Jürgen Klopp e Mauricio Pochettino são os técnicos que qualquer clube gostaria de ter. São treinadores na acepção da palavra porque melhoram jogadores. Identificam no talento bruto a oportunidade de solucionar os seus problemas, sem necessariamente gastar milhões de euros. Têm filosofias que agradam aos torcedores. Transformam times em fornecedores de entretenimento e vencedores de partidas de futebol. Cada um ao seu estilo, são carismáticos, divertem nas entrevistas coletivas e se tornam personalidades à parte por terem muita personalidade.

Ambos fizeram seus clubes subir de patamar, sempre fiéis aos seus ideais, de jogo, de vida, de humanidade. Mas, pelo menos até este sábado, quando se enfrentam em Madri, pela final da Champions League, haverá a contestação: ganharam o quê? Por enquanto, por Liverpool e Tottenham, nada, além do coração dos seus torcedores e o respeito de todo o resto.

Ao fim do jogo no Wanda Metropolitano, um deles terá conquistado o título que precisa para ratificar o seu trabalho. E o outro continuará não precisando de um.

A Suíça é logo ali

“Eu não quero ir para a Suíça” (Foto: Getty Images)

Quis o destino que a primeira grande noite europeia da passagem de Klopp pelo Liverpool fosse contra o Borussia Dortmund. Em Anfield, os donos da casa perdiam por 3 a 1 até os 21 minutos do segundo tempo e precisavam virar. Empataram a 12 minutos do fim. Nos acréscimos, o gol de Dejan Lovren valeu a vaga nas semifinais. “Eu sei que este lugar é para grandes momentos do futebol. Nós não começamos a história, houve outras pessoas. Mas sabemos da nossa responsabilidade de tentar escrever algumas histórias legais no futebol e a desta noite foi uma história legal”, afirmou. Ele ajudou a escrever mais algumas, na Champions League da temporada passada e, especialmente, na goleada por 4 a 0 sobre o Barcelona.

Se há um paralelo a ser traçado entre Klopp e Bill Shankly, o pai fundador do Liverpool moderno, é que ambos tinham plena confiança no potencial do clube. Sabiam que mudanças eram necessárias, e desde o primeiro momento tentaram colocá-las em ação, mas acreditavam no que ele poderia se tornar se todos trabalhassem em uma única direção. Mais importante ainda, entendiam que a torcida do Liverpool precisava de um clube forte porque entendiam que a relação entre eles era mais profunda do que uma paixão. Era uma co-dependência: a torcida precisava do clube, e o clube não seria nada sem a sua torcida. Shankly sabia que o Liverpool era um gigante incubado e ajudou a despertá-lo. Klopp reconhecia o que o Liverpool havia sido e sabia o que ele poderia ser novamente.

É importante lembrar o ponto de partida para podermos apreciar a jornada. O Liverpool que Klopp pegou não estava há apenas uma temporada no buraco, depois de uma reformulação torta com o dinheiro da venda de Suárez. Estava espiritualmente devastado. O título da Premier League havia escorregado entre as chuteiras do seu idolatrado capitão, quando parecia certo que o jejum de mais de duas décadas seria quebrado, e o time retornara à inconvenientemente familiar mediocridade em velocidade recorde. Não havia mais Steven Gerrard, nem Jamie Carragher, nem nenhum ídolo local com o qual se identificar. Depois de dominar as décadas de setenta e oitenta, a sensação era que tudo havia sido tentado, todo o tipo de jogador, todo o tipo de dono, todo o tipo de técnico, para recuperar um pouco daquela glória, sem sucesso. A torcida que canta sobre esperança estava com dificuldade de encontrá-la em seus corações.

Por isso, a primeira medida de Klopp foi recuperar a fé. “Nós temos que transformar a desconfiança em confiança”, afirmou, em sua primeira entrevista coletiva. “Eu não sei se eu quero ser uma lenda aqui. Não me comparo com os geniais treinadores da história do Liverpool. É legal que vocês estejam ansiosos para os próximos anos comigo, mas não é minha preocupação. Eu sou um cara totalmente normal, eu vim da Floresta Negra. Eu sou um cara normal”. E fez uma promessa: “Eu não sou o cara que gritará ‘vamos conquistar o mundo’ ou algo assim. Mas vamos conquistar a bola? Sim: todas as vezes. Se eu ficar aqui quatro anos, talvez conquistemos um título. Se não, talvez meu próximo trabalho seja na Suíça”.

