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Jason Cummings tem 24 anos e uma carreira mediana. Começou no Hibernian, até passou por clubes de mais expressão, como Rangers e Nottingham Forest, e teve dois amistosos pela seleção escocesa. Desde 2018, está um jogador de terceira divisão, defendendo Peterborough, Luton e Shrewsbury, o trava-língua que, perdendo por dois gols de diferença, conseguiu arrancar o empate e forçar o replay contra o Liverpool, na quarta rodada da Copa da Inglaterra.

Cummings marcou duas vezes, a segunda com direito a rolinho sobre Dejan Lovren, um zagueiro finalista de Copa do Mundo. Esse duelo entre atletas de elite e outros que sonharam em chegar lá sem nunca conseguir, a invasão de gramado equivalente à festa de um acesso pelo empate contra o clube em melhor fase no mundo, a realização do sonho de visitar Anfield conquistado pelo suor dos jogadores, tudo isso é o que justifica a existência de um torneio como a Copa da Inglaterra.

No entanto, é preciso equilibrar a estrutura que permite os contos de fada com os interesses dos clubes maiores (e não apenas deles), cujos calendários estão cada vez mais inchados, com competições longas, amistosos caça-níqueis ao redor do mundo e compromissos com as seleções, no momento em que o limite de 365 dias por ano é desafiado por ideias como o Mundial de Clubes expandido e uma fase de grupos maior na Champions League.

Foi ávido o debate sobre a Copa da Liga Inglesa nesta temporada, com clubes que deveriam lhe dar atenção ignorando-a e, especialmente, quando o Liverpool colocou em campo um time de jovens nas quartas de final contra o Aston Villa, porque tinha a semifinal do Mundial um dia depois. Agora, Jürgen Klopp volta à tona contra o calendário do futebol inglês, colocando os holofotes sobre os replays ao prometer recorrer mais uma vez ao sub-23 treinado por Neil Critchtley no jogo de volta contra o Shrewsbury, marcado para o começo da pausa de inverno que estreará na temporada inglesa neste mês de fevereiro.

O replay é uma daquelas tradições inglesas que existem apenas porque são tradições inglesas. Houve momentos em que era pior. Até o começo dos anos noventa, eram disputadas quantas partidas de desempate fossem necessárias para encontrar um vencedor. Desde 2018, em meio a debates sob o acúmulo de jogos, ele foi excluído da quinta rodada, o que significa que, para os clubes da Premier League, existe apenas na terceira, quando eles entram na competição, e na quarta – para o resto da pirâmide, está presente desde a fase classificatória.

Continua parecendo uma relíquia, um artefato de tempos antigos e diferentes em que havia menos torneios e a exigência física era menor. Entre os principais centros europeus, a Inglaterra é o único país que, na prática, tem a possibilidade de jogos de ida e volta nas primeiras rodadas de sua principal copa nacional, depois de a Espanha adotar o jogo único na Copa do Rei. Em um calendário já pressionado por uma segunda competição mata-mata, o replay soa como um despropósito.

Claro que o Shrewsbury valorizou o empate e, acima de tudo, ter forçado uma visita a Anfield, o que pode render uma graninha extra para equipamentos de análise e de drenagem, mas, pensando friamente, suas chances de avançar não seriam maiores se, ao fim do 2 a 2, houvesse uma disputa de pênaltis? Agora que o Liverpool acenou com a utilização do sub-23, a chance aumenta. Essa, porém, não é a regra. E não é apenas o calendário dos grandes que está sendo estressado por essa particularidade do regulamento da FA Cup.

O Liverpool disputou 38 jogos oficiais nesta temporada, contando aquele contra o Aston Villa, em sete competições diferentes – Supercopas da Inglaterra e da Europa, Premier League, Champions League, Mundial de Clubes e as duas copas. O Shrewsbury, com uma liga com mais rodadas e um torneio mata-mata extra (o EFL Trophy), já jogou 36, sendo dois replays contra o Bradford, na primeira rodada, e Bristol City, na terceira.

O Oxford United do treinador Karl Robinson, que segurou o 0 a 0 com o Newcastle no St. James Park e decidirá em casa, chegou às quartas de final da Copa da Liga Inglesa e soma 39 partidas nesta campanha. “Você está perguntando a mim ou ao meu presidente? Meu presidente quer (o replay), acredite em mim. Mas eu não acho que (acabar com ele) seria ruim. Agora vamos jogar nove vezes em fevereiro com um elenco de 20 jogadores. Não temos os recursos para isso”, disse, segundo a BBC.

