Montar um time é o principal trabalho de um técnico. Ele precisa criar um jeito de jogar que acomode as qualidades de cada um dos seus jogadores. Ter um bom esquema tático é importante, mas não é tudo. É preciso ter também a capacidade de liderar o time em momentos complicados. Isso vale para qualquer profissão, mas no esporte, ainda mais em esportes coletivos como o futebol, isso é exaltado. Jürgen Klopp conseguiu unir tudo isso em um só jogo para ajudar a escrever um capítulo épico na história do Liverpool, do estádio Anfield Road e da Liga Europa.

COMO FOI O JOGO: Liverpool à imagem de Klopp foi todo coração para fazer o inacreditável contra o Dortmund

Um grupo de jogadores de futebol é, antes de tudo, um grupo humano. Em um jogo como Liverpool e Borussia Dortmund, temos estrelas, jogadores conhecidos no mundo todo, poliglotas, milionários. Caras que lidam com a fama, são atletas de alto nível, capazes de algo que a maioria só sonha. Nada disso, porém, faz deles menos humanos. Todos precisam lidar com problemas em casa, com ansiedade, com dias ruins, com suas próprias inseguranças.

Em um vestiário com o de Anfield Road, na noite deste dia 14 de abril de 2016, as paredes testemunharam mais um momento épico. Dentro daquele espaço, o técnico Jürgen Klopp e os jogadores do Liverpool viviam uma situação muito difícil. Perdiam em casa por 2 a 0 diante de um adversário que parece em um estágio como time melhor.

Vivia as incertezas, os medos. Um fracasso ali marcaria mais um pouco a carreira daqueles jogadores. Colocaria mais pressão em um clube que se acostumou a ficar no topo e que deve, mais uma vez, ficar fora dos quatro primeiros colocados na Premier League. Um clube que tem ambição e uma torcida que sonha alto, que cobra muito. O canto das arquibancadas certamente chegava aos ouvidos dos jogadores. Dos seus lugares nas arquibancadas, os torcedores gritavam que eles nunca andariam sozinhos. Mandavam a mensagem aos jogadores: não os abandonaremos.

Klopp tinha a difícil missão de fazer seus jogadores acreditarem. Era muito a acreditar. Fazer três gols nunca é fácil e, para o Liverpool, nesta temporada, tem sido particularmente difícil. Mas ele motivou os jogadores. Certamente falou da parte tática, falou dos planos para atacar o adversário, das falhas que o time apresentou diante do adversário e as brechas que o adversário também deu. Mas também teve a parte motivacional. É inegável que isso também ajuda. E ajudou.

“Eu disse aos jogadores para não tocarem na placa ‘This is Anfield’ até nós ganharmos alguma coisa. É um sinal de respeito”. Jürgen Klopp

Divock Origi, o autor do primeiro gol da reação quando o time perdia por 2 a 0, contou como foram as palavras do técnico. “Criem uma história para contar aos seus filhos, aos seus netos”. Façam história. Dizer isso na sala da sua casa ou em frente ao espelho já pode ter algum efeito, mas estamos falando de Anfield Road. Estamos falando de um dos estádios mais místicos do futebol mundial. Falamos de um clube que se caracterizou por grandes histórias em competições europeias. De uma camisa que se acostumou a contar histórias de milagres.

Istambul está até hoje tatuado na memória de qualquer torcedor do Liverpool. Está no Olimpo dos jogos de futebol, como a final da Champions de 1999 entre Manchester United e Bayern, como tantos outros jogos que escreveram a história do futebol. Estamos falando de um ambiente favorável, um clube com toda a história, uma torcida bradando com toda a capacidade dos seus pulmões. Estamos falando de um técnico que traz no seu DNA um estilo de jogo que incluiu alma, coração e um pouco de loucura na sua tática.

“Nós acreditamos nisso”, contou Origi. “É um sentimento fantástico. Eu acho que foi um dos melhores jogos dos últimos dois ou três anos. Nós nunca paramos de acreditar. Nós dissemos no intervalo que nós não tínhamos nada a perder. Apenas acreditar”, contou, depois do jogo, Dejan Lovren, o autor do gol da classificação. “A coisa mais importante hoje foi que o time jogou com coração e os torcedores nunca, nunca nos deixaram”, declarou o zagueiro Mamadou Sakho, autor do gol de empate.

Lovren, do Liverpool comemora a classificação com Klopp (AP Photo/Jon Super)
Lovren, do Liverpool comemora a classificação com Klopp (AP Photo/Jon Super)

Tudo isso mostra um pouco do que é Klopp e do que foi a noite em Anfield. O próprio técnico falou sobre isso depois do jogo. “É difícil explicar. Foi uma noite maravilhosa, maravilhosa. Para ser honesto, o jogo foi estranho desde o começo. O jogo todo mostrou a qualidade do Dortmund. É absolutamente incrível”, afirmou Klopp.

“Nós colocamos Joe Allen e Daniel [Sturridge] em campo e nós passamos a mensagem a eles: nós queremos mostrar caráter. Eu não me importo se nós perdermos, mas nós queremos mostrar caráter. Nós fizemos isso e foi brilhante e é isso que o futebol em competições europeias pode ser. É difícil de acreditar”, declarou ainda o técnico do Liverpool. “Nós tínhamos um bom plano no primeiro tempo, mas nós sofremos dois gols. Então nós jogamos o plano no lixo”, contou o técnico.

“Meu braço direito dói. Eu não sei por que, quem me acertou”, riu Klopp. “Foi uma grande noite. É preciso ter paixão. Você precisa acreditar. Eu acho que nós merecemos. Nós marcamos os gols, nós lutamos, foi merecido”, disse ainda o alemão. Até o próprio Borussia Dortmund teve um comportamento com muito espírito esportivo. Depois do jogo, o twitter do clube alemão parabenizou o adversário e desejou sorte na caminhada para Basel, cidade que receberá a final.

Nós, que estamos a um oceano de distância e somos apaixonados por futebol, só temos a agradecer. Noites como essa fazem com que o futebol fique ainda mais presente em nossos corações.