O prazo termina em outubro. Como torneios de pré-temporada não contam, a Champions League, neste sábado, é a última oportunidade de cumpri-lo. Chegou perto pelo menos quatro vezes. Foi derrotado em três finais. A primeira foi para o Manchester City, na Copa da Liga Inglesa “Caímos, mas temos que nos levantar. Apenas tolos idiotas ficam no chão esperando a próxima derrota”, afirmou, à Rocky Balboa. Em seguida, vieram a da Liga Europa e a da própria Champions ano passado. Mais duas derrotas. Na última Premier League, somou inacreditáveis 97 pontos que ficam ainda mais inacreditáveis quando são insuficientes para garantir o primeiro lugar.

Klopp e sua característica vibração (Foto: Getty Images)

Klopp, aliás, precisa de um título não apenas para fazer valer a sua palavra, mas também para acabar com a zica: sem contar as Supercopas da Alemanha, ele perdeu as últimas seis finais que disputou, contando duas Copas da Alemanha e a final da Champions de 2013, todas ainda no Borussia Dortmund. “Eu nunca estive em uma final com um time melhor do que este”, constatou Klopp, esta semana. “Não estou surpreso porque meus garotos misturam nosso potencial com atitude da melhor maneira que eu já testemunhei. Não gosto de culpar meus outros times. Eu amo todos. Eles deram de tudo”.

O que pode domar seu impulso de treinar o Grasshopper ou o Basel, caso perca para o Tottenham, é a sensação de que o título não é mais o objetivo, mas a consequência da evolução do Liverpool sob seu comando. Decorreu em três etapas: primeiro, colocar todos os jogadores no ritmo de um show do Slayer, correndo sem parar, pressionando sem parar; com o seu estilo absorvido, qualificar o elenco e devolvê-lo à Champions League; e, então, fazer os ajustes necessários para que seu time amadurecesse, aprendendo a controlar o jogo, a alternar os momentos de alta intensidade com os de cadência.

Quando ainda não havia conseguindo invadir as quatro primeiras posições da Premier League, Klopp foi questionado sobre as dificuldades de recrutar jogadores sem poder oferecer futebol de Champions League: “Se eu conversasse com um jogador, e ele me dissesse: ‘se vocês jogarem a Champions League ano que vem, eu estaria interessado’, eu desligaria o telefone. Isso é o que eu diria aos jogadores. É sobre empurrar o trem em frente, não pular em um trem em andamento”. O torcedor do Liverpool ficou cansado de ouvir jogadores indo embora com a desculpa de que “queriam ser campeões”. Porque o Liverpool não é um clube do qual um jogador precisa sair para ser campeão, mas um que se tornará campeão se todos os seus jogadores contribuírem o máximo que puderem.

O mais importante é que essa discussão não existe mais. Não parece provável, no momento, que o Liverpool fique fora da Champions League no futuro próximo. Tornou-se um clube que os grandes jogadores querem defender, capaz de gastar milhões quando necessário, mas também de prospectar promessas e formar jogadores. E os títulos aparecerão naturalmente. Seja em quatro anos, em cinco ou em seis. Seja com Klopp ou com o próximo treinador. Como Shankly, que não ganhou tanto quanto poderia, mas estabeleceu os fundamentos para as duas décadas mais vitoriosas da história do Liverpool, Klopp não precisa encher as prateleiras de troféus para marcar o seu nome entre as lendas do banco de reservas de Anfield. Ter recuperado o orgulho do torcedor e devolvido o clube aos grandes páreos do futebol europeu, não como uma exceção, mas como um processo, um crescimento sustentável, é mais significativo do que se ele tivesse ganhado a Liga Europa, a Copa da Liga, ou mesmo a Champions, como Rafa Benítez, sem fazer nada disso.

Duas vacas aprendendo a ver as horas

Mauricio Pochettino, do Tottenham (Foto: Getty Images)

Mauricio Pochettino não falava inglês, ou pelo menos não falava bem, quando chegou ao Southampton. Ao assumir o Tottenham, foi orientado pela diretoria a aprender, o que colocou manchetes maravilhosas nos sites ingleses – “Pochettino fala inglês em público pela primeira vez” – como se tivesse finalmente parado de engatinhar. A esposa encontrou uma professora de inglês que deu uma sessão de duas horas, duas dolorosamente enfadonhas horas. Para não perder a atenção do aluno, ela tentou algo diferente: “Colocou Skyfall, da Adele, o que é tão difícil, como você pode imaginar, se você não sabe nada de inglês. Mas cada vez que ouço Skyfall agora, eu sempre me lembro disso e sorrio”.

O inglês de Pochettino progrediu além de trilhas sonoras de James Bond, mas ainda não é perfeito, então, às vezes, as metáforas saem um pouco truncadas. “É que nem uma vaca que, todos os dias, durante 10 anos, vê o trem passar à sua frente no mesmo horário. Se você perguntar à vaca que horas o trem passa, ela não dará a resposta certa. No futebol, é a mesma coisa”, disse, antes de um jogo contra a Internazionale, pela Champions League, deixando até mesmo repórteres que precisaram lidar com as gaivotas de Eric Cantona um pouco confusos. O que Pochettino quis dizer é que tempo decorrido não significa necessariamente experiência, se as lições ao longo do caminho não forem aprendidas. Uma pessoa com a disposição intelectual de uma vaca pode bater com o rosto na porta centenas de vezes sem perceber que existe uma maçaneta.

