A conquista de um título, na maioria absoluta das vezes, não se explica como algo meramente pontual. Há uma longa trajetória por trás, quase sempre de percalços e crescimento, até que a perseguida ambição renda um final feliz. A caminhada de Jürgen Klopp, particularmente, é uma das mais exemplares neste sentido. O treinador sofreu duras derrotas. Perdeu duas finais de Liga dos Campeões e muitas vezes foi taxado como um ‘derrotado’, mas nunca negou sua filosofia de trabalho e sua crença de futebol. Neste sábado, enfim, o alemão ergueu o grande prêmio. E o alívio era inegável em seu semblante, por ver que todo o esforço empreendido enfim rendeu um desfecho diferente na Champions. Como tinha que ser, deu uma excelente entrevista depois da vitória sobre o Tottenham.

“Foi realmente uma noite emocionante. Estou exausto, para ser honesto, mas muito mais calmo do que eu pensava quando isso finalmente aconteceu. O maior sentimento é o de alívio. Eu sinto alívio pela minha família, porque nas últimas seis vezes estivemos de férias com uma medalha de prata e isso não é tão legal. Isso é pelos garotos. Os torcedores e os donos não colocaram qualquer pressão e apreciaram o desenvolvimento dos grandes passos que demos. Os jogadores estavam chorando em campo porque é tão emocionante, tão grande, e significa muito para nós”, desabafou o alemão. “Tive que sentar com a imprensa muitas vezes explicando como perdemos este jogo. Agora eu não quero explicar por que ganhamos, apenas quero aproveitar”.

Sobre o jogo, Klopp preferiu exaltar a grande virtude do Liverpool na noite: o espírito de luta, diante das condições excepcionais da partida. “É a melhor noite de nossas vidas profissionais. Você já viu uma equipe como esta, que lutou sem combustível no tanque? Esta noite foi um grande desafio, lidando com três semanas de folga. Você nunca tem isso. É difícil para manter o ritmo, ou ter o ritmo de volta. E para dois times ingleses, foi quente. Foi uma luta. Hoje os rapazes mostraram resiliência e Alisson precisou fazer algumas defesas. Ele foi sensacional, imbatível. Isso nos ajudou”, analisou.

O alemão, aliás, projeta que o sentimento da vitória manterá a chama neste time do Liverpool: “É apenas o começo para este grupo, que tem uma idade maravilhosa. Essa conquista é enorme, tenho um monte de medalhas de prata e agora ganhei uma de ouro. Isso é legal. Todo mundo está empolgado, mas amanhã estou certo que, quando andarmos pela cidade, iremos realmente perceber o que fizemos. Agora você pode dizer isso: 97 pontos na Premier League e vencer a Champions é realmente incrível”.

Klopp também fez questão de ressaltar a importância de alguns jogadores e a maneira como eles ajudaram a transformar o caminho do Liverpool. Antes da ‘decisão inglesa’, James Milner tomou a palavra e deu uma inflamada preleção, ressaltando o caráter daquele jogo e o significado para a história dos Reds. Enquanto isso, Henderson foi o capitão que reconduziu a equipe, um retrato da mudança de ambiente, após ser alvejado pelas críticas ao longo dos anos.

“Sem a preleção de Milner no vestiário, com um técnico estrangeiro, eu penso que não teria sido possível vencer isso. Estou muito feliz pelos rapazes. Vocês sabem o que as pessoas disseram sobre alguns jogadores deste time. Jordan Henderson é o capitão que venceu a Champions League 2018/19. Isso é tão satisfatório”, exaltou.

Klopp revelou que, antes da final, recebeu uma mensagem de Pepe Guardiola. Ela veio através do fisioterapeuta do clube, contratado no início da temporada, e brincou com a situação: “Nosso fisioterapeuta trabalhou no Manchester City no começo do ano, mas ele queria vencer a Champions – não, é uma piada! Mas falei com Guardiola e nós prometemos que vamos chutar as bundas um do outro de novo na próxima temporada. Vamos buscar tudo outra vez e veremos o que conseguiremos”.

Além disso, o treinador demonstrou toda a sua empatia com a situação do Tottenham e de Mauricio Pochettino após o revés: “Sei melhor que ninguém como o Tottenham se sente neste momento. Eles fizeram uma temporada sensacional e mereciam a vitória também, mas marcamos os gols nos momentos certos. Disse a Mauricio depois do jogo que ele deveria estar realmente orgulhoso do que fizeram nesta temporada”.

Por fim, o alemão relembrou que o palco da decisão da Champions 2019/20 representa demais ao Liverpool: “Eu já disse à Uefa que estaremos lá! Nós, por vezes, carregamos o fardo da história. Fazer Istambul acontecer novamente será um objetivo, mas será difícil”. Se quiser mesmo, poderá pensar na nova paródia com ‘seven’. A cantoria de Klopp diante dos microfones é a maior prova de sua leveza, depois de tantas derrotas duras em finais: