setién deixaria o cargo, com Koeman como favorito a assumir. Confirmada a troca no comando, é difícil não focar a história no grande risco tomado pelo técnico.

Koeman na época de jogador do Barcelona (Divulgação/Barcelona)

Como jogador, Koeman teve uma carreira de muito sucesso no Barcelona. Foi contratado em 1989, quando era um destaque do PSV, e chegou para formar o Dream Team de Johan Cruyff. Foram seis temporadas como jogador do Barça, com 264 jogos e 88 gols. É, até hoje, o defensor com mais gols na história blaugrana.

Um desses gols, inclusive, é dos mais importantes da história do clube: o gol de falta contra a Sampdoria, na prorrogação da final da Copa dos Campeões em 1991/92 – justamente no último ano antes de ser rebatizada de Champions League. Aquele foi o primeiro dos cinco títulos do clube na competição. O zagueiro, por isso, é chamado de “herói de Wembley”. Foram 10 títulos conquistados no seu tempo de clube. Além da Champions League, quatro títulos de La Liga, uma Copa do Rei, uma Supercopa da Europa e três Supercopas da Espanha.

Foi no próprio Barcelona que Koeman fez a transição para a carreira de treinador. Ele defendeu o clube até 1995 e jogou até 1997 no Feyenoord, onde pendurou as chuteiras. Voltou à Catalunha para iniciar a sua nova carreira como técnico do Barcelona B na temporada 1998/99.  Ficou até 2000, quando foi convidado pelo Vitesse para assumir o cargo no time principal.

Ao longo de 20 anos de carreira como treinador, Koeman não repetiu o sucesso que teve como jogador. A maior parte de seus títulos por clubes vieram ainda na primeira metade de sua trajetória com a prancheta, quase todos ainda nos Países Baixos. Teve sucesso como técnico no Ajax, com dois títulos holandeses, uma Copa da Holanda e uma Supercopa holandesa. Treinou o Benfica, em 2005, e ganhou a Supercopa de Portugal, mas não ficou mais. Voltou à Holanda em 2006 para assumir o PSV e conquistou o título nacional em 2007.

Na temporada 2007/08, assumiu o Valencia e conquistou o título da Copa do Rei. Voltou à Holanda, desta vez para comandar o AZ, mas foi um fracasso e acabou demitido em dezembro  de 2009, seis meses depois de assumir. Seu trabalho seguinte foi em 2011, no Feyenoord, onde ficou até 2014.

Partiu para a aventura inglesa em 2014, dirigindo o Southampton, com a missão de substituir Mauricio Pochettino, que tinha ido para o Tottenham. Foi um sucesso, com a classificação do time para a Liga Europa e a melhor posição do clube na Premier League na história.

Seu último trabalho em clube, em especial, foi um grande fracasso: assinou um contrato de três anos com o Everton em junho de 2016, mas foi demitido já em outubro de 2017, com 24 vitórias, 14 empates e 20 derrotas em 58 jogos pelos Toffees.

Surpreendentemente, após aquele trabalho, Koeman assumiu a seleção neerlandesa, e lá conseguiu começar a dar uma volta por cima não apenas pessoal, como também de toda a equipe. O maior sinal da direção em que o técnico ia levando a Oranje foi a ótima campanha na Liga das Nações 2018/19, em que acabou vice-campeão, tendo vencido no caminho jogos contra França, Alemanha e Inglaterra, sendo esta última na semifinal. No fim, acabou derrotado por Portugal na final, mas a expectativa era grande para a Euro 2020.

Ronald Koeman quando se tornou assistente técnico no Barcelona (Divulgação/Barcelona)

Koeman então deixa a seleção de seu país em um momento em que se encaminhava para uma disputa de Eurocopa e, pouco mais à frente, de Copa do Mundo, para retornar ao clube em que mais brilhou como jogador. Identificação é um fator grande para o Barça escolher seus técnicos, e esse laço parece recíproco. Isso porque o treinador deverá encontrar o contrário de sua experiência na seleção neerlandesa ao assumir o clube.

O Barcelona vive o seu pior momento institucional pelo menos desde 2008. A crise interna profunda foi tanta ao longo da última temporada que, em diversas oportunidades, espirrou para além das paredes do clube. O conflito aberto entre jogadores e direção ficou especialmente claro no episódio em que Eric Abidal, diretor de futebol que acabou demitido nesta semana após a goleada do Bayern, criticou publicamente o comprometimento dos atletas e recebeu uma réplica pública de Lionel Messi.

O principal alvo da ira dos torcedores neste momento, no entanto, é o presidente Josep Maria Bartomeu. Em uma tentativa de se comunicar de forma transparente e prestar contas, o dirigente concedeu uma entrevista aos três diretores dos principais jornais esportivos de Barcelona, Mundo Deportivo, Sport e L’Esportiu, informando que o ciclo de alguns jogadores do elenco havia chegado ao fim, alertando para os tempos difíceis financeiramente nos próximos anos por causa da crise do Coronavírus e explicando os motivos por trás da escolha por Koeman: sua experiência e o fato de ter feito parte do Dream Team de Cruyff.

O Cruyffismo, por sinal, é um norte importante ao Barcelona em sua escolha de técnicos. Guardiola foi um discípulo claro do conjunto de princípios, que, em resumo extremo, tratam de manter a posse de bola, evitar o conforto do adversário e buscar o gol. Quique Setién foi escolhido no início do ano por ver o futebol de maneira parecida, mas evidentemente não conseguiu trazer resultados – suscitando até mesmo questionamentos sobre o lugar do Cruyffismo no jogo altamente físico e vertical que vemos atualmente.

Por fim, Koeman é mais uma escolha neste sentido. Foi treinado por Cruyff no Barcelona, é identificado com o clube e, sejamos sinceros, é um bom escudo para Bartomeu a princípio, muito embora seu trabalho como técnico não indique que seja um seguir desses princípios.

É de se imaginar que algum projeto minimamente estável tenha sido apresentado pelo Barça a Koeman para que este largasse tudo em seu país-natal para se aventurar em um clube cujo futuro a médio prazo é uma grande incógnita. Segundo o próprio Bartomeu, Messi será peça-chave dessa reconstrução, e o treinador conta com isso. A depender dos últimos ruídos vindos da Catalunha, é melhor que este projeto seja igualmente bom em convencer o argentino de que este Barça tem salvação e que a correção de curso é possível.