“Seria melhor para todos se terminássemos hoje. Dê-nos um resultado imediatamente e não nos dê um acúmulo de jogos em fevereiro, quase março. No nosso nível, jogamos uma quantidade estúpida de partidas. Vamos chegar a 60 nesta temporada, o que é ridículo. O corpo dos meus jogadores está próximo de quebrar. Não é justo. Os grandes clubes afirmam que é um problema para eles, mas é igualmente um problema para quem está abaixo na pirâmide”, completou.

Na reportagem da BBC, há reclamações dos treinadores de Newcastle (Steve Bruce), Tottenham (José Mourinho), Southampton (Ralph Häsenhuttl), Cardiff (Neil Harris) e Reading (Mark Bowen), clubes de diferentes ambições unidos pela perspectiva de um replay após terem empatado suas quartas rodadas. E não é preciso procurar muito para encontrar declarações parecidas de nomes como Pep Guardiola, Nuno Espírito Santo e Brendan Rodgers, que evitou fazer planos para a pausa de inverno por causa da possibilidade de um jogo extra – acabou vencendo o Brentford por 1 a 0.

Porque nem todo mundo está na posição de Jürgen Klopp de simplesmente abrir mão de uma competição valorizada na Inglaterra como a Copa da Inglaterra, pelo seu crédito quase infinito com a torcida e apoio incondicional da diretoria. Segundo o jornalista James Pearce, do The Athletic, um dos mais bem informados sobre o Liverpool, o plano de usar o sub-23 no replay, caso fosse necessário, foi acordado com o presidente do Fenway Sports Group, Mike Gordon, antes mesmo da partida. A avaliação é que é mais importante manter a promessa feita aos jogadores e maximizar as chances na Premier League e na Champions League do que avançar na FA Cup.

Segundo Klopp, as “autoridades”, no caso a Premier League, enviaram uma carta aos clubes pedindo que eles não aproveitassem o período de folga no começo de fevereiro para fazer amistosos. A 26ª rodada foi desmembrada em dois fins de semana, dando mais ou menos 15 dias de descanso para cada clube. Depois de enfrentar o Southampton, no próximo sábado, o campeão europeu volta a campo pela liga inglesa apenas em 15 de fevereiro, contra o Norwich, com uma semana de repouso completo. O desempate contra o Shrewsbury está marcado para o próximo dia 4. “Pretendemos honrar a ideia inicial da pausa. Temos respeito pelo bem-estar dos jogadores e eles precisam dessa folga. Alguns deles vão viajar. Ainda precisam se manter em forma, mas não precisam jogar futebol naquela semana, nem vir para Melwood (centro de treinamento do clube)”, disse o alemão.

O argumento dele não é ruim. Não importa que a Premier League e a Federação Inglesa, responsável pela Copa da Inglaterra, sejam instituições diferentes. Foi comunicado ao Liverpool que haveria duas semanas de folga e o clube se planejou para elas. E Klopp é preocupado demais com o ambiente do vestiário para arriscá-lo com uma quebra de promessas, mas, no contexto específico da temporada do Liverpool, é possível questionar o quanto dessa decisão também tem a ver com a vontade de provar um ponto.

Vamos ser sinceros: o Liverpool será campeão da Premier League. Caso vença o jogo atrasado contra o West Ham na próxima quarta-feira, abrirá 19 pontos para o segundo colocado, com 42 em disputa. As oitavas de final da Champions League começarão apenas em 18 de fevereiro. E a Copa da Inglaterra não é a Copa da Liga, e, por isso, esse segundo esnobe de Klopp está sendo mais questionado. É o torneio mais antigo do mundo, e há embutida nessa decisão uma pitada de desrespeito a ele e ao próprio Shrewsbury que não tem nada a ver com isso e dificilmente terá outra oportunidade de encarar um Liverpool forte em um Anfield pulsante.

Para o próprio Liverpool, há também um valor especial. Ele demorou para conquistar a sua primeira Copa da Inglaterra – apenas em 1965 – e, em toda a história, completou a Dobradinha (liga + copa) uma única vez. Com a Premier League muito bem encaminhada, há uma chance bem razoável de consagrar ainda mais esse time com um feito raro. E considerando o histórico recente dos Reds na Champions League, não é absurda a ambição de buscar a inédita Tríplice Coroa, que apenas um clube inglês, o Manchester United de Alex Ferguson, conseguiu.

