Ainda no início de sua carreira como treinador, lá em 2001, pelo Mainz, Jürgen Klopp se deparou com um documentário que influenciaria toda a sua trajetória pelos 20 anos seguintes. Tratava-se de uma produção sobre os All Blacks, a seleção neozelandesa de rúgbi. Nele, o alemão viu um padrão de excelência e entrega que, mais tarde, cobraria de todos os seus atletas. E é nisso que ele aposta para manter equilibrada e ambiciosa um Liverpool que acaba de conquistar tudo o que podia e desejava.

Em entrevista ao jornal inglês Guardian, Klopp contou como uma frase em especial daquele documentário o marcou de forma duradoura. “Sentimos que estamos no meio de algo, não no fim. Temos que dar tudo até terminarmos nossas carreiras. Enquanto você vestir esta camisa, não é permitido menos do que 100% de entrega. Essa frase não é minha, veio dos All Blacks. Vi isso uma vez em um belo documentário sobre os All Blacks e guardei comigo para sempre. Isso vale para cada jogador do Liverpool e para mim também.”

O contato do treinador com o filme aconteceu em 2001, quando ele estava prestes a embarcar em sua primeira pré-temporada no comando do Mainz, onde começou sua trajetória como técnico. Klopp ficou impressionado pela postura dos jogadores neozelandeses, que passavam longe de ser grandes estrelas milionárias.

“Fiquei completamente impressionado por esses caras grandes e como eles falavam uns dos outros. Na época, os All Blacks eram, de longe, os melhores do mundo. Acho que eles tinham uma porcentagem de vitórias de mais de 70%, e era realmente impressionante. Todos eles eram amadores, talvez tinham um pouco de dinheiro, não sei. Eles trabalhavam como açougueiros, pedreiros, essas coisas. Esses caras impressionantes falavam sobre seu passado e sobre o que significava para eles jogar por aquele time.”

O impacto em Klopp foi imediato. Desde a primeira temporada em diante, o seu Mainz tinha uma tradição para entrar nas partidas no ânimo certo, tirada diretamente do principal símbolo dos All Blacks, o haka.

“Nos dois minutos finais antes de o ônibus chegar no estádio, sempre ouvíamos o haka. Quando a porta abria, não sei se as pessoas pensavam que um bando de garotos sairia do ônibus, porque era muito barulho, e isso nos dava um ânimo. Eles eram os All Blacks. A principal cor do Mainz é o vermelho, então nós éramos os All Reds. Ninguém notou isso porque éramos um time pequeno, mas, para nós, era algo importante. Foi assim que tudo começou para aquele time. Os jogadores gostavam muito daquilo, isso nos deu uma chance de irmos de um time em que ninguém estava interessado para um time em que pelo menos nós estávamos interessados. Isso nos ajudou.”

Jogadores neozelandeses fazem o haka para Jürgen Klopp em visita ao Liverpool

Seu atual Liverpool, detentor do título da Champions League e, mais recentemente, da Premier League, aguardada pelo clube durante 30 anos, não precisa do haka para se energizar. Tira toda a inspiração de seu treinador, que tem energia de sobra e conhece as ferramentas para transmiti-la a cada um dos atletas. A inspiração nos neozelandeses em relação ao nível de expectativa que se deve ter, no entanto, segue lá, no coração de seu trabalho.

“Preparamo-nos para o jogo com o Manchester City com foco total. Estaremos preparados para a próxima temporada também. Não conheço outro jeito de fazer as coisas. Aprendi que, quando você atinge o ápice, você já está em queda, e nós não sentimos isso. Não me sinto completamente satisfeito. É um grande passo, mas não é a única coisa sobre a qual quero falar com os rapazes daqui a 20 anos.”

Argumento justo e digno de um campeão como é Klopp, embora o que esta equipe tenha conquistado certamente já rendeu uma grande história para se contar no pós-carreira.