Pochettino não chegou ao norte de Londres com status de Messias, com sorrisos e promessas. Era uma aposta como, outras que o clube havia feito, sem tanto sucesso, em tempos recentes. Era menos badalado que André Villas-Boas. Menos experiente que Juande Ramos. Não estava há um milhão de anos no futebol inglês como Harry Redknapp. Havia conseguido salvar o Espanyol do rebaixamento, com um trabalho sólido, e ficado em oitavo lugar na Premier League com o Southampton. Quando chegou ao Tottenham, portanto, ambos fizeram um juramento, implícito ou explícito, de aprendizado mútuo, de crescerem juntos, aprendendo com seus erros e aperfeiçoando seus acertos.

Clube com forte apelo popular e em uma cidade como Londres, o Tottenham mantinha suas glórias reservadas ao passado e mergulhava na mediocridade de sempre disputar a primeira divisão da Inglaterra, sem nunca conseguir se estabelecer no pelotão de frente. O terceiro lugar em 1989/90 não foi sequer igualado nas 25 temporadas seguintes. Ficou famoso por atiçar as esperanças de sua torcida apenas para encaixotá-las, temporada atrás de temporada, nunca atingindo o seu potencial. Em uma Premier League em que o dinheiro crescentemente falava mais alto, e sem conseguir gerar a mesma renda, ou encomendá-la dos poços de petróleo do Oriente Médio, precisava fazer algo diferente, ou ter alguém diferente, para competir.

Encontrou em Pochettino esse alguém. Um obcecado pelo futebol, da escola de Marcelo Bielsa, com quem trabalhou no Newell’s Old Boy. “Quando eu ainda era jovem, ele me perguntou se eu queria ser treinador, e eu disse que sim. Ele, então, me disse: ‘Mauricio, você precisa administrar sua carreira e, se quiser ser treinador, precisa fazer isso da maneira que você quiser, e nunca copiar o que os outros fazem. Você precisa encontrar seu próprio caminho, por meio de suas emoções e por como você se sente’”, contou. E essa lição ele aprendeu muito bem: “Cada treinador tem seu próprio estilo, e o mais importante é ser consistente. Não adianta jogar de certa maneira se você não acredita nisso, se não faz você sorrir e ficar satisfeito jogando futebol. As coisas sempre mudam, mas o mais importante é nunca perder o seu caminho. O futebol é algo que gera felicidade e prazer, emoções. Estamos gerando emoções a cada minuto”.

O Tottenham havia pulado de Harry Redknapp para André Villas-Boas para Tim Sherwood, claro indicativo de que não fazia ideia do que queria. Pochettino resolveu esse problema. Ao contratá-lo, o clube rubricava a sua filosofia de jogar com a bola no chão, com a bola no pé, impondo-se contra os adversários. E seria assim mesmo quando as coisas dessem errado, como o argentino deixou claro nesta entrevista do começo da temporada, depois de derrotas consecutivas para Watford, Liverpool e Internazionale – embora, na sua maior vitória, contra o Ajax, a saída tenha saído as bolas longas para Llorente.

“Se colocarmos a bola no ar para brigar por ela, nós perderemos. Cada vez que o time jogou bem, manteve a posse de bola e jogou do jeito que queremos jogar. Estivemos perto de vencer. Não somos um time que pode jogar lutando como o Atlético de Madrid, confortável em defender recuado e contra-atacar. Um time de posse como o Totenham não pode mudar seu estilo da noite para o dia. Tentar fazer isso seria trair anos de trabalho duro para chegar a este ponto e, pior ainda, seria trair as convicções dos jogadores e da comissão técnica dos Spurs. Somos um time confortável com a posse de bola, no campo do adversário. Esse é o time que temos, os jogadores que temos, e como a equipe é. É impossível mudar. Mudar seria trocar sua identidade, e seria muito difícil vencer jogos de uma maneira diferente”.

Esse é um bom primeiro passo. O segundo é encontrar os jogadores para colocar o plano em ação, o que nem sempre é fácil em um clube com os recursos financeiros do Tottenham, especialmente durante a construção de um estádio novo. Todos sabem que os Spurs não contrataram ninguém nesta temporada, mas, no total dos cinco anos de Pochettino, gastaram € 324 milhões em compras e receberam € 293,18 milhões em vendas, um saldo de € 31,39 milhões negativos, o sexto mais baixo contando todos os clubes que disputaram a Premier League no período – para efeito de comparação, segundo o Transfermarkt, o saldo do Manchester City foi de € 625 milhões negativos nesses mesmos mercados.

Pochettino, após se classificar à final da Champions (Foto: Getty Images)

E aqui entra a capacidade de Pochettino de melhorar os jogadores. Encontrar o talento na base e elevá-lo ao mais alto nível, como fez com Harry Kane. Preparar jovens para o time principal, como Harry Winks. Encontrar reforços como Heung-min Son, do Bayer Leverkusen, Toby Alderweireld, do Atlético de Madrid, e Davinson Sánchez, do Ajax, e melhorá-los. Procurar longe dos holofotes jovens como Dele Alli, Kieran Trippier, Eric Dier ou Ben Davies e transformá-los em peças importantes de um time que briga pela ponta da Premier League. O desenvolvimento de jogadores ingleses foi particularmente apreciado em um país que sempre discute como a internacionalização da sua liga atrapalha sua seleção.

“Eu senti, quando cheguei na Espanha, e agora na Inglaterra, que dessa maneira conseguimos agradecer ao país que abriu as portas, quando eu não falava inglês, e como as pessoas me tratavam, minha família, minha equipe. É um jeito de dizer obrigado para a Premier League e para as pessoas que confiaram em mim. Quando eu cheguei na Inglaterra, cinco anos atrás, era um pouco de tabu: ‘jogadores jovens não conseguem jogar, não temos o talento de espanhóis ou argentinos ou brasileiros’. Não dissemos nada. Não dissemos sim ou não. Apenas começamos a observar e pensamos: ‘oh, vocês têm o mesmo talento’. Vocês precisam acreditar no seu talento e fornecer a plataforma para mostrar que eles são capazes de jogar em um bom nível. Começamos a trabalhar e tentamos provar que o talento inglês é que nem o espanhol, o argentino ou o brasileiro, e começamos a acreditar. Amamos dar oportunidades a jovens e ajudá-los a alcançar seus sonhos, e eles merecem ficar orgulhosos porque trabalham duro e aproveitam as oportunidades”

E Pochettino parece a pessoa certa para formar jovens não apenas pelo seu conhecimento de futebol, mas por seus ideais humanos. Ele não quer jogadores que se fecham em uma bolha, com seus aspones e bajuladores, sem contato com a realidade. Ainda preserva a filosofia antiga do futebol como um jogo de pessoas comuns para pessoas comuns. Um local onde a classe trabalhadora se encontra aos domingos e se identifica com o que vê em campo. Um desafio quixotesco diante da crescente glamourização do esporte.  “Não é uma cruzada pessoal contra a desumanização do futebol. Sinto a responsabilidade de ser espontâneo e me comportar naturalmente. Não sei se humanizar é a palavra correta. Temos que ser pessoas normais, que conduzem um grupo de pessoas normais com talento para jogar futebol. Mas eles não são apenas sua imagem pública, nem seus egos de estrela, nem podem ser intocáveis. Sentimos que se pode viver de outra maneira. Penso que devemos atuar espontaneamente, dizer as coisas claramente e não encenar diante dos meios de comunicação. E não vender uma imagem que não é nossa”, explicou, em entrevista recente.

O que Pochettino alcançou com essa filosofia é fabuloso. O Tottenham terminou o Campeonato Inglês entre os quatro primeiros pela quarta vez seguida, o que não acontecia desde o começo do trabalho de Bill Nicholson, entre 1959 e 1963. Participará da Champions League na próxima temporada também pela quarta vez seguida, e tudo isso aconteceu enquanto o White Hart Lane era modernizado, o que coloca no horizonte um futuro com menos restrições financeiras. Contratos sempre podem ser quebrados mediante muita grana, mas nomes importantes como Kane e Son recentemente renovaram seus vínculos, sinal claro de que acreditam no projeto que Pochettino comanda.

O fato de nunca ter sido campeão sempre permeia as avaliações de Pochettino. E é pertinente. Mas não se pode perder o contexto. Afinal, ter conquistado a Copa da Inglaterra ou a Copa da Liga, da qual chegou perto em 2015, mudaria alguma coisa? Como cobrar um título inglês se, em toda a história do Tottenham, apenas dois homens o conseguiram? Lendas, como Arthur Rowe e Bill Nicholson. Como cobrar o título da Champions League, se nenhum homem o conseguiu? E ninguém chegou mais perto do que Pochettino, ganhe ou perca no próximo sábado. “Não é demagogia ou falsa modéstia. A mim, sim, ficará a satisfação, mas, quando você vê a família curtir, os jogadores, e os torcedores, essa é a verdadeira recompensa. Quero ganhar mais por eles do que por mim. É isso que me dá força. Eu não quero dizer depois da partida que ganhei a Champions, mas que ganhamos a Champions”, encerrou.