Por mais que haja jogadores exaustos no Liverpool, há outros que precisam de tempo de jogo. Dejan Lovren, Joel Matip, Divock Origi, Naby Keita e Adam Lallana ainda estão todos na casa dos 1.000 minutos nesta temporada. Xherdan Shaqiri nem chegou aos 300. Fabinho está voltando de lesão, e Minamino acabou de chegar. E é bom pontuar que o replay também existe porque a maioria desses jogadores acima não conseguiu administrar uma vantagem de dois gols de diferença contra o 16º colocado da terceira divisão.

O fato de que nem o próprio Jürgen Klopp deve estar na lateral do gramado aumenta a sensação de que não é exclusivamente “sobre os jogadores”, como ele mencionou em declarações anteriores em que reclamou do calendário, mas também para marcar posição. Por mais que ele seja um treinador, digamos, ativo durante as partidas, poderia adiar suas férias alguns dias sem tantos danos físicos. A isso se soma o histórico de fracassos do Liverpool na FA Cup sob o seu comando, sem nunca ter conseguido ir além da quarta rodada, para compor uma imagem mais ampla de que ele simplesmente não está nem aí para a competição.

É importante que treinadores como Klopp e outros de seu tamanho utilizem o megafone à disposição para questionar as insanidades do calendário inglês, para cutucar as autoridades até que elas se sentem à mesa e busquem uma solução mais racional, como ele próprio sugeriu quando a Copa Africana de Nações voltou a janeiro. No entanto, neste caso específico, pelo momento da temporada do Liverpool, a decisão de abrir mão da FA Cup parece um pouco forçada, carrega certa arrogância e vai de encontro às ambições do clube.

Kick and Rush

– A FA respondeu as críticas de Klopp com um comunicado ao Telegraph: “A FA esforçou-se muito para criar uma pausa de inter-temporada, trabalhando próxima à Premier League e a os clubes. É uma nova e importante adição ao calendário do futebol inglês, em benefício dos clubes e dos seus jogadores. Antes da temporada 2019/20, todos os cubes aceitaram que a quarta rodada da Copa da Inglaterra teria replays, quando fossem necessários, durante a primeira semana da inter-temporada. Isso afetará apenas um pequeno número de clubes por causa da divisão da rodada da Premier League durante a pausa”.

Scott Davies, goleiro do Tranmere Rovers e um infeliz torcedor do Manchester City (Foto: Getty Images)

– Quando Harry Maguire acerta um chute daqueles aos 10 minutos do primeiro tempo, fique tranquilo que tudo dará certo para o seu time naquele jogo. E quando você é o goleiro adversário e aproveitou a fase ruim do Manchester United para lembrar o quanto sofreu torcendo pelo Manchester City no auge da era Ferguson, e dizer que está feliz que agora os papéis se inverteram, tenha certeza que seu dia será ruim. Foi o caso do goleiro do Tranmere Rovers, Scott Davies, e Ole Gunnar Solskjaer não deixou barato: “Obrigado por nos ajudar a motivar os jogadores e os torcedores”.

– David Moyes estreou pelo West Ham goleando o Bournemouth, o que diz mais sobre a péssima temporada do Bournemouth do que sobre o seu impacto sobre a equipe londrina. Desde então, perdeu do Sheffield United, empatou com o Everton e foi goleado pelo Leicester, com uma vitória por 2 a 0 sobre o Gillingham, da terceira divisão, pela FA Cup, sendo o único alívio. No fim de semana, foi eliminado da competição por um time no máximo misto do West Brom, em casa, embora tenha colocado em campo uma escalação forte, com Lanzini, Declan Rice, Fornals, Haller e Diop. Está cada vez mais difícil sustentar a tese que apresentou em sua coletiva de apresentação: “É isso que eu faço: eu venço”.

– Foram sorteados os confrontos da quinta rodada da Copa da Inglaterra, e sem querer tirar os méritos do Manchester City, mas que sorte eles dão com as bolinhas! Seus últimos onze adversários na competição foram Burnley, Cardiff, Wigan (derrota em 2018), Rotherham, Burnley (de novo), Newport County, Swansea, Brighton, Watford, Port Vale e Fulham. O próximo será o Sheffield Wednesday, décimo colocado da segunda